quinta-feira, 10 de julho de 2014

Espécies animais e suas referências bibliográficas e mitológicas, Filomena Barata


 Por Filomena Barata
 Desenhos: Marcos Oliveira e José Manuel Jérez Linde (os assinalados)


Mosaico representando Orfeu e os animais.Museu Arqueológico de Palermo. 


Esposa de Fauno, deus dos bosques e planícies que protege os rebanhos e culturas, cujos oráculos se conhecem através dos murmúrios das árvores, Fauna é  protectora das mulheres contra a esterilidade, é considerada pelos Romanos como a mãe do deus Latino, um dos reis lendários do Lácio, divinizado como Jupiter Latiaris. Nos lugares onde se faziam os oráculos de Fauno, os ritos observados foram minuciosamente descritos por Virgílio: um sacerdote oferecia uma ovelha e outros sacrifícios e a pessoa que consultava o oráculo tinha que dormir uma noite sobre a pele da vítima, dando então o deus uma resposta através de um sonho ou mediante vozes sobrenaturais. Ovídio descreve ritos parecidos celebrados sobre o Aventino.
Em Roma havia um templo de Fauno de forma redonda, rodeado por colunas, sobre o monte Celio, e construiu-se-lhe outro no 196 a. C. na Ilha Tiberina, onde lhe eram oferecidos sacrifícios em Fevereiro, dia em que os Fabii tinham morrido em Cremera. O escritor cristão Justino Mártir identificou Fauno com Luperco (‘o que protege do lobo’), o protector do gado, seguindo Lívio, originalmente adorado na Lupercalia, celebrada no aniversário da fundação de seu templo (15 de Fevereiro), quando seus sacerdotes (Luperci) levavam peles de cabra e golpeavam aos espectadores com cintos de pele de cabra. No festival da Faunalia, que se celebrava a 5 de Dezembro, as pessoas do campo com grande alegria e banquetes, fazia referência a Fauno como deus da agricultura e do gado.
Também o deus Silvano (lat. Silvanus) divindade das florestas (lat. silva – donde deriva o nome) que mais tarde passou a ser identificado com o deus Fauno ou com o Pã grego. Alguns autores descrevem-no como filho de Saturno e outros de Fauno.
Tal como Fauno, era um deus puramente romano e, também como ele, tinha por atribuição proteger as atividades pastoris. Silvano guardava os bosques e se dizia-se que foi o primeiro a separar as propriedades nos campos.



Escultura do dios Silvano de Los Mártires , Talavera la Real, Badajoz, segundo desenho de José Manuel Jerez.



Vaso de vidro soprado romano com aves e frutas. Entre os Séculos II e III.  Museu do Louvre, Paris. (Ancienne collection Messaksoudy – 1920). Fotografia de José Manuel Jerez Linde

 Gralha

Corónis foi transformada por Atena nesta ave. Nota: a gralha-preta, Corvus Corone , ocorre em Miróbriga.
 Serpente

 
Virgílio, As Geórgicas, Sá da Costa, 1948 Lisboa. 

Aparece associada a Apolo, Júpiter , Hermes; Esculápio, Perseu e à Medusa e ainda a Hércules (a Hidra). A serpente é também um dos atributos de Mitra.
Ver: Virgílio, As Geórgicas, Sá da Costa, 1948 Lisboa.  ( 33;  LIV. II 101; 127; 127; 135 )
Barata, Filomena, «O Tesouro da Lameira Larga», Revista de Arqueologia», Madrid. 
Estr. III, 2, 6; 
Montero Herrero, Santiago, Diosas y Adivinas 
«Monstros e Mitos», Revista de Arqueologia, nº 207.
A Medusa que também significa ‘sabedoria feminina’, tem um simbolismo que ao que parece foi importado da Líbia, onde as amazonas a cultuavam como a Deusa Serpente.
Sobre as Górgonas ver artigo Filomena Barata «Tesouro da Lameira Larga» e «Monstros e Mitos», Revista de Arqueologia, nº 207.

Desenho do séc. XVIII do bracelete de bronze com extremidades serpentiformes, achado na escavação de Frei Manuel do Cenáculo na necrópole do Raco (Cercal). Seg. Delgado, 1946-1949 Fig. 3.
Curiosamente, na Grécia Antiga, ela ganha outras conotações, e a serpente é dissociada de Atena, também divindade da Sabedoria, que aqui é transformada em inimiga da Górgona.

«Antes do reinado de Júpiter não havia agricultores em luta com os campos; não era permitido dividir a terra, e assinalar as extremas; os homens buscavam o proveito para o bem comum, e o próprio solo produzia mais liberalmente, sem nada se lhe solicitar. Foi Júpiter que deu às negras serpentes o veneno maléfico, quem mandou que os lobos fossem depredadores, quem ordenou ao mar que se agitasse, quem sacudindo as folhas, fez cair delas o mel; quem retirou aos homens o fogo, e estancou os vinhos que corriam em regatos. Tudo para que o homem, à força da experiência e constante exercício, forjasse pouco a pouco as várias artes, alcançasse, abrindo sulcos, as messes de trigo, e fizesse brotar das veias da pedra o fogo que se lhe havia ocultado»

 Virgílio, As Geórgicas, I, 135. Ed. Sá da Costa, 1948 Lisboa.
Apolo matou a serpente Píton que vivia numa caverna do monte Parnaso. Apolo também se transformou em serpente para se unir a Dríope, filha do rei Dríops.
Ver ainda: as serpentes enroscadas em Ixíon, de cujos amores com Hera nasceram os Centauros. Fruto desses amores Ixíon foi castigado e amarrado com serpentes a uma roda que gira, sem repouso, no fundo do Tártaro.
A serpente aparece ainda associada ao Génio, simbolizando a força espiritual e vivificante dos homens, pois todos se fazem acompanhar dessa divindade individual que o acompanha e protege até à morte, dos imperadores e dos deuses, a exemplo do Génio de Júpiter.
De Itálica provém um busto de Adriano que tem na couraça uma representação de uma Górgona (ver Pilar León, Esculturas de Itálica». De Tarragona provém um outro busto semelhante. Ver «La Mirada de Roma», p. 12, e de Mérida há uma estátua onde está também representada na coraça.(idem, p. 186). Ver também «Sarcófago da vindima» do MNA. No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, proveniente de Ferragudo com a forma de serpente, datável dos séculos IV-II a. C. Também no Museu de Arqueologia há um pingente de vidro, proveniente de Comôros da Portela (Silves) com a forma da cabeça de uma serpente, datável dos séculos VII-V a. C. Ainda no Museu Nacional de Arqueologia há uma pedra de anel da colecção Bustorff Silva, de proveniência desconhecida, que apresenta gravada a Medusa «Um gosto privado – um olhar público», p. 133.
A serpente simboliza a renovação pois muda a sua pele todos os anos.
Com motivos onde as serpentes estão representadas enroladas nos troncos de árvores, é um conjunto de lucernas provenientes de Santa Bárbara, bem como seis exemplares onde está representada a Medusa (MAIA, 1997, 61-62 e 74-75).
De Torre de Ares provém ainda uma lucerna de finais dos imperadores flávios, onde no disco aparece representado um altar ladeado por duas palmeiras com duas cobras enroladas nelas (NOLEN, 1994, 43, lu.40). 
Hermes usava um bastão com uma serpente enrolada. Ver Plínio III, 78; V, 15; XXXV, 202. «Estes animais (as lebres), como se alimentam de raízes, destróiem plantas e sementes». (…) uma invasão (de lebres) deste género ultrapassa as suas proporções habituais e propaga-se como uma peste, ao modo das pragas de serpentes ou de ratos campestres» Estr. III, 2, 66
As serpentes são marcantes nos mitos gregos muito arcaicos: o mito-elemento de Laocoonte, a antiga Hidra de Lerna, que lutou com Hércules, a serpente do mais velho oráculo de Delfos, etc… A serpente é um dos animais associados com o culto de Mitra, sendo também o que Esculápio tem a seus pés, motivo pelo que ainda hoje as farmácias tenham como símbolo este animal, pos Esculápio é a divindade da saúde.
Santuário pré-romano associado ao culto ofiolátrico (de serpentes) «No concelho de Torre de Moncorvo, no sítio arqueológico do Baldoeiro, sobre o Penedo do Corvo, existem algumas cavidades e entalhes picados na rocha que alguns autores de inícios do século XX (entre os quais Santos Júnior) compararam com o santuário de Panóias. Se bem que seja possível que estes entalhes possam corresponder a uma torre roqueira da Reconquista, eventualmente edificada sobre o penedo, há uma ou duas pequenas cavidades cuja função é inexplicável, pelo que poderá corresponder, efectivamente, a um santuário pré-romano associado ao culto ofiolátrico (de serpentes), devido a uns gravados serpentiformes que aí também existem. Pelos mistérios que estes sítios encerram, aqui fica uma proposta de visita. Se bem que o Baldoeiro não esteja devidamente valorizado para apresentação ao público. “Esta cobra que mede 1m 85 faz parte de um conjunto de seis, das quais, a maior mede três metros. Podem ser observadas no dorso da enorme rocha granítica conhecida localmente por Fraga do Corvo e, também, por Fraga ou Penedo do Cobrão. Santos Júnior adianta que poderá tratar-se de um vestígio reminiscente de algum culto ofiolátrico, mas, até ao momento, não se encontrou documentação que comprove a existência de tal culto nesta região. O que se pode afirmar é que se trata de uma zona riquíssima em vestígios arqueológicos que demonstram ter havido uma continuidade de ocupação do local, desde a Pré-História até à actualidade». in Civitas Baniensium – O culto da serpente. «Portugal Romano», Facebook. (ver Filomena Barata trabalhos sobre Mitra e Esculápio neste Site ….).
Os ofídios aparecem ínumeras vezes associados a Figuras Mitológicas, de que se destaca a FRAUDE, «uma divindade alegórica infernal, encarnação do perjúrio» que vivia nas águas do Cocito, onde escondia o seu corpo monstuoso em cauda de serpente. Só mostra o rosto hipocritamente amável e doce» (Diccionário de Mitologia Grega e Romana, Jel Scmidt), motivo pelo que a FRAUDE é muitas vezes representada com duas cabeças e a máscara do engano.
 Fotografia de Hércules – Museu Nacional de Arqueologia
No Museu Nacional de Arqueologia há um «baixo-relevo de um homem nu, barbado, de pernas abertas levantando uma maça com a mão direita por cima da cabeça enquanto segura com a esquerda o corpo de uma serpente que se enrola na perna esquerda avançada. Trata-se, segundo descrição da peça do MNA, de um «fragmento de uma composição certamente mais vasta. A atitude, a musculatura, os vincos da face coberta de barba intensa pretendem representar o vigor do personagem combatendo a serpente que o ataca. É a representação de Heracles ou Hércules em luta contra a Hidra de Lerna, a serpente de múltiplas cabeças que renasciam quando cortadas e cujo sopro mortal provocava devastações nas colheitas e nos rebanhos. Representa um dos “doze trabalhos” que o herói realizou com êxito às ordens do seu primo Eristeu. Pode tratar-se do fragmento de um sarcófago, peça que poderia reproduzir em relevo outros trabalhos de Hércules. Apesar de ser desconhecida a sua proveniência, as características patentes na execução da peça, as escaras e mutilações sofridas, a própria pátina, militam em favor da sua autenticidade». (Segundo ficha de Catálogo de Escultura Romana do MNA, da autoria de José Luís de Matos).
Segundo afirma Virgílio, em «As Geórgicas», «Aprende a queimar nos estábulos o oloroso cedro, e a enxotar as cobras malignas com o fumo do gálbano. É frequente esconder-se debaixo das manjedouras a que há muito se não deu volta uma víbora, perigosa quando se lhe toca, que foge, espavorida, da luz; ou uma cobra, inimiga cruel dos bois e portadora de venenos para o gado, useira em penetrar nos tectos escuros, anichar-se no chão. Se assim acontecer, pastor, deita a mão a uma pedra, deita a mão ao cajado, e prosta-a à pancada, quando ela se ergue ameaçadora e incha o colo, a sibilar. Já foge … já escondeu na terra a cabeça assustada … ainda as curvas do meio do corpo e da cauda se desenroscam …; numa convulsão final, arrasta lentamente os últimos aneis» (As Geórgicas: 420).
«Há também, nas charnecas da Calábria, uma serpente malfazeja que, erguendo o peito, rola um dorso revestido de escamas e um comprido ventre, sarapintado de grandes manchas. Quando os rios saem dos álveos e as terras estão encharcadas pela primavera húmida e pelos Austros pluviosos, frequenta as margens dos chaboucos: aí, insaciável, atafulha a negra guelra com peixes e palreiras rãs. Quando os charcos enxaguam e as terras abrem gretas com o ardor do sol, vai para os sítios, e, assanhada pela sede, exasperada pelo calor, lança-se furiosa pelos campos, revolvendo os olhos inflamados. Não seja eu nunca ter tentado a entregar-me a um sono ameno ou a reclinar-me na relva, na encosta de um bosque, na ocasião em que esta serpente, tendo largado a pele e a reluzir com um novo vigor, desenrola os anéis, e, deixando no ninho os filhos ou os ovos, se empina para o sol e dardeja a língua tri-furcada»!. (Virgílio, III, 425).
A serpente aparece ainda associada ao Génio, simbolizando a força espiritual e vivificante dos homens, pois todos se fazem acompanhar dessa divindade individual que o acompanha e protege até à morte, dos imperadores e dos deuses, a exemplo do Génio de Júpiter.

De Itálica provém um busto de Adriano que tem na couraça uma representação de uma Górgona (ver Pilar León, Esculturas de Itálica». De Tarragona provém um outro busto semelhante. Ver «La Mirada de Roma», p. 12, e de Mérida há uma estátua onde está também representada na coraça.(idem, p. 186). Ver também «Sarcófago da vindima» do MNA. No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, proveniente de Ferragudo com a forma de serpente, datável dos séculos IV-II a. C. Também no Museu de Arqueologia há um pingente de vidro, proveniente de Comôros da Portela (Silves) com a forma da cabeça de uma serpente, datável dos séculos VII-V a. C. Ainda no Museu Nacional de Arqueologia há uma pedra de anel da colecção Bustorff Silva, de proveniência desconhecida, que apresenta gravada a Medusa «Um gosto privado – um olhar público», p. 133.
A serpente simboliza a renovação pois muda a sua pele todos os anos.
Com motivos onde as serpentes estão representadas enroladas nos troncos de árvores, é um conjunto de lucernas provenientes de Santa Bárbara, bem como seis exemplares onde está representada a Medusa (MAIA, 1997, 61-62 e 74-75). De Torre de Ares provém ainda uma lucerna de finais dos imperadores flávios, onde no disco aparece representado um altar ladeado por duas palmeiras com duas cobras enroladas nelas (NOLEN, 1994, 43, lu.40). Hermes usava um bastão com uma serpente enrolada. Ver Plínio III, 78; V, 15; XXXV, 202. «Estes animais (as lebres), como se alimentam de raízes, destróiem plantas e sementes». (…) uma invasão (de lebres) deste género ultrapassa as suas proporções habituais e propaga-se como uma peste, ao modo das pragas de serpentes ou de ratos campestres» Estr. III, 2, 66
As serpentes são marcantes nos mitos gregos muito arcaicos: o mito-elemento de Laocoonte, a antiga Hidra de Lerna, que lutou com Hércules, a serpente do mais velho oráculo de Delfos, etc… A serpente é um dos animais associados com o culto de Mitra, sendo também o que Esculápio tem a seus pés, motivo pelo que ainda hoje as farmácias tenham como símbolo este animal, pos Esculápio é a divindade da saúde.
Santuário pré-romano associado ao culto ofiolátrico (de serpentes) «No concelho de Torre de Moncorvo, no sítio arqueológico do Baldoeiro, sobre o Penedo do Corvo, existem algumas cavidades e entalhes picados na rocha que alguns autores de inícios do século XX (entre os quais Santos Júnior) compararam com o santuário de Panóias. Se bem que seja possível que estes entalhes possam corresponder a uma torre roqueira da Reconquista, eventualmente edificada sobre o penedo, há uma ou duas pequenas cavidades cuja função é inexplicável, pelo que poderá corresponder, efectivamente, a um santuário pré-romano associado ao culto ofiolátrico (de serpentes), devido a uns gravados serpentiformes que aí também existem. Pelos mistérios que estes sítios encerram, aqui fica uma proposta de visita. Se bem que o Baldoeiro não esteja devidamente valorizado para apresentação ao público. “Esta cobra que mede 1m 85 faz parte de um conjunto de seis, das quais, a maior mede três metros. Podem ser observadas no dorso da enorme rocha granítica conhecida localmente por Fraga do Corvo e, também, por Fraga ou Penedo do Cobrão. Santos Júnior adianta que poderá tratar-se de um vestígio reminiscente de algum culto ofiolátrico, mas, até ao momento, não se encontrou documentação que comprove a existência de tal culto nesta região. O que se pode afirmar é que se trata de uma zona riquíssima em vestígios arqueológicos que demonstram ter havido uma continuidade de ocupação do local, desde a Pré-História até à actualidade». in Civitas Baniensium – O culto da serpente. «Portugal Romano», Facebook. (ver Filomena Barata trabalhos sobre Mitra e Esculápio neste Site ….).
Os ofídios aparecem ínumeras vezes associados a Figuras Mitológicas, de que se destaca a FRAUDE, «uma divindade alegórica infernal, encarnação do perjúrio» que vivia nas águas do Cocito, onde escondia o seu corpo monstuoso em cauda de serpente. Só mostra o rosto hipocritamente amável e doce» (Diccionário de Mitologia Grega e Romana, Jel Scmidt), motivo pelo que a FRAUDE é muitas vezes representada com duas cabeças e a máscara do engano.

Não esquecer ainda a ambivalente serpente bíblica, por uma lado símbolo malévolo e tentador ou a própria Sabedoria.
O envolvimento da Árvore da Vida pela serpente tem o mesmo significado simbólico do que o bastão de Esculápio onde se enrola o mesmo ofídio.
Seja qual a forma que adquira, a lenda da cidade de Lisboa que a relaciona com as serpentes e, mais especificamente com Ofiusa, a sua rainha, é comum a outros locais: «a rainha-serpente-réptil, representando a deusa-terra-mãe ser vencida por um herói, um Deus ou um Santo. É algo que os estudiosos da mitologia conhecem e que se aproxima do conhecido mito de Adão e Eva».
O Phanes Mitraico, Exposição Lusitânia Romana - Origem de Dois Povos

«Uma das peças mais enigmáticas e com maior impacto na exposição Lusitânia Romana. Origem de Dois Povos é a imagem de um jovem desnudado, enrolado por um enorme ofídio, com uma cabeça de leão no peito e outra de bode aos pés. Esculpida em mármore, à escala humana, apresenta algumas lacunas que terão implicado a perda de importantes atributos e dificultam a sua identificação. Embora dada como efígie de Mitra, não detém os elementos mais característicos desta divindade de origem oriental, ligada ao culto solar, nem parece ter integrado as cenas principais da sua iconografia no Ocidente. Com efeito, em termos visuais e simbólicos será mais próxima de Phanes (deus alado, da vida e da criação, referenciado no Eros grego e no Osíris-Chronocrator egípcio, e contemplado no culto órfico), de Arimanius (deus leontocéfalo, que poderá representar a faceta mais agressiva deste antropocéfalo e que era venerado no culto mitraico) e ainda de Aion (deus do tempo cíclico e eterno, que não seria estranho ao culto mitraico). Os atributos animais remanescentes reiteram-no como divindade temporal: o felídeo poderá indicar o tempo presente, solar; o ofídio o tempo eterno, lunar; o caprídeo o tempo cíclico, sobretudo se tiver estado em oposição a um ovídeo. Parecendo resultar de um sincretismo religioso, a figura provirá do Mithræum de Mérida e pertence ao Museo Nacional de Arte Romano».
Cátia Mourão
  
A rã, que pouco se distingue do sapo, é um animal lunar, se bem que em muitas culturas esteja associada à renovação, ao despertar da natureza que se anuncia através do seu “canto”. Genericamente as rãs são associadas à Mãe-Terra, e à fecundidade materna, uterina. A divindade com cabeça de rã, Hécate, é uma deusa da terra, com poderes sobre a vida e a morte, senhora de poder dar vida ou envenenar alguém. As rãs e os sapos tem sido associados ainda a bruxarias, pois é comum que os encontremos como ingredientes indispensáveis nas poções mágicas, ou em determinados cemitérios, visando atingir, fechando-lhes a boca, de molde a fazer mal a alguém.
 Sapo
As Geórgicas , Virgílio, Sá da Costa Lisboa 37; 49 Na Antiga Grécia o sapo parece ter simbolizado a luxúria e era o nome de uma sacerdotisa, a interprete de Afrodite.
Nas Geórgicas de Virgílio (Liv. I) assim são referidos:
«Logo de início temos de ir à eira
e de com grande rolo a nivelar,
depois de revolvido o solo à mão
e de também com greda endurecido
para que o não domine erva nenhuma
nem possa o pó vencê-lo e destruí-lo,
ou possa um rato que não vale nada
fazer debaixo a toca, com dispensa,
ou a cega toupeira se abrigo,
ou em buracos apareça sapo
e tudo o que de estranho a terra cria
como o gorgulho com o seu tesouro
ou formiga com medo da velhice».

 Coelho/Lebre








Pormenor do Mosaico de Orfeu. Pormenor do Mosaico de Orfeu, Badajoz.
Século IV 
Proveniência: Villa romana de Pesquero (Pueblonuevo del Guadiana, Badajoz).

Era o motivo central do mosaico de una enorme sala. 


Detalhe de um fresco de Pompeia. Fotografia de Ancien Rome.

 

Mosaico com representação de coelho. Mérida.
Fotografia: Morenzo Plana Torres.



Fragmento de caixa em marfim de Época Romana, proveniente da Necrópole do Olival do Senhor dos Mártires.


Apresenta, em baixo relevo, representação de uma lebre deitada sobre as quatro patas, circunscrito ao interior de uma moldura quadrangular simples



Era conhecida a abundância de coelhos em toda a Hispânia que foi salientada pelos Romanos, havendo referências a esse respeito em Estrabão.


Os coelhos aparecem ligados à noção de Fertilidade e, por isso, estão ligados à velha divindade Terra-Mãe.

De algum modo o coelho da Páscoa é a continuidade da ideia de regeneração da vida sob todas suas formas, como bem o definia Chevalier & Gheerbrant no seu «Diccionário dos Símbolos».

Existem muitas referências ao coelho nos autores da Antiguidade, podendo referir-se: Virgílio, As Geórgicas, Sá da Costa, 1948, Lisboa; Plínio, N.H., III, 78; VIII, 104, 218, 226, 270; XI, 196. Estr. III, 2, 6; III, 5, 2; Montero Herrero, Santiago, Diosas y Adivinas As Geórgicas, Sá da Costa, Lisboa, 1948, pp. 45; 125; Diosas y Adivinas , 155
Também é um animal representado com frequência nas lucernas romanas, como são os exemplares provenientes de Santa Bárbara (MAIA, 1997, 101-102).

No Museu Nacional de Arqueologia há uma lucerna da colecção Barros e Sá, de proveniência desconhecida, que apresenta uma decoração no disco com um coelho e óvulos na orla, datável do século I (ver o catálogo da exposição «Um gosto privado - um olhar público», p. 200.

Datável do século IV, é uma tijela decorada com uma peça de caça gravada à mão, proveniente de Torre de Ares, onde estão representados dois cães e duas lebres rodeando um cesto de fruta («O Vidro em Portugal» e NOLEN, 1994: 179, vi 87).

Do Neolítico Final, datável da segunda metade do 4º milénio, proveniente da Gruta da Cova da Moura, existe uma pequena escultura zoofórmica representando um coelho ou lebre, executado numa pedra verde (variscite?) «Lisboa Subterrânea», p. 179. Ver os «Mosaicos romanos con aves rapaces (halcones en escenas de cacería y águilas en escenas simbólicas) y con la caza de la perdiz», in ANAS 1994-95.

As lebres eram frequentemente usadas em métodos adivinhatórios nas regiões germanas (Montero, 155).«É, todavia , este o tempo (o Inverno) em que se colhem as landes dos montados, as bagas do louro, as bagas cor-de-sangue da murta, e o fruto da oliveira; (..) em que se perseguem as orelhudas lebres». Segundo Plínio, « ... Ao género das lebres pertencem também os animais a que na Hispania se chamam «cunuculi», de fecundidade inesgotável (...) Plínio, N.H., VIII, 217
Em Estrabão, as lebres são consideradas como «animais daninhos» : «Estes animais, como se alimentam de raízes, destróiem plantas e sementes». (...) uma invasão (de lebres) deste género ultrapassa as suas proporções habituais e propaga-se como uma peste, ao modo das pragas de serpentes ou de ratos campestres» Estr. III, 2, 69.

Também num monumento epigráfico romano proveniente de Soure (HEp, 6, 1996, 1037), se salienta a importância da «representação, em baixo relevo, da cena de caça à lebre e o elevado interesse histórico-cultural da referência a laquearia, como elemento arquitectónico integrante do monumento» (Encarnação, José).Lebre/Coelho.

Existem também numismas, nomeadamente bronzes de Hadrianus que representam a Hispânia reclinada, tento perto um coelho.

Tambám estão presentes «Sarcófago da Vindima» do MNA (MATOS, 1005: 100).
No mosaico emeritense da fotografia que se encontra actualmente a ser restaurado pelo Museo Nacional de Arte Romano está representado um coelho, entre muitos outros animais.
 Cavalo

Foto de A Lusitânia.
Pormenor do Mosaico de Orfeu, Badajoz.
Século IV 
Proveniência: Villa romana de Pesquero (Pueblonuevo del Guadiana, Badajoz).

Do ponto de vista simbólico, o cavalo está associado à natureza instintiva, à energia vital.
O Cavalo aparece associado a Pégaso, Posídon, Apolo; Marte; Hades e ainda a Vitória, que personificava o triunfo e a glória e que podia correr e voar em grande velocidade,   e ainda às Bóreas.
Ver: As Geórgicas: 59; 101; 105; 107; 111; 115; 117; 123; 131; 133; NH IV 116; VIII, 106; XVIII, 108, 166; VIII, 57 166;XXXVII, 203; Plínio, NH; Estrabão, Geografia (III, 3, 7; III,4,15). Diosas y Adivinas.Montero Herrero ;Plínio; Estrabão; Mela; Virgílio, Sá da Costa (As Geórgicas) Lisboa, 1948; Varráo )De Re Rustica II, 7, 15) refere a importância que os cavalos tinham, salientando o seu uso na guerra, transporte, caça, bem como as célebres corridas de cavalos no circo.




Vitória alada no seu carro de cavalos. Ca 50 a.C. Herculano.

Posídon deve a sua ligação ao cavalo pelas qualidades ctónicas Bóreas, o vento do Norte, tomou a forma de um cavalo para se unir às éguas de Erictónio. Posídon também se tranformou em cavalo para perseguir Deméter que se havia metamorfoseado em égua. É um animal representado com frequência nas lucernas romanas, como são os exemplares provenientes de Santa Bárbara (MAIA, 1997, 100-102).
Por sua vez referia Plínio que o vento Zéfiro, deus do vento do Oeste, filho do Titã Astreu e de Eos, a deusa da aurora, irmão das Bóreas e Noto (ventos do Norte e do Sul) dizia Plínio que engravidava as éguas “ Olissipo equarum e Favonio conceptu nobile”.
Também o poeta Virgílio faz referência à fertilidade das éguas emprenhadas por Zéfiro:
«Vede além no alto cerro a cena que aparece
Todas as éguas ao Zéfiro voltadas
Estáticas sorvendo as auras delicadas
Basta aquilo, e acontece amiúde este portento,
Sem cônjuge nenhum, grávidas só do vento…
 Virgílio, Geórgicas
O mesmo autor refere-se às corridas de cavalos do seguinte modo:
«Todo o que cobiçar a palma olímpica
por uma entrega à cria de cavalos
e como todo aquele que à lavoura
que ofertar novilhos mais robustos,
ambos terão cuidado especial
em escolher-lhes a mãe.
(…)
A mesma escolha em gado cavalar:
cuidado atento com aquelas crias
que destinas um dia a ser semente.
(…)
Não vês como saídos das cocheiras,
arrebatam os carros o terreno
e no veloz correr, na brava luta,
vai exaltando o espírito dos jovens?
Palpitam na esperança da vitória
E se abatem no medo de falhar.
a chicote se incitam os cavalos
e lhes soltam as rédeas, ardem eixos,
ora sobem ou baixam como ao vento,
ao assalto dos ares pelo espaço,
sem demora nenhuma e sem repouso.
A poeira amarela se levanta,
os da frente molhados por espuma
pelo resfolegar dos que atrás seguem,
e pelo amor da glória como vão,
o que fazem por gosto da vitória.
131
Erictónio foi deles o primeiro
que ousou o dirigir quatro corcéis
e manter-se de pé, já vencedor.
Lépitas Peletrónios foram eles
que primeiro montaram, deram freio,
fizeram voltear ou ensinaram
cavalo a suportar o cavaleiro
das armas revestido e galopando.
Custoso é conseguir o bom cavalo
para um ou outro fim, os criadores
antes de tudo querem juventude,
ardente coração, velocidade.
(…)
Mas, ao quarto Verão duns outros três,
comece nos volteios, passo acerte,
alternas curve as pernas nas corridas.
Aposte no voar mais do que o vento
e, como se sem rédea, mal as patas
deixem que marca for pelo terreno,
(…)
Aí voa Aquilão, ao mesmo tempo
varre campo lavrado e mar aberto,
se cobre de suor nosso corcel
para chegar às metas duma Eleia;
por galopar nas pistas, logo a boca
uma espuma sangrenta lhe desborda,
ou dócil o pescoço lhe aguenta
o carro que na Bélgica suspendem.
Logo que está domado já pode ele
ganhar mais corpo com um bom ferrejo,
pois se antes o tivesse o dono feito
altivo ficaria, já ninguém
para o trabalho dele disporia,
contra o chicote estava ou freio de puas»
Virgílio, Geórgicas, III, 95-100




     Pintura com representação de Auriga. Óstia. Fotografia a partir de: 
     https://pt.pinterest.com/pin/149181806378243666/

Em Castro Verde, apareceram também dois exemplares com biga e quadriga (MAIA, 1997: 92-93) e ainda dois exemplares com a representação de Pégaso (MAIA, 1997: 79), cavalo alado que nasceu do sangue da Medusa, quando esta foi degolada por Perseu que o montou imediatamente para fugir das outras duas Górgonas. 
Também na Ammaia são conhecidas duas lucernas com  representações de bigas (QUARESMA, José Carlos, 2015, Terra Sigillata, paredes finas e lucernas dos sectores funerários da Ammaia)




Pégaso é também o cavalo de Zeus, portador do seu raio. Em algumas representações Apolo aparece sobre um cavalo puxado por cavalos alados. 
Pégaso era um cavalo voador na mitologia grega, geralmente descrito como sendo de cor branca, e seria filho de Poseidon, deus dos oceanos, e de Medusa, uma das terríveis górgonas (monstros com asas de ouro, cabelos de serpentes e dentes de javali). Terá nascido com seu irmão Chrysaor quando a Medusa foi decapitada por Perseu.
Pégaso terá sido capturado enquanto bebia água de um poço e domesticado pelo herói grego Belerofonte a quem acabou por ajudar contra a Quimera e as amazonas. Diz a Mitologia que foi montado em Pégaso que Belerofonte conseguiu matar o horrível monstro Quimera, mas quando o herói tentou montar o cavalo novamente, ele atirou com Belerofonte e subiu para os céus, onde virou uma constelação.
Proveniente da cidade romana da Ammaia é uma ágata com a representação de Pégaso com as suas longas asas abertas e erguidas. Sentado no chão, um guerreiro (Belerofontre), segurando uma espada e uma lança. Na mão direita tem um escudo (CRAVINHO, Graça, 2015, Espólio Funerário da Ammaia, a Joalharia, p. 111).
Esta investigadora data-a do século I a. C. - I d. C.






Inúmeros são os numismas onde aparece representado o cavalo, como é o áureo de Augusto cunhado na Hispânia, onde está representada uma quadriga triunfal, cujo carro está decorado com Victórias. No anverso, César Augusto com coroa de louros. Ver «La Mirada de Roma», p. 118. No Museu Nacional de Arqueologia existem também vários exemplares com representações equestres, podendo citar-se, apenas a título de exemplo, o denário ibérico do Cabeço de Vaiamonte e o sestércio de Nero (Portugal das Origens à Época Romana, 1989, 67 e 73). De Torre de Ares provém ainda uma lucerna, onde no disco aparece representado uma biga (NOLEN, 1994, 44, lu.48).
De Torre de Palma provém o célebre «mosaico dos cavalos» Hiberus, Leneus, Pelops e Lenobatis (LANCHA, 1994). Numa placa funerária de Lupus,proveniente do Monte de Vale do Vinagre, em Baleizão (IRCP 312) é visível um cavalo naïf. De assinalar, e apenas por curiosidade, a frequente representação de equídeos na arte rupestre em território nacional, de que se pode citar a título de exemplo o Vale do Côa e a Gruta do Escoural. Ver os « Los Mosaicos de la villa romana de “Panes Perdidos”, in ANAS 1994-95.
Da Necrólope do Pombalinho, Santarém, provém uma garrafa quadrangular, cujo fundo tem uma marca moldada, “representando, dentro de um círculo, um cavaleiro de pé frente ao seu cavalo; sobre este, as letras CEH. O vidro é de cor verde-gelo. Esta peça provém de contexto funerário, tendo integrado o espólio de uma incineração”.

Fundo de garrafa com representação de cavalo. Museu Nacional de Arqueologia. 
Fotografia de Paulo Oliveira.

Nos processos de adivinhação oníricos, sonhar com um cavalo pode simbolizar a mulher, assim como sonhar com javali ou com pombas (MONTERO HERRERO, Santiago, 1994: 200).
Segundo Mela, a Hispânia era «abundante em homens, cavalos, ferro, chumbo, cobre, prata e ouro; e é tão fértil que, também em alguns lugares que a falta de água torna mais estéreis e pobres, produz, não obstante o linho ou o esparto». Pomponius Mela, Chorographia, II, 86. Segundo Plínio « o vento (favonius) fecunda tudo o que vive sobre a terra, porque na Hispânia emprenha até as éguas». Plínio, NH, XVI, 93. 
Também segundo informação de Plínio, na Lusitânia, perto de Olisipo «as éguas de viradas para a brisa do Favónio recebem um sopro fecundante e deste modo se gera uma cria muito veloz, mas que não ultrapassa os três anos de vida» (Plínio, VIII, 166.14). Diz-nos Virgílio: «Se, porém, é tua predilecção criar cavalos para a guerra e para os esquadrões intrépidos, ou deslizar sobre rodas velozes pelas margens do Alfeu, o rio de Pisa, e lançar no bosque de Jove carros que pareçam voar, é necessário, em primeiro lugar que o potro se habitue a ver a bravura e as armas dos combatentes, a ouvir sem receio o som das trobetas, o gemido da roda do carro a que está atrelado e o retinir dos freios na cavalariça; e que se alegre, cada vez mais, com os afagos e as palmadas sonoras no pescoço, com que o cavaleiro o recompensa» As Geórgicas, III, 190.
Muito comum em opera musiva  é a representação de cavalos puxando a quadriga de Apolo vencedor, como refere Maria Teresa Caetano, no trabalho que abaixo se refere, a exemplo de Apolo Auriga, na Casa dos Repuxos de Conimbriga, bem como em lucernas.



Na imagem: Lucerna com cavalo vencedor junto a uma palmeira. Sobre o cavalo aparece incisa a palabra VICTOR e o número CCCCX, refirinndo-se ao número de vitórias obtidas por este cavalo. Museo Nacional de Arte Romano (Mérida).
Fotografia: José Manuel Jerez Linde.



Lucerna con representación circense. Cuadriga hacia la derecha y auriga portando una palma. 
Museo Nacional de Arte Romano (Mérida). Fotografia José Manuel Jérez Linde.
«(…) as cenas das corridas de cavalos eram frequentemente usadas na decoração que, numa perspectiva evergéta, ornamentava igualmente edifícios públicos, quer fosse ao nível da pintura, da escultura, ou dos opera musiua.
(…)
A iconografia alusiva à temática circense era também divulgada através de objectos de uso comum, como eram os produtos resultantes do artesanato “proto-industrial” então vigente, como as cerâmicas de mesa e lucernas, cujas cronologias recuadas conflituam com as teses ordinárias, ainda que se tenham mantido Império fora até épocas bastante tardias. De facto, o desmedido acolhimento dos ludi na Hispânia (e, de certa forma, por todo o Império) promoveu também a reprodução em série de objectos de uso comum ou decorativo que obtiveram grande aceitação, respondendo assim ao gosto de uma vasta clientela»
CAETANO, Maria Teresa Valente da Silva
Tese de Doutoramento em História da Arte da
Antiguidade
ANIMALIA QVÆ LACTE ALVNTVR : SIMBOLOGIA E ESTÉTICA NOS MOSAICOS ROMANOS DA PENÍNSULA IBÉRICA. II volume ( Iconographia )

Levantamento de numismas do MNA com representações de cavalos de Paulo Oliveira



Mosaico com representação de cena de caça, encontrado em Daphne, antiga Antioquía
 Mocho

Coruja
Ver coruja Atena, Diónisos «O Tesouro da Lameira Larga», Revista de Arqueologia; «De Ulisses a Viriato».
Barata, Filomena. Madrid
Mocho (Athene noctua). Casa dos pássaros. Italica (Santiponce-Sevilla). 
Fotografia a partir de Traianvs Ingenieria Romana. 
https://www.facebook.com/Traianvs-Ingenier%C3%ADa-Romana-151487124895824/


Mosaico com representação de Mocho. Uzès,  França
Fotografia a partir de: http://terraeantiqvae.com/profiles/blogs/unos-extraordinarios-mosaicos-romanos-afloran-en-el-sur-de-franci?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+TerraeAntiqvaeRevistaDeArqueologaEHistoria+%28Terrae+Antiqvae%29
A coruja simboliza a reflexão que domina as trevas. No Museu Nacional de Arqueologia há um Tetradracma de Atenas de prata, proveniente da Serra do Pilar, Vila Nova de Gaia, da II Idade do Ferro, datável de final do século V a. C. No anverso está representada a deusa Atena e no reverso apresenta uma coruja de pé, um ramo de oliveira e um crescente (ver «De Ulisses a Viriato», p. 282 e artigo do «Tesouro da Lameira Larga». Por se ter recusado a participar nos mistérios de Dionísio, Leucipe foi transformada por Hermes em Mocho e Arcipe em Coruja. A coruja foi sempre companheira inseparável da feiticeira, motivo pelo que os romanos lhe deram o mesmo nome com que designavam a feiticeira: striga. Símbolo da sabedoria ou da inteligência desde a antiguidade grega, a coruja é, tal como o galo e a serpente, um dos atributos da deusa Atena, e foi associada ao oculto e ao sobrenatural, possivelmente devido a seus hábitos noturnos e aos pios que emite. Uma célebre Pátera que eu já havia publicado – BARATA, F. S., “El tesoro romano de Lameira Larga. Mito y belleza en plata sobredorada”, Revista de Arqueología, 169, Madrid (1995)- tem também de Cardim Ribeiro a seguinte descrição no Catálogo da exposição «De Ulisses a Viriato» do Museu Nacional de Arqueologia: “Pátera circular, ligeiramente côncava, formada por dois elementos distintos – anverso e reverso -, soldados um ao outro; no reverso, ao centro, vêem-se três círculos concêntricos relevados; pé anular. No anverso da presente pátera, de notável qualidade artística apesar de se tratar, muito provavelmente, de um trabalho provincial, está representado um dos momentos altos – e mais divulgados – do mito de Perseu. Este herói, filho de Zeus e de uma mulher humana, decidiu a dada altura matar Medusa, a única das três terríficas Górgonas que era mortal, a fim de oferecer a respectiva cabeça a Polidectes, tirano da ilha que o acolhera a si e a sua mãe quando erravam, abandonados, ao sabor das vagas marítimas. Na dificílima empresa Perseu foi ajudado por Atena e por Hermes, que vemos figurados na pátera em análise, respectivamente de um e de outro lado do herói. Ao centro, este dirige-se, de espada apontada, para o antro das Górgonas, que se encontram dormentes; no entanto, Perseu vira a cara para trás, evitando a todo o custo os mortíferos e petrificantes olhares das monstruosas irmãs, guiando-se apenas pelo espelhado escudo de Atena. Só duas das Górgonas estão claramente representadas – a terceira vislumbra-se entre elas, tenuemente esquissada a buril -, sendo Medusa, com as características asas na cabeça, a que se situa mais perto do herói, que sobre ela avança a mão esquerda. Notem-se ainda vários pormenores registados nesta pátera: as asas nos pés de Perseu, figurando as sandálias aladas graças às quais ele se elevou para melhor capturar a sua presa; o brilhante escudo de Atena, que, para o observador, reflecte a imagem do próprio herói; e vários elementos simbólicos, alguns facilmente descodificáveis – como a oliveira sobre a qual pousa uma coruja, ambas significativamente ligadas a Atena -, outros de interpretação, por vezes mesmo de identificação, controversa, localizados no exergo desta peça: um stylus, uma tabella e um ramo de oliveira, à esquerda, também possivelmente relacionados com a deusa guerreira e sábia; à direita um ramo floral (de rosas ?); e, ao centro, talvez um capacete e um ceptro (ou, antes, um corno de abundância ?), eventualmente remetendo para Hades, cujo elmo permitiu a Perseu tornar-se obscuro e acabar por conseguir fugir, assim, da perseguição desencadeada pelas duas Górgonas irmãs de Medusa.”

Pátera da Lameira Larga, Museu Nacional de Arqueologia Ainda no Museu nacional de Arqueologia.
Fotografia Paulo Oliveira
Proveniente da Anta do Espadanal, Estremoz, há uma placa votiva em grés com uma representação que parece tratar-se um um mocho.

 Falcão (e gavião)
Símbolo solar, na tradição egípcia e greco-romana, entre os primeiros era considerado o «princípe celeste» e atributo do deus Rá, ou Sol Nascente, encarnando, de algum modo o Masculino. Contudo, uma vez que a fêmea é maior e mais forte que o macho torna-a um símbolo do poder feminino.
Aparece ainda associado à maga Circe.
Quer em materiais cerâmicos, quer em painéis musivários do período romano, encontramos representações de aves de caça, a exemplo de um mosaico tardio de Mértola, onde um falcão incompleto está bem identificado com os contornos do corpo e a asa desenhados a cinzento (Virgilio Lopes, 2001, Revista Municipal de Mértola). Datável do século IV, é uma tijela decorada com uma peça de caça gravada à mão, … Ver os «Mosaicos romanos con aves rapaces (halcones en escenas de cacería y … uilla de Milreu, datável do século II, e de Mértola (MATOS, 1995: 5659 e LOPES, Vigílio, 2001, Revista Municipal de Mértola). «Numa época em que os demais templos já haviam sido abandonados até mesmo pelos turistas que, na época em que os Imperadores (ainda não Cristãos) favoreciam o Egito e seus templos, viviam ocupando os sacerdotes que se haviam convertido em guias turísticos, o templo de Isis em Filae ainda se mantinha ativo e com um Clero residente. Seu oráculo era representante de Isis e de Horus e foi o último bastião do culto da mãe e do filho (que inspirara a história de Maria e Jesus) a resistir no Egito e no mundo Mediterrâneo. Conta-se que um falcão sagrado com uma penugem de um colorido todo especial vivia sobre o batente de entrada do templo, com efeito, este falcão era o próprio Horus, ou seja, agora que já não havia mais Faraós, o Horus havia se tornado um falcão a habitar o batente da porta de um templo. Foi no governo de Justiniano (527 – 565 d.e.c.) que o templo de Philae foi invadido e destruído por uma horda de Cristãos incitados por seus Clérigos. O falcão sagrado foi morto, o templo foi despojado de todo o seu ouro e os Sacerdotes foram dispersados ou mortos. Era a força de Cristo se impondo (literalmente) sobre os cultos que originaram sua essência, mas a quem ela não pagou outro tributo senão o da condenação por infidelidade e idolatria, as mesmas velhas desculpas de sempre, desculpas que justificaram tantas mortes ao longo da História e que ainda justificam inúmeros preconceitos ignorantes». in http://imperioroma.blogspot.com/2010/03/o-egito-romano.html
Quer em materiais cerâmicos, quer em painéis musivários, encontramos representações de aves de caça, a exemplo de um mosaico tardio de Mértola. Datável do século IV, é uma tijela decorada com uma peça de caça gravada à mão, … Ver os «Mosaicos romanos con aves rapaces (halcones en escenas de cacería y … uilla de Milreu, datável do século II, e de Mértola (MATOS, 1995: 5659). «Numa época em que os demais templos já haviam sido abandonados até mesmo pelos turistas que, na época em que os Imperadores (ainda não Cristãos) favoreciam o Egito e seus templos, viviam ocupando os sacerdotes que se haviam convertido em guias turísticos, o templo de Isis em Filae ainda se mantinha ativo e com um Clero residente. Seu oráculo era representante de Isis e de Horus e foi o último bastião do culto da mãe e do filho (que inspirara a história de Maria e Jesus) a resistir no Egito e no mundo Mediterrâneo. Conta-se que um falcão sagrado com uma penugem de um colorido todo especial vivia sobre o batente de entrada do templo, com efeito, este falcão era o próprio Horus, ou seja, agora que já não havia mais Faraós, o Horus havia se tornado um falcão a habitar o batente da porta de um templo. Foi no governo de Justiniano (527 – 565 d.e.c.) que o templo de Philae foi invadido e destruído por uma horda de Cristãos incitados por seus Clérigos. O falcão sagrado foi morto, o templo foi despojado de todo o seu ouro e os Sacerdotes foram dispersados ou mortos. Era a força de Cristo se impondo (literalmente) sobre os cultos que originaram sua essência, mas a quem ela não pagou outro tributo senão o da condenação por infidelidade e idolatria, as mesmas velhas desculpas de sempre, desculpas que justificaram tantas mortes ao longo da História e que ainda justificam inúmeros preconceitos ignorantes».
in http://imperioroma.blogspot.com/2010/03/o-egito-romano.html Nas tradições egípcia e greco-romana o gavião (e o falcão) está associado ao Sol.  Sendo a fêmea maior e mais forte que o macho torna-a um símbolo do poder feminino.
Desenho Marcos Oliveira

Águia

Águia. Museu-de-Évora
Fíbula aquiliforme. Fotografia de José Manuel Jerez Linde



A águia aparece conotada com a ressurreição e a imortalidade. A águia por ter a capacidade de voar muito alto é símbolo do Sol e do céu (morada dos deuses), e é conotada com a nobreza, a elevação espiritual e o poder divino. A águia simbolizava o poder de Roma e por isso era usada nos estandartes das legiões a partir de 104 a.C., após a reforma de Mario. Com Gaio Júlio César era executada com prata e ouro e, a partir de Augusto, passou a ser só de ouro. A águia era custódia da primeira coorte e só saía do acampamento romano em ocasiões especiais, quando se mobilizava toda a legião». http://diariodeuminfante.files.wordpress.com/2007/08/roma-antiga-full.pdf
Em Londres, em Outubro de 2015, foi encontrada uma águia de grandes dimensões, com 65 cm de altura e 55 de largura. Neste contexto, porque possui uma serpente na boca, simboliza a luta entre o bem (a águia) e o mal (a serpente) «un tema recurrente en contextos funerarios de época romana, aunque sólo se tiene constancia de un ejemplo similar en Jordania. Los arqueólogos creen que originalmente debió estar pintada con diferentes colores y debió adornar un fastuoso mausoleo, cuyos fundamentos también han sido desenterrados. De hecho, se conoce la existencia de un antiguo cementerio romano en la zona. La escultura, que ha sido descrita como una de las más importantes que ha sobrevivido de la Britania romana». cit. in: 

«Excepcionales hallazgos de época romana en Inglaterra».

http://www.nationalgeographic.com.es/articulo/historia/actualidad/8745/excepcionales_hallazgos_epoca_romana_inglaterra.html

A águia era usada pelo exército romano como insígnia das legiões. No tempo de Gaio Júlio César era feita de prata e ouro. A partir da reforma de Augusto passou a ser feita só de ouro. 
A águia era custódia da primeira coorte e só saía do acampamento romano em ocasiões raras, quando toda a legião se movimentava. Para garantir a sua segurança havia um legionário, denominado “aquilifer”. 



Mosaico com águia e cobra, detalhe do lado nordeste. Palácio de Constantinopla
Fotografia a partir de:
http://www.wikiwand.com/pt/Grande_Pal%C3%A1cio_de_Constantinopla

A águia aparece associada a Zeus/ Júpiter. Símbolo majestoso do poder supremo, sempre associado a Zeus. Por se ter recusado a participar nos mistérios de Dionísio, Alcítoe foi transformada neste animal. 
Em Santa Bárbara foram identificadas seis lucernas com a representação de Júpiter com a águia, datáveis do século I d. C. e seis exemplares ostentando a águia isolada sobre o disco (MAIA, 1997, 58; 104). De Torre de Ares provém uma tijela decorada com bandas de elementos vegetais e animais, salientando-se o javali, a cobra e a águia, datável do reinado de trajano (NOLEN, 1994, 73, ss.39). Existe ainda a representação de uma Águia numa Epígrafe Romana, proveniente do Torrão, consagrada pela flamínia Flavia Rufina (Encarnação, 1994-1995). 
Ver os «Mosaicos romanos con aves rapaces (halcones en escenas de cacería y águilas en escenas simbólicas) y con la caza de la perdiz», in ANAS 1994-95. 




Mosaico com representação de Mocho. Uzès,  França
Fotografia a partir de: http://terraeantiqvae.com/profiles/blogs/unos-extraordinarios-mosaicos-romanos-afloran-en-el-sur-de-franci?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+TerraeAntiqvaeRevistaDeArqueologaEHistoria+%28Terrae+Antiqvae%29
Pavão

Ver: 
AUGUSTO Y LAS AVES.LAS AVES EN LA ROMA DEL PRINCIPADO:PRODIGIO, EXHIBICIÓN Y CONSUMO
Santiago Montero Herrerohttps://www.academia.edu/31672590/Montero_Herrero_S._Augusto_y_las_aves._Las_aves_en_la_Roma_del_principado_prodigio_exhibici%C3%B3n_y_consumo._Instrumenta_22.
O pavão é a ave sagrada de Juno. 
Os pavões eram vistos nos jardins da cidade de Roma de Roma, bem como das uillae, a par dos faisões. Ao tempo de Augusto também se conheciam flamingos rosa.

Ver: Lucrécio, De rerum natura. 

 Em Santa Bárbara dos Padrões, foram identificadas quatro lucernas com a representação de pavões e três exemplares de pavoas com pavõeszinhos (MAIA, 1997, 106 e 107). Ver os mosaicos de Chipre na Revista de Arqueologia nº 233.
Na Arte Cristã inicial ou Paleocristã, Jesus foi representado indiretamente pelo pictograma simbólico do Ictus (peixe), pavão, Cordeiro de Deus ou uma âncora.
O pavão era o símbolo da ressurreição e foi representado diversas vezes bebendo do cálice eucarístico.

Mas já na Grécia Antiga, o pavão era um dos animais de Hera, divindade que regia o casamento.
Hera era uma das deusas mais importantes da Mitologia Grego, Rainha do Olimpo, ao lado do seu irmão e marido Zeus.
Filha de Cronos e Réia é considerada como a deusa que protege o casamento.
Casada com Zeus, seu irmão, como referimos, teve quatro filhos: Ilítia, deusa do parto; Ares, deus da guerra; Hebe, deusa da juventude, e Hefesto, deus do fogo e do artesanato.
Hera era, como é conhecido, ciumenta, pois Zeus não lhe dava tréguas, mas também vaidosa, motivo pelo que passava a maior parte do tempo ferindo as amantes de Zeus, exibindo sua beleza como um pavão e punindo as amantes de Zeus.
Os Gregos acreditavam que por essa ligação à deusa o seu corpo não se corrompia após a morte, crença que perdurou até à Idade Média, à época de Santo Agostinho.
Não deixa de ser interessante que, durante o Inverno, as penas do pavão caiam dando lugar a outras novas, recuperando seu esplendor durante a Primavera.
Por este motivo, a ave representa a renovação e as mudanças favoráveis, bem como a imortalidade e o renascimento.
Diz-nos a Mitologia que Io, que am algumas versões aparece como irmã de Europa, também uma jovem princesa e sacerdotisa de Hera teria sido seduzida por Zeus que havia coberto o mundo com um manto de nuvens escuras para esconder da esposa Hera a sua paixão.
Ao que rezam as lendas, Zeus havia transformado a amante numa belíssima novilha branca, havendo, contudo versões que dizem ter sido Hera a obreira desse castigo, sem que, contudo, lhe conseguisse apaziguar os ciúmes, tendo acabado por a colocar à guarda do gigante de cem olhos, Argos Panoptes, fiel servo da divindade.
Embora Zeus tenha encarregado Hermes, o mensageiro dos deuses, de libertar a amada matando o monstro Argos, nem assim ela se livrou da vingança de Hera, transformando-a num cisne e originado um périplo entre Micenas e a Trácia, pelo que percorreu as planícies da Ilíria; galgou o Monte Hemo e atravessado o estreito da Trácia, que a partir daí ficou chamado de Bósforo (rio da vaca), vagou pela Cítia e pelo país dos cimerianos e chegou, afinal, às margens do Nilo.
Também a ela se deve a denominação de Mar Jónio (Ionio), o braço do mar Mediterrâneo, a sul do Mar Adriático. Ao que dizem as lendas, Hermes teria usado a flauta de Pã para adormecer Argos, tendo-lhe cortado a cabeça.
Hera desolada, recolheu os olhos de Argos e colocou-os como ornamentos na cauda do pavão, animal que lhe era consagrado, onde até hoje permanecem.


«OS DEUSES do mar anuíram; a filha de Saturno viajou de novo
pelo límpido céu no manejável carro de coloridos pavões,
pavões coloridos há pouco pela morte de Argo, tal como tu,
ó corvo tagarela, que, embora tivesses sido outrora branco,
de repente, há pouco, te tornaste um pássaro de asas negras»


Ovídio, Metamorfoses, Livro I, Livros Cotovia, 2007.



Mosaico com representação de pavão, proveniente de Stobi‬. Stobi foi a mais importante cidade Império romano tardio, localizafa na actual  ‪‎Macedónia‬. 
Fotografia a partir de Ostia Antiga.
https://www.facebook.com/ostia.antica/photos/a.10153885782334768.1073741846.108582434767/10154390565379768/?type=3&theater


@MaiMusie @OxHumanities @peterfrankopan More: http://bit.ly/2A0PHGK

Manar Al-Athar I




Lucerna com Pavão. Museu Nacional de Arqueologia
Século I d.C. 
«Lucerna de volutas, de tipo itálico Dres.15. De bico redondo, orla lisa. Decoração moldada no disco representando um pavão de frente, de cabeça virada para a esquerda e cauda aberta. Pasta beje com engobe castanho. No fundo, marca MVN.TREPT.»  Fotografia e comentário a partir de:http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=139704

Ver; Fresco com representação de Pavão (segundo estilo).Villa Poppaea (entre Nápoles e Sorrento), também conhecida por Villa Oplontis.



 Abetardas


Andorinha 
As Geórgicas. Virgílio Filomela foi transformada por Tereu nesta ave

Plínio, NH, XXX, 45 47.

Picanço

Aparece associado a Marte, Circe, As Geórgicas Virgílio Sá da Costa 1948 

Para os Gregos e Romanos ouvir um picanço era um bom presságio para os caçadores. Era a metamorfose do rei Picus,célebre pelos dons divinatórios. Era honrado como pássaro-profeta e era o pássaro sagrado de Marte. Pico foi transformado nesta ave porque não quis ceder aos amores da maga Circe. 

Nota: O Picanço-real, Lanius Excubitor, é um residente comum em Miróbriga, onde deverá existir também, como estival, o picanço-barreteiro, lanius Senator.
Pato




Mosaico com representação de pato .  Século III d.C. Monte della Giustizia in Piazza della Stazione Termini, Roma.
ttps://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mosaic_ducks_Massimo.jpg

Enquanto o ganço na Grécia antiga simbolizava um aspecto especial da Mãe-Natureza ou a deusa da natureza, sendo considerado como sendo um mensageiro do mundo espiritual, o pato pode considerar-se, segundo alguns autores,” um dos símbolos do SELF pela sua capacidade de adaptação e estilo de vida distintos. É um animal da terra, água e ar. É pois considerado como sendo uma função transcendental, ou seja, a capacidade que tem a psique inconsciente de se transformar e de nos levar a uma nova situação que anteriormente nos parecia bloqueada. O pato está em casa, em todos os domínios da natureza”.
É esse o mesmo motivo porque as suas penas são usadas pelos índios e  representa para alguns povos o guia infalível, pois sua figura desliza tanto na água como no céu.

Na Roma Antiga, o ideal da culinária tradicional era uma dieta vegetariana, com base nos produtos da terra, socorrendo-se dos frutos, sendo os mais comuns figo, romãs, laranjas, peras, maçãs e uvas, e nas papas (puls) de cereais torrados ou em farinha (elaseram), simplesmente cozidas ou enriquecidas com favas, lentilhas, hortaliças ou outros produtos, como falaremos de seguida. Somente os mais ricos comiam carne, geralmente de carneiro, burro, porco, ganso, pato ou pombo.

Os Romanos alimentavam os porcos com figos para que a sua carne ficasse perfumada e criavam os gansos de maneira especial para com eles preparar patês.

Faziam o mesmo com os frangos, alimentando-os com anis e outras especiarias.

Do que se sabe, por há volta de uns 3 mil anos a. C., os egípcios ter-se-ão apercebido que os gansos selvagens que imigravam para o Nilo tinham o fígado muito maior, mais gorduroso e com uma textura diferente dos fígados de outros gansos. Percepcionaram ainda que os gansos que imigravam tinham ingerido demasiada comida para aguentar o inverno e isso afectava seus fígados. Assim começaram a desenvolver a engorda das aves, motivo pelo que há inúmeras representações destes animais que circulavam livremente pelos pátios e jardins

O hábito da engorda parece ter sido comum aos Judeus que necessitavam de gordura alimentar e não ingeriam porco.

Em Roma, o " foie gras" (que ainda não se denominava assim) tornou-se um ícone nos banquetes , sendo acompanhado com figos.

Aliás, a origem da palavra “fígado” e “foie” é laticana “ficatum”, que significa exactamente figo.

A Gália, província romana, torna-se um dos locais de grande produção o que deve ter contribuído para que se tornasse um alimento tão utilizado.



Mosaico com patos Villa Romana de Carranque
Fotografia a partir de: 

Aviarium, consumo y caza de aves en Roma

https://villaromanacarranque.blogspot.pt/2015/04/aviarium-consumo-y-caza-de-aves-en-roma.html


              Mosaico com pássaros. Cartago. Tunísia.
Ganço

Inúmeras são as referências a ganços na Literatura, em Plínio, Juvenal e Marcial. Utilizado já o seu fígado, após ter sido engordado com figos, por exemplo, para obter uma carne suave e um fígado apropriado para com ele fazer o que está na origem do «foi gras».
Ver: http://derecoquinaria-sagunt.blogspot.pt/2013/02/anser-iii-usos-culinarios-y-medicos.html



Cisne.


Na Mitologia grega, Leda, a rainha de Esparta, era noiva de Tíndaro. Mas Zeus, com a sua enorme capacidade de se transmutar nos seus múltiplos zoomórficos disfarces seduziu Leda.


Dessa união amorosa Leda chocou quatro ovos. Daí nasceram Cástor e Pólux, heróis guerreiros e laureados discóbulos olímpicos. De outro ovo nasceu simplesmente Helena de Tróia. E do último ovo nasceu a irmã de Helena, Clitemnestra, a esposa verdadeira de Agamenon.

Embora Helena e Pólux fossem filhos de Zeus, Tíndaro adoptou-os, tratando-os como seus filhos.

Esta cena mitológica é inúmeras vezes representada, designadamente em mosaicosVer: Blázquez, José María, 2007, El mito griego de Leda y el Cisne en los mosaicos hispanos del Bajo Imperio y en la pintura europea Publicación: Alicante : Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2007
Disponível em PDF em: http://www.cervantesvirtual.com/…/el-mito-griego-de-leda-y…




«Depois vê o Lago de Híria, e avista Tempe,
Que um repentino Cisne fez famosa:
E o caso foi; que Fílio por dar gosto
A um filho de Híria se ocupava em caça
Já de leões, já de aves, que domadas
Lhe of’recia depois. Mandou-lhe um dia,
Que certo touro indómito vencesse; Venceu-o Fílio, mas negou-o ao moço....
Que por última Oferta lho pedia.
Da repulsa indignado, “Tu não queres?
(Disse) pois eu te afirmo, que desgosto
Terás em não mo dar”: e ao dizer isto,
De uma altíssima rocha despenhou-se.
Todos morto o julgaram, mas nos ares
Cisne se sustentou com brancas asas.
Porém Híria sua mãe da nova vida
Nada sabendo, antes julgando-o exangue,
Tais correntes lançou dos tristes olhos,
Que um lago fez, o qual tomou seu nome».

Ovídio, Metamorfoses, LIV. VII, VV: 561-580.


Fotografia: Mosaico com epresentação de Cisne e Leda
Museo Arquológico Municipal de Madrid


De Outisnn - Trabajo propio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=18683421
Casa de Leda, Complutum, siglo IV d. C. 
Museo Arqueológico Regional de la Comunidad de Madrid.



Leda e o Cisne. Mármore.

Cesare Sighinolfi
1869 
Palácio Nacional da Ajuda.
Ver também:




Galo


                                                     Fresco proveniente de Herculano

          Mosaico com representação de luta de galos, proveniente de Pompeia, Museu de Nápoles.

Mosaico polícromo com representação de galo. Museu Nacional de Roma, Termas de Dioccleciano. 
Fotografia Follow Hadrian
O Galo aparece associado a Apolo, Esculápio, Mercúrio.
É o símbolo do Tempo, sendo-lhe, em algumas associações mistéricas ou iniciáticas, atribuído o papel de vigilante, mas também o do início do caminho da Luz no processo iniciático, pois é ele que anuncia o nascer do dia e do Sol.
É o Renascer. Sendo o símbolo solar por excelência, representando a “luz nascente”, era consagrado aos deuses solares como Apolo, divindade que também simboliza o dia que se levanta, mas aparece outrossim associado a divindades lunares. É também o animal de Mercúrio, o deus mensageiro, que, por vezes, é representado cavalgando um galo. 
Não esqueçamos que Mercúrio tem como atributo um caduceu, símbolo que concentra toda a natureza dualista (noite-dia; luz-trevas; feminino e masculino; racional-irracional) e os pés alados que o permitem ser muito rápido e, portanto, mensageiro do Olimpo. 
Nos «Versos de Ouro» de Pitágoras recomenda-se «alimentai o galo e não o imoleis, pois ele é consagrado ao Sol e à Lua». Contudo, em Roma, é a ave sacrificada a Esculápio, deus da saúde e da medicina e filho de Apolo. 
No depósito votivo de Santa Bárbara apareceram cinco lucernas com galos a decorar o disco (MAIA, 1997: 105). Também no Museu de Sines há um exemplar com uma representação de um galo e palma.





Detalhe de um vaso de cerâmica de Terra Sigillata Hispánica com representação de Mercúrio e galo sobre uma ara. Villa romana de Torre Águila (Barbaño, Badajoz). Legenda e fotografia: José Manuel Jerez Linde.



Publicado em: "A propósito de un vaso con representaciones mitológicas procendente de la villa romana deTorreáguila (Barbaño, Badajoz)". Revista de Ferias y Fiestas de Barbaño, 2013, pp. 66 a 68.

https://www.academia.edu/4179777/Jerez_Linde_J._M._2013_A_prop%C3%B3sito_de_un_vaso_con_representaciones_mitol%C3%B3gicas_procendente_de_la_villa_romana_de_Torre%C3%A1guila_Barba%C3%B1o_Badajoz_._Revista_de_Ferias_y_Fiestas_de_Barba%C3%B1o_2013_pp._66_a_68
Lucerna do Museu de Sines com representação de galo e palma no disco. Fotografia Luis del Rey


Também referimos um outro exemplar de lucerna romana com o disco decorado com representação de um galo rodeado de orla com corações relevados. Mas é uma lucerna de canal aberto do século II d.C. cujo original se encontra no Museu Arqueológico do Cerro da Vila, em Vilamoura.
Um exemplar com características muito similares ao do Museu de Sines é o de Ossonoba, uma lucerna de bico redondo, tendo no disco uma representação de um galo segurando uma folha de palma com a pata esquerda, publicada por Carlos Pereira:  LUCERNAS ROMANAS DE OSSONOBA (FARO, PORTUGAL). UM CONTEXTO AMBÍGUO. HABiS 43 (2012) 119-147 – © Universidad de sevilla – i.S.S.N. 0210-7694.


Na festividade « la “laginoforias”, celebrada en Alejandría, donde todas las clases sociales incluidos los esclavos, lisiados y mendigos, bebían y realizaban ritos. Era una fiesta con fines políticos, alegrar a los más desfavorecidos. Se honraba al dios Dyonisos como favorecedor de los desamparados. Durante estas fiestas cada cual traía su Lagynos o botella para el vino y se hacían ofrendas al dios, especialmente el gallo, que era muy apreciado por los pobres».

Imagem e comentário da mesma (acima) a partir de:https://www.facebook.com/pages/Museo-Nacional-de-Arte-Romano/121327647938617



Modius com representação de galo e dedicatória de M. Modius Maximus, Ostia. 
Fotografia de Maria Dolores Fernandez

Touro

Zeus, Europa, Ariadne, Posídon, Baco; Mitra Virgílio, As Geórgicas, Sá da Costa, 1948, Lisboa. Estrabão, III, 2, 4. Barata, Filomena, «A propósito da cabeça de touro de Miróbriga», Vispasca, Aljustrel As Geórgicas, pp. 71; 113; 115; 133.
Segundo a mitologia grega, Europa foi raptada por Zeus, que se transformou em touro para seduzir a princesa, quando esta se banhava na praia.
A princesa Europa terá nascido no mediterrâneo e era filha de Agenor, o rei fenício de Sídon.
Um dia, a princesa passeava na praia com as suas companheiras, quando Zeus se disfarçou de touro branco, com chifres e cascos de prata, pois sabia que Europa gostava de grandes animais e mansamente se veio deitar a seus pés.
Europa terá acariciado o animal, e depois deixou-se subir para o seu dorso. O touro, aproveitando-se deste momento, levantou-se impetuosamente e cavalgando as ondas do mediterrâneo, levou-a até à Ilha de Creta e foi depositá-la debaixo de um plátano. Ao que rezam também as lendas, terá sido nessa ilha que Zeus passou a sua infância.


Europa montada no Touro,Fresco de Pompéia, Museu Arqueológico Nacional de Nápoles


«Dissipando, pouco a pouco, o medo, ora oferece o peito
para a mão virginal acarinhar, os chifres para ela entrelaçar
com grinaldas há pouco feitas. A princesa aventura-se até
a sentar-se no dorso do touro, sem sabes quem ela montava.
Então, o deus afasta-se lentamente da terra e da areia seca,
e começa a pisar com os falsos cascos a borda das ondas.
Depois, avança ainda mais leve a sua presa pelas águas
no meio do mar. Ao ser levada, olha para trás, para o litoras
ao longe, assustada. A direita agarra-se a um chifre, a outra 
apoia-se no dorso a roupa, ondulante pela brisa, tremula»

Ovídio, Metamorfoses, Livros Cotovia, 2007.
Segundo o poeta Mosco de Alexandria, Europa, rainha de Creta, foi “mãe de filhos gloriosos, cujos ceptros hão-de acabar por dominar todos os homens da terra”.
Quando Zeus revelou a sua verdadeira identidade e a tornou a primeira rainha de Creta, deu-lhe três presentes:
Talos, um autómata de bronze;
Laelaps, um cão que nunca soltava a sua presa;
e uma jabalina que nunca errava.
Os três filhos de Europa foram: Minos, Radamantis e Sarpedón. É por causa disso que o seu mito é indissociável do Minotauro.
Posteriormente ter-se-á casado com Asterión, rei de Creta, que adoptou os seus filhos.
Algumas fontes literárias identificam-na como irmã de Io, também ela uma jovem princesa e sacerdotisa de Hera a quem Zeus havia seduzido, cobrindo o mundo com um manto de nuvens escuras para esconder da esposa Hera a sua paixão. Neste caso, diz-nos a Mitologia que Zeus havia transformado a amante uma belíssima novilha branca, havendo, contudo versões, que dizem ter sido Hera a obreira desse castigo, sem que, contudo, lhe conseguisse apaziguar os ciúmes, tendo acabado por a colocar à guarda do gigante de cem olhos, Argos Panoptes fiel servo da divindade.
Embora Zeus tenha encarregado Hermes, o mensageiro dos deuses, de libertar a amada matando o monstro Argos, nem assim ela se livrou da vingança de Hera, transformando-a num cisne e originado um périplo entre Micenas e a Trácia, tendo percorrido as planícies da Ilíria; galgou o Monte Hemo e atravessado o estreito da Trácia, que a partir daí ficou chamado de Bósforo (rio da vaca); vagou pela Cítia e pelo país dos cimerianos e chegou, afinal, às margens do Nilo.
Também a ela se deve a denominação de Mar Jónio (Ionio), o braço do mar Mediterrâneo, a sul do Mar Adriático, ao que dizem as lendas, Hermes teria usado a flauta de Pã para adormecer Argos, tendo-lhe cortado a cabeça. Hera desolada, recolheu os olhos de Argos e colocou-os como ornamentos na cauda do pavão, animal que lhe era consagrado, onde até hoje permanecem.
Durante as suas deambulações, o terá encontrado, no Monte Cáucaso, Prometeu acorrentado numa rocha e o mesmo profetizou que ela seria libertada e regressaria à sua forma humana, quando chegasse ao Egipto, onde acabou por nascer Éfano. Io acabou por reinar com o nome de Ísis, após o casamento com Telégono.
Segundo algumas narrativas mitológicas, Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia. Agenor teria ordenado ao seu filho Cadmo que saísse à procura da irmã e não regressasse sem ela. Cadmo partiu e procurou a irmã muito tempo e por terras distantes, mas em vão, motivo porque decidiu consultar o oráculo de Apolo, para saber em que país deveria fixar-se. O oráculo respondeu que ele encontraria uma vaca no campo e deveria segui-la, acompanhando-a aonde ela fosse e quando a vaca parasse, ele deveria construir uma cidade e chamá-la de Tebas, fundação essa que acabou por acontecer após múltiplas deambulações, tendo Cadmo acabado por casar-se com Harmonia, filha de Vénus.
Na Ilíada, narra-se, portanto, que a Europa era filha do filho de Agenor, Fénix, e referem –se os seus dois irmãos: Cadmo e Cilix, que fundou a Cilicia, actual Arménia.
A narrativa que a descreve como filha do rei fenício raptada por um touro, divindade cretense, mas igualmente de fenícios e arameus, não ficaria perceptível se não se fizesse uma referência aos sonhos da bela princesa.
Europa teria tido um pesadelo perturbante no dia anterior ao rapto, no qual duas mulheres exigiam a autoridade sobre ela. Uma delas representava a Ásia e dizia ser sua mãe; a outra que simbolizava um continente desconhecido (América) afirmava que Europa lhe tinha sido dada por Zeus.
Assim, nos mitos gerados no mar Egeu, Europa é o nome que se deu a um novo continente que tem a Ásia por mãe.
Sabe-se hoje, através do que a própria arqueologia confirmou, que a civilização europeia viajou no mediterrâneo na proa dos barcos fenícios entre outros, sendo Creta um dos grandes pólos.
Mas, é um facto, que esta civilização se desenvolveu igualmente como resultado das ligações terrestres que uniram milenarmente a Europa à Ásia, através da actual Turquia.
Se o que se reconhece como a «civilização europeia» tem origem no Médio Oriente, é através da mitologia e com Ulisses que atravessa o Mediterrâneo até ao Ocidente, e gradualmente até ao território que hoje se designa Portugal, trazida pelas diásporas fenícias, cartaginenses e, mais tarde, a ocupação romana.
Do romance que a Europa teve com Zeus, nasceu, como vimos, o filho Minos e deu-lhe a ilha como presente, tendo-se tornado fértil e repleta de touros.
Ao tornar-se adulto Minos desposou Pasifae. Querendo tornar-se ainda mais rico, Minos fez um pacto com Poseidon, o deus do Mar, de forma a triplicar a sua fortuna, prometendo-lhe o seu melhor touro como pagamento.
Contudo, não querendo desfazer-se de nada, resolveu enganá-lo e dar-lhe em troca um touro vulgar.
Quando Poseidon percebeu que tinha sido enganado, chamou Vénus para o ajudar na vingança.
À noite, Vénus conseguiu introduzir no coração de Pasifae, mulher de Minos, um amor alucinante por um touro.
Incapaz de conter a sua paixão ardente, ela pediu a Dédalo que construísse uma armadura de madeira na forma de vaca, para que assim disfarçada, se pudesse aproximar do touro.
Desta união nasceu o monstro Minotauro, um humano com cabeça de touro.
Sentindo-se atraiçoado, Minos mandou construir um labirinto, de onde não se encontrasse a saída e ali encarcerou esse ser monstruoso.
Quando invadiu Atenas, Minos subjugou o seu povo, tornando-o escravo. Semanalmente eram-lhe levados 7 rapazes e 7 raparigas virgens, para contentar a fome do Minotauro.
Inconformado com essa prática de Minos, Teseu, o filho do Rei de Atenas, juntou-se a um grupo de jovens, com a intenção de matar o Minotauro e assim salvar os jovens de serem sacrificados.
Em Creta, Teseu encontrou Ariadne, filha do rei Minos, que se apaixonou por ele e lhe deu um novelo de lã que o ajudaria a sair do labirinto.
Teseu matou o Minotauro e, ao que diz a Mitologia, a parte humana do Minotauro foi deixada na terra e a parte animal foi elevada aos céus, onde se tornou a constelação de Touro.
O touro é uma constante em todo o Mundo Mediterrânico, sendo conhecida desde a Idade do Ferro, no território actualmente português, estatuária com a sua representação.
Em Santa Bárbara foi identificado um exemplar com tema da Europa representado. (MAIA, 1997, 69). No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, proveniente de Vila do Bispo com a forma de touro, datável dos séculos IV-II a. C. (ver artigos de M.V.Gomes) e outra de proveniência desconhecida, com chifres e pernas partidas (De Ulisses a Viriato, 1996, p. 244). Existe ainda um queimador ritual de bronze, que é ramatado por uma figura de touro deitado (idem, p. 245) e uma estátua de touro levantado, de cabeça para a frente, da colecção Bustorff Silva (ver «Um gosto privado – um olhar público», p. 122. Um touro de bronze tartéssico, provavelmente proveniente de Mourão, datável do século VII a.C.,pertence também à colecção desse mesmo Museu (CORREIA, 1989). No Museu e Arqueologia de Montemor-o-Novo existe um outro exemplar de bronze, proveniente da Herdade de
Corte Pereiro, que aponta para o século V a.C.(GOMES, 1989) .
O ritual de iniciação nos mistérios de Mitra, essa divindade trazida por Romanos da Pérsia, era o Taurobólio, porque exigia o sacrifício do touro que foi, aliás, uma constante no mundo mediterrânico oriental e greco-latino, onde esse sacrifício assume um carácter fundacional, pois culto deste animal assenta a sua sacralidade no seu vigor e violência cósmica, e num poder fecundante. É a morte ritual do touro que dá origem à vida com o seu sangue, à fertilidade, à dádiva das sementes que, recolhidas e purificadas pela Lua, dão origem aos “frutos” e das espécies animais, pois a sua carne é comida e o seu sangue é bebido. Os candidatos à iniciação dos mistérios mitraicos, praticados quer na Pérsia, quer em Roma, tinham vários graus de iniciação, passando por provas severas e o iniciado, antes de fazer o seu voto sagrado (sacramentum) prometia não trair o que lhe havia sido revelado. Depois, o iniciado subia os sete degraus, recebendo em cada um deles um nome diferente. O banquete ritual da morte do touro, o taurobolium, sempre em companhia do Sol, viabiliza ainda aos adeptos do culto mitraico o “nascimento para uma nova vida” ou “Renascimento” que o Cristianismo, que baniu a ideia de sacrifício iniciático, transformou na água do baptismo e através da Eucaristia em pão e vinho. (Barata, Filomena, «O Touro Esculpido de Miróbriga» que também se pode encontrar neste blogue). A dificuldade fundacional e simbólica da cidade de Roma deve-se à disputa a propósito da localização e das condições da fundação da futura Roma,tendo originado que Rómulo escolhesse o Palatino e Remo o Aventino. Como ambos foram proclamados reis ao mesmo tempo, origina-se o conflito que acabou por conduzir à morte de Remo e à subida ao poder de Rómulo. Segundo uma das lendas da fundação de Roma, Rómulo influenciado pelos oráculos acabou por traçar com a charrua um sulco que delimitava o recinto da futura Roma, proibindo Remo de o transpor. Porque Remo não escutou a advertência de Rómulo, acabou por sucumbir às mãos do próprio irmão, que ficou senhor único de todo o território. Pese o assassínio do seu irmão Remo, Rómulo acabou por ser divinizado com o nome de Quirino, tendo sido ficado eternamente ligado à fundação de Roma. Por vezes são os dois gémeos são representados um com a cabeça de touro, também ele uma força genésica e primordial, e outro com a cabeça de escorpião. Parafraseando Leonel Borrela «Já no século XVIII, Félix Caetano da Silva, bejense, autor da História das Antiguidades de Beja, o padre Pires Nolasco nas suas memórias paroquiais e o bispo D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas nos falavam da grandeza, quantidade e antiguidade, das cabeças de touro, capitéis, fustes, frisos, escadarias e outras estruturas ainda subsistentes (…).Algumas das cabeças de touro da antiga Pax Julia, referimo-nos às mais monumentais, às duas de maior dimensão que se encontram expostas na galeria exterior do Museu Regional de Beja, entre capitéis compósitos e corintios e cornijas (…), integram um conjunto de cerca de nove ou dez, dispersas pela muralha da cidade, Igreja de Santa Maria, Ermida de S. Sebastião (depósito de material lítico do Museu), Tanque do Cano e praça de armas do castelo. Algumas das cabeças de touro da antiga Pax Julia, referimo-nos às mais monumentais, às duas de maior dimensão que se encontram expostas na galeria exterior do Museu Regional de Beja, entre capitéis compósitos e corintios e cornijas de que vos iremos falar, integram um conjunto de cerca de nove ou dez, dispersas pela muralha da cidade, Igreja de Santa Maria, Ermida de S. Sebastião (depósito de material lítico do Museu), Tanque do Cano e praça de armas do castelo. Essas duas cabeças têm sido (…) vistas isoladamente, não se relacionando a sua função estrutural e decorativa com um determinado posicionamento no edifício a que pertenceria. Analisando, mesmo que superficialmente, uma das cabeças, constatamos que houve um desbaste lateral, profundo, sem dúvida muito posterior ao período romano, cuja intenção seria permitir com maior facilidade encaixá-la numa parede – sabe-se que as duas cabeças estavam colocadas na abside da demolida Igreja de S. João, orientadas para a antiga Rua do Touro (cf. “Iconografia Pacense” in Diário do Alentejo Setembro/Outubro de 95). A outra mostra-nos uma cabeça quase sem “retoques” posteriores, provida no cimo de saliência rectangular destinada a suportar alguma coisa, talvez uma cornija ou outro elemento arquitectónico; o seu peito e espádua são fortes e bastante relevados do bloco paralelepipédico em que foram esculpidos, notando-se, à direita, boa parte da espádua de uma outra cabeça e peito há muito desaparecidos», Leonel Borrela, in Restos monumentais de Pax Ivlia I – Friso de ângulo com cabeças de touro, «Portugal Romano» no Facebook. Muito comuns são as representações de cabeças de touro descarnadas ou bucrâneos em frisos de Época Romana Imperial, associados ainda à força genésica do touro. Apenas para exemplificar aqui fica o exemplo do friso pertencente ao acervo do Museu de Évora e que deveria ensimar o templo dedicado ao imperador. No Cabeço das Fráguas, Sabugal, há referência a sacrifícios de animais atestados pela presença de uma «inscrição rupestre em caracteres latinos mas em língua designada de lusitana, datada do séc. II d.C., referindo um sacrifício suovituma oferenda a divindades indígenas, de uma ovelha, de um leitão, de uma vitela, de um cordeiro de um ano e de um touro de cobrição, feita por alguém em circunstancias desconhecidas, algures no século II d.C. Transmite-nos o tipo de sacrifício, com raízes indo-europeias, conhecido entre os romanos por suovetaurilia». Ver: http://www.portugalromano.com/?p=623

Sobre as representações de touros em moedas
Friso com bucrâneos descarnados do Tempo de Évora, Museu de Évora. Imagem da cabeça de Touro de Beja
Boi


Columela )Livro IV da Agricultura)
Estrabão refere os sacrifícios (III, 3, 7)
a ritualização das cidades, ver .....

 Javali  (porco/leitão)

O javali aparece associado a Canente, Circe e Endovélico e a Apolo. 
Não esqueçamos também que um dos Doze Trabalhos de Hérculos era a captura do javali de Erimato.
Hera havia aconselhado Euristeu a mandar Héracles/Hércules trazer o Javalin de Erimato  vivo e contou-lhe sobre os perigos que o herói encontraria pelo caminho. 


Ver As Geórgicas. Virgílio 1948. 

Canente era a esposa do rei Pico. O marido foi tranformado em javali e em picanço pela maga Circe. O javali está também ligado a Admeto, quer pela sua participação na caçada a estes animais, quer pela condição imposta por Alceste para o seu casamento, que exigia que Admeto atrelasse um destes animais ao seu carro. 

O javali era símbolo do mundo funerário, provavelmente por causa do episódio de Apolo.
Segundo esse mito, um dia Apolo, saindo para caçar, encontra um grande javali, ali colocado propositalmente por Ares. Assim se inicia uma grande luta contra o animal que é atingido pelo arco de Apolo.  Ferido, o animal ruge de dor e girando o corpo, atinge o jovem desferindo-lhe um golpe mortal.

Afrodite, apaixonada por Apolo,  apercebe-se dos gritos do amado ferido, mas quando chega é tarde demais. O sangue de Adónis tinge de vermelho as rosas brancas que ali existiam e que assim se transformam em rosas vermelhas. 


Quando surgiu a que cedo desponta, a Aurora de róseos dedos,
foram à caça os filhos de Autólico com os seus cães,
e com ele foi também o divino Ulisses.
Subiram a íngreme montanha vestida de bosques,
o Parnaso, e depressa chegaram às ravinas ventosas.
O sol começava a lançar seus raios sobre os campos,
erguendo-se do Oceano com fundas correntes de brando fluir.
Os caçadores chegaram a uma clareira. À frente foram os cães,
farejando os rastros, e no seu encalço foram os filhos
de Autólico; atrás deles, seguiu o divino Ulisses, já perto dos cães,
brandindo a lança que projectava uma grande sombra.
E ali, nos densos arvoredos, se escondia um enorme javali.
Por entre estes arvoredos não penetravam os húmidos ventos,
nem através deles o sol conseguia lançar seus raios,
nem a chuva lá entrava, tal era a densidade dos ramos.
E lá dentro havia grande abundância de folhas caídas.
Em volta do javali ouviram-se os passos de cães e homens,
que se precipitavam contra ele. Da toca saiu então o javali
para os enfrentar: as cerdas do dorso estavam eriçadas
e lançava fogo do seu olhar. E ali estacou, perto deles.
O primeiro a lançar-se foi Ulisses, levantando a lança comprida
com a mão possante, desejoso de o trespassar.
Mas o javali precipitou-se e feriu-o acima do joelho,
Atirando-se de lado. Com o colmilho arrancou
um grande pedaço de carne, embora não chegasse ao osso.
Mas Ulisses atingiu-o, acertando-lhe na espádua direita:
a ponta da lança brilhante trespassou-o completamente
e caiu no chão com um grunhido; dele se evolou a vida.
Os queridos filhos de Autólico ocuparam-se da carcaça,
e depois trataram sabiamente da ferida do divino Ulisses.
Fizeram estancar o negro sangue com uma encantação.
Opiano, Da caça, I, 94-95.
«No poema dedicado por Opiano ao filho de Septímio Severo e de Júlia Domna, Caracala (imperador entre 211 e 217), redigiu um verdadeiro manual de técnicas de caça e de pesca que, muito provavelmente, terá também sido utilizado como fonte de modelos a aplicar nos opera musiua e noutras manifestações artísticas. Por conseguinte, Opiano, depois do vulgar panegírico à domus augusta, fez uma aproximação entre Ártemis – divindade da caça e deusa lunar – com a minóica deusa da árvore, senhora das montanhas e das feras: afinal Creta tão distante no tempo mas ainda tão próxima no espaço…
No que respeita ao acosso ao javali, e para além de cães impetuosos e valentes que os atacavam e matavam, Opiano referiu que habitava profundos covis praticamente inacessíveis, pelo que o seu acosso costumava efectuar-se por um grupo de homens acompanhados pelos seus cães que iam apertando o cerco até encurralarem o animal que, depois era abatido pelo arremesso de lanças. Face à descrição de Opiano que aqui sumariámos, a caça ao javali resultava do esforço em equipa e não de um acto isolado, como é habitualmente representado na ars musiua, o que só poderá ser apreendido no contexto da exaltação da uirtus»
Maria Teresa Caetano (p.: 193-194)


Em Roma, a carne era usada apenas pelas classes mais ricas, como acima dizíamos, e era usado o carneiro, burro, porco, ganso, pato ou pombo.
Os porcos eram alimentados com figos que aromatizava a carne. E Apício encontramos várias receitas de porco, bem como no Satirycon de Petrónio

Utilizando as palavras de Maria Teresa Caetano na obra já aqui mencionada,  é uma «cena alusiva ao regresso da caça . Trata-se de um homem tirado a três quartos, tem calçadas as características fasciae crurales, levando numa das mãos um pequeno javali agarrado pelas paras traseiras e, na outra, o característico cesto da corda. Para esta cena de género, imbuída de alguma ingenuidade no seu desenho, não se encontraram, na bibliografia consultada, paralelos próximos».
Lucerna de Ossonoba com representação de javali, datável de meados do séc. I d.C. a finais do mesmo, publicada por Carlos Pereira, LUCERNAS ROMANAS DE OSSONOBA (FARO, PORTUGAL). UM CONTEXTO AMBÍGUO, em HABiS 43 (2012) 119-147 – © Universidad de sevilla – i.S.S.N. 0210-7694,  está representado no disco um javali em corrida.



Cito Ovídio, apenas a título de curiosidade: «Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece». Ovídio, in "A Arte de Amar". 


Proveniente de S. Miguel da Mota é uma ara com inscrição ao deus Endovélico numa das faces e, nas restantes, com relevos de uma palma, uma coroa e um javali (MATOS, 1995:176). Proveniente de Vila do Bispo e pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia, existe uma estatueta em bronze com forma de javali, datável dos séculos IV-II a. C. No Museu Nacional de Arqueologia existe também uma ara onde numa das faces laterais está representado, sob uma pequena árvore, um javali (MATOS, 1995: 92). 
De Faro, provém um frasco de vidro com uma decoração zoomórfica, com a técnica de abrasão, representando um javali, datável de 2ª metade do século III- século IV. 
De Torre de Ares é uma lucerna onde está representado um javali a ser atacado por um cão, datável do século I (NOLEN, 40, lu-6).

Mas não podemos ainda esquecer os célebres berrões, "verracos" ou verrascos de origem proto-histórica, "as típicas esculturas de granito do ocidente da Península Ibérica que representam toiros, porcos e javalis. A sua distribuição coincide em grande parte com o território dos Vetões». 
http://www.castrosyverracos.com/por/avila/introduccion_verracos.htm



Ara com relevo de palma, coroa e javali, proveniente de S. Miguel da Mota, Alandroal.





Garrafa de vidro proveniente do Campo da Trindade, Faro. MNA.«Tipo Isings 104. O reservatório é esférico, o gargalo é afunilado, o fundo é ligeiramente côncavo, o bordo é de arestas aparentemente polidas ao torno. O bojo apresenta decoração executada à roda por abrasão, composta por três medalhões circulares separados por elementos estilizados com braços curvilíneos. Cada um dos medalhões apresenta, no seu interior, a representação de um animal: urso, touro e javali. O primeiro virado à direita, os outros dois para a esquerda. Os contornos do urso e do javali são parcialmente desenhados por pequenas linhas oblíquas e os pêlos por linhas em ziguezague. O touro apresenta uma linha cruzada entre os chifres, tem uma coleira à volta do pescoço e três estrelas gravadas. Os olhos são representados por losangos atravessados por uma linha pelo diâmetro. (Segundo Alarcão, op.cit). Vidro verde com numerosas bolhas de ar, algumas impurezas negras e ligeiras estrias da soflagem».



Porca alimentando os filhos. Proveniente da colina do Viminale em Roma. Museu Vaticano.
Fotografia obtida de: https://www.facebook.com/pages/Traianvs-Ingenier%C3%ADa-Romana/151487124895824



              Leoa atacando um javali. Museu Nacional de Arte Romano. Mérida
Fotografia José Jerez Linde

Não podemos ainda esquecer os célebres berrões, “verracos” ou verrascos de origem proto-histórica, “as típicas esculturas de granito do ocidente da Península Ibérica que representam toiros, porcos e javalis. A sua distribuição coincide em grande parte com o território dos Vetões». «Porca de Murça». Fotografia de António Mendes 
«Quando se procura semear a dúvida, que importa que esta seja sobre Zeus, Atena ou sobre o Amor! O deus Amor é uma personagem importante! Não é só de hoje que ele goza de altares e sacrifícios! Também não é um recém-chegado, nem um deus estrangeiro introduzido no nosso país por andróginos ou mulheres, criado pela superstição bárbaras como os Atis e outros Adónis (1)».

(1) Átis era um pastor da Frígia, Ásia Menor, de uma rara beleza, pela qual Cibele se apaixonou. Adónis era uma divindade de origem fenícia, também de extraordinária beleza, de tal forma que a deusa Afrodite se enamorou por ele loucamente. Numa ocasião em que Adónis andava à caça foi tolhido por um javali selvagem.
Plutarco (Nasc.c. 46 - 50 Queronea, Beócia - Fal. c. 120 Delfos, Fócida), Erotika,Fim de Século, edição de 2000.




      Mosaico proveniente de Mérida

Na Roma Antiga a grande base da gastronomia baseava-se nos vegetais e nos frutos. Os romanos apreciavam alho, cebola, nabo, o rábano, o figo, romãs, laranjas, pêras, maçãs e uvas. As hortaliças eram também muito utilizadas, quer as cultivadas,quer as selvagens. «Considerada por Catão (De re rustica156, 1), o vegetal mais saudável, a couve, nas suas diferentes variedades, teria sido uma das primeiras espécies selecionadas pelo homem». Por vezes, em saladas, os legumes usavam molhos avinagrados. http://pt.scribd.com/doc/60141391/7/EM-TORNO-DA-MESA-DA-ELITE-NA-ROMA-ANTIGA
 O prato mais típico era uma mistura água e cevada, podendo juntar-se, na versão mais enriquecida vinho e miolos de animais. A carne era usada pelas classes mais ricas, como o carneiro, burro, porco, ganso, pato ou pombo. Os porcos eram alimentados com figos que aromatizada a carne e já eram criados gansos de forma a poderem ser preparados patês, bem como se alimentavam os frangos com anis e outras especiarias. Em Apício, na sua obra De Re Coquinaria são referidas inúmeras receitas com porco, centrando-se aliás a maioria delas neste alimento. Poderíamos ainda referir o faustoso «Banquete» de Petrónio, onde o porco recheado tem marcada a sua presença.

Só Apício nos dá 27 receitas para suídeos, 10 para javali e 17 para porco-leitáo.

Ver Plínio (HN, VIII, 77, 209) ....
 A Cabra/bode

Par de machos caprídeos.
Medellín, Badajoz. Século I d.C.
Exposição A Lusitânia Romana. Museu Nacional de Arqueologia  





Lucerna com representação de bode. Córdova.

Fotografia a partir de: «Cordoba en Tiempos de Seneca», 1996. 
(catálogo de exposição).


Na mitologia, a cabra aparece associada a Zeus; Atena; Pã
Para os Gregos a cabra simboliza o relâmpago e é o animal que alimentou Zeus, a cabra Amalteia, sendo a sua pele usada no fabrico do cilicium, uma túnica usada em momento de oração, simbolizando a união com a divindade, cujo uso se prolongou até aos nossos dias em determinadas congregações ou seitas religiosas.
Nas orgias dionisíacas era também usada a pele de cabritos para cobrir as Bacantes.
Assim se refere Virgílio, nas suas Geórgicas «É para expiar essa culpa que se sacrifica o bode em todos os altares de Baco, e se celebram as tradicionais festas nos teatros; que os descendentes de Teseu instituíram dádivas aos génios em todas as aldeias e encruzilhadas, e que, jubilosos, bebem e dançam, em cima de odres untados de azeite, nos prados macios.» ) LIV: II 385
Num mosaico de Mértola, onde se identifica a cena mítica de Belefonte matando a Quimera, esta última tem representada nas costas a cabeça de uma cabra, saindo chamas de sua boca (Vergilio Lopes, 2001, Revista Municipal de Mértola).
Diz-nos ainda Virgílio: «Se é porém teu intento criar manadas de gado grosso, bezerros, ovelhas ou cabras de dente daninho, procura os bosques e as pastagens remotas da feraz Tarento, ou os campos como os que perdeu a malfadada Mântua, em que apascentam, no rio onde os juncos verdejam, cisnes cor de neve. Não faltarão aí aos rebanhos nem ervagem nem límpidas fontes: o pasto que eles roem num longo dia de verão, numa curta noite o repõe o gélido orvalho».
« Outra tarefa necessária é tecer sebes, que vedem a entrada a rebanhos, sobretudo enquanto a parra é mimosa e mal afeita a tratos duros. Não só a aspereza dos temporais e a tirania do sol lhe fazem dano; também o uro bravio e a cabra de teimoso dente se comprazem em a destruir, e a rilham as ovelhas e as gulosas bezerras».
As Geórgicas, Sá da Costa, Lisboa, 194 e 370
Referência BIBLIOGRÁFICA: BLANCHARD-Lemée, M. et alii
A cabra aparece associada a Zeus; Atena; Pã Ver: Virgílio, As Geórgicas, Ed. Sá da Costa, Lisboa, 1948.pp. 73; 117; 119; 12; Plínio, NH, VIII, 199.; Tertuliano 

Zeus, que havia esfolado a cabra Amalteia, que o amamentara quando Gea o escondeu de Cronos, e se serviu da sua pele para se proteger dos Titãs, tem como emblema a pele de cabra enfeitada, muitas vezes, com serpentes – a Égide. Atena também tem o mesmo emblema. 
Atributo de divindades, a Égide tornou-se, portanto, insígnia de reis e imperadores de Roma. Para os Gregos a cabra simbolizava o relâmpago. Pã, filho de Hermes, era o deus-cabra.
A cabra é um animal representado com frequência nas lucernas romanas, como são os exemplares provenientes de Miróbriga (CABRAL, nº 6, p. 457) ,e de Santa Bárbara (MAIA, 1997,98). Neste último Sítio apareceram ainda vários exemplares com as Cornucópias da abundância, que se trata do corno da cabra Amalteia (MAIA, 1997: 80).
No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, proveniente de Silves com a forma de cabrinha, datável dos séculos IV-II a. C. Também no Museu Nacional de Arqueologia há duas pedras de anel da colecção Bustorff Silva, de proveniência desconhecida, que apresentam gravadas cenas campestres,constituída por um pastores com bordão e por uma cabras e árvores, bem como um camafeu com uma cena dionisíaca, onde um homem nu segura as pernas de uma cabra junto a uma árvore (ver «Um gosto privado – um olhar público», pp.130-133).
De assinar a representação de caprídeos na arte rupestre em território nacional, de que se pode citar a título de exemplo o Vale do Côa e do Vale do Tejo. Ver relação com a adivinhação em Tertuliano.25 Também no Museu Nacional de Arqueologia há duas pedras de anel da colecção Bustorff Silva, de proveniência desconhecida, que apresentam gravadas cenas campestres, constituída por um pastores com bordão e por uma cabras e árvores, bem como um camafeu com uma cena dionisíaca , onde um homem nu segura as pernas de uma cabra junto a uma árvore (ver «Um gosto privado – um olhar público», pp. 130-133).
No célebre «Mosaico das Musas» proveniente de Torre de Palma e que se encontra no Museu Nacional de Arqueologia estão representados, entre as muitas figuras mitológicas, Sileno e Sátiro. O Sileno obeso apresenta-se nu, barba e cabelos com folhagem verde, e tem uma pele de cabra ou pantera à cintura. O braço esquerdo enlaça um Sátiro, também coroado de verdura.
 Bode


Ver Pã

O Bode aparece ligado ao deus Pã (Lupércio ou Lupercus em Roma) é o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores, na mitologia grega. Vagueava pelos vales e pelas montanhas, caçando ou dançando com as ninfas.
Normalmente é representado com orelhas, chifres e pernas de bode, trazendo consigo uma flauta, produzida com canas de vários tamanhos. Pelo seu aspecto terrífico era temido por todos aqueles que necessitam atravessar as florestas à noite, que assim podiam ser cometidos de pavores súbitos, de onde deriva o termo "pânico".
Também Sátiro, na mitologia grega era um ser com o corpo metade humano e metade de bode. Equivale na mitlogia romana ao fauno. 
Ver As Geórgicas Virgílio  referente aos Sátiros.


Abelha

«Pois vou agora prosseguir cantando
os dons divinos do celeste mel,
peço Mecenas, que oiças o que digo
de maravilhas de pequenas coisas,
dos chefes dum inteiro povo,
dos seus costumes, de seus interesses,
espécies várias e de seus combates,
tudo por ordem que lhe é devida.
Pequeno é o trabalho, grande a fama,
se é que uns adversos deuses não se opoõem,
se é que me escuta um invocado Apolo.
Antes de mais, teremos que escolher,
para dar às abelhas o lugar próprio
a que não chegue o vento, pois os ventos
não deixariam que elas recolhessem
o que do pasto trazem, e também
o que não venha perturbar a ovelha,
petulante cabrito esmagar flor
e por onde não passem as novilhas
que, vagabundas, vão pisando as ervas
e sacudindo quanto orvalho haja.
Longe estejam também de seus apriscos
lagartos sarapintados e escamosos,
ave que apanhe vespa, ou outro pássaro,
mais que nenhum a Procne* em cujo peito
há os sinais de suas mãos sangrentas,
já que estas aves levarão a tudo
o que devastar podem com seus bicos,
a própria abelha pegam quando voam
e põem nos seus ninhos onde o filho
dela faz alimento precioso»
«Pois vou agora prosseguir cantando
os dons divinos do celeste mel,
peço Mecenas, que oiças o que digo
de maravilhas de pequenas coisas,
dos chefes dum inteiro povo,
dos seus costumes, de seus interesses,
espécies várias e de seus combates,
tudo por ordem que lhe é devida.
Pequeno é o trabalho, grande a fama,
se é que uns adversos deuses não se opõem,
se é que me escuta um invocado Apolo.
Antes de mais, teremos que escolher,
para dar às abelhas o lugar próprio
a que não chegue o vento, pois os ventos
não deixariam que elas recolhessem
o que do pasto trazem, e também
o que não venha perturbar a ovelha,
petulante cabrito esmagar flor
e por onde não passem as novilhas
que, vagabundas, vão pisando as ervas
e sacudindo quanto orvalho haja.
Longe estejam também de seus apriscos
lagartos sarapintados e escamosos,
ave que apanhe vespa, ou outro pássaro,
mais que nenhum a Procne em cujo peito
há os sinais de suas mãos sangrentas,
já que estas aves levarão a tudo
o que devastar podem com seus bicos,
a própria abelha pegam quando voam
e põem nos seus ninhos onde o filho
dela faz alimento precioso»
«Há ainda na vida das abelhas
uma outra maravilha de espantar
que é não se abandonarem ao amor,
é não serem cobardes ante Vénus;
nem é na dor que dão à luz os filhos:
sozinhas com a tromba os alevantam,
os recolhem das ervas e das folhas,
sozinhas dão reis novos se é preciso,
sozinhas a seus reis dão cidadãos
e sozinhas dão restauram suas cortes,
as do reino de cera a que pertencem.
Certo que chegam cedo ao fim da vida,
não indo nunca alé de sete Estios;
é contudo imortal a sua raça,
fortuna da família vence os anos,
fácil é encontrar avós de avós(…)».
Virgílio, Geórgicas, Livro IV

A abelha aparece associada a Ceres; Priapo
Ver: Virgílio, As Geórgicas, Sá da Costa, Lisboa, 1948; Plínio, Naturalis Historia As Geórgicas, pp. 47; 91; 137; Plínio, XI, 18
As abelhas podiam significar um mau presságio (Plínio NH XI, 55). Segundo Plínio, as abelhas fazem cera com as flores das plantas, excepto algumas;« é erróneo exceptuar o esparto, pois na Hispânia há muitos meles que procedem de espartos e têm gosto a esta planta. Julgo igualmente engano esquecer a oliveira,porque é certo que a abundância de oliveiras favorece a multiplicação dos enxames», Plínio, N.H., XI, 18. Ver também Plínio, XXI, 74.
Segundo Plínio (Plínio NH XI), as abelhas fazem cera com as flores das plantas, excepto algumas; «é erróneo exceptuar o esparto, pois na Hispânia há muitos meles que procedem de espartos e têm gosto a esta planta. Julgo igualmente engano esquecer a oliveira, porque é certo que a abundância de oliveiras favorece a multiplicação dos enxames», Plínio, N.H., XI, 18. Ver também Plínio, XXI, 74.
Para Virgílio as abelhas possuem uma parcela da Inteligência divina. Segundo informação de Estrabão,«Da Turdetânia exporta-se trigo, muito vinho e azeite; este, para mais, não só em quantidade, como de qualidade insuperável», bem como «cera, mel, pez»…..Estrb. III, 2, 6
http://www.passeidireto.com/arquivo/2728810/-dicionario-de-mitologia-grega-e-romana/49
Para Virgílio as abelhas possuem uma parcela da Inteligência divina. Segundo informação de Estrabão,«Da Turdetânia exporta-se trigo, muito vinho e azeite; este, para mais, não só em quantidade, como de qualidade insuperável», ben como «cera, mel, pez»…..Estrb. III, 2, 6.
Ao que reza a mitologia, as abelhas receberam a incumbência de armazenar o mel que obtinham a partir das flores. Irritadas porque todos queriam o mel que elas recolhiam, consta que se dirigiram a Zeus reclamando porque vinham todos roubar o seu mel. “Recusas dividir o que eu te preparei especialmente para fazer a colheita? Pois como castigo, de hoje em diante, quando picares algum animal, além de perder o ferrão, também morrerás em seguida!” Assim explica Esopo essa anomalia da ferroada da abelha, como se tratasse de um castigo divino, eventualmente, por causa do egoísmo manifestado.


A abelha aparece também associada a: Eros/Cupido, Cibele, Diana, Reia e Artemis. Do que há conhecimento, foram encontrados em vários países do mediterrâneo vestígios de antigos cultos (3000 a.C.) de uma Deusa das Abelhas, mas sem que, contudo, se conheça a sua exacta identidade. Em gravações feitas em tábuas votivas provenientes de escavações no templo cretense de Phaistos a Deusa faz-se representar como uma abelha, com cabelos entrançados como serpentes e com um bico de pomba, combinando assim características de Athena, Ártemis, Afrodite e Medusa. Também desenhos encontrados no palácio de Knossos parecem corroborar a existência de uma Deusa das abelhas na antiga Creta minóica. Também a divindade cultuada na Anatólia (Ásia menor, 3500-1750 a.C.) era representada usando uma tiara em forma de colmeia; e o mel era considerado sagrado e utilizado para embalsamar os mortos enterrados em posição fetal em vasos chamados pythoi. ”Cair no vaso com mel” era a metáfora usada para morrer e o pythos era o ventre da Deusa na sua manifestação como Pandora, a Doadora, cuja essência sagrada era o mel. «Vários mitos descrevem a restauração da vida após a morte com o auxílio do bálsamo de mel da Deusa. Deméter era chamada de Mãe Abelha e no seu festival Thesmophoria, reservado apenas às mulheres, as oferendas (mylloi) eram constituídas de pães de mel e gergelim em forma de órgãos sexuais femininos. O símbolo de Afrodite do Seu templo em Eryx era um favo de ouro e Suas sacerdotisas eram chamadas Melissas, assim como também as que serviam nos templos de Deméter, Ártemis, Rhea e Cibele, nos cultos da Grécia, Roma e Ásia menor. Essas sacerdotisas exerciam funções oraculares, se alimentavam apenas com pólen e mel e recebiam o dom de falar a verdade da Deusa Abelha, que a sussurrava nos seus ouvidos. As abelhas eram consagradas à Deusa desde a antiga civilização matrifocal de Çatal Huyuk (Anatólia) e aparecem nos mitos gregos como “pássaros das Musas”, atraídos pelo aroma das flores do qual preparavam o mel, considerado um néctar divino. Acreditava-se que as abelhas eram almas das sacerdotisas que serviram às deusas Afrodite e Deméter, acompanhando a passagem das outras almas entre os mundos. O nome científico da classe das abelhas – Hymenoptera – que significa “asas de véu” refere-se ao hymen, o véu que ocultava o altar interno nos templos da Deusa, assim como sua contraparte no corpo da mulher, que é a membrana que veda a entrada para o seu santuário íntimo. A defloração era um ato sagrado realizado com a bênção da Deusa no seu aspecto de Hymen, a padroeira da noite de núpcias e da lua de mel, que tinha a duração de um ciclo lunar e menstrual. O noivo podia acessar a fonte de vida tendo relação sexual durante a menstruação da noiva, momento muito sagrado e poderoso».
Tal como o azeite, o mel era utilizado nas civilizações antigas quer para a culinária, como para usos medicinais ou estéticos. Em Roma o Mulsum era um vinho era misturado com mel, a exemplo do que já faziam os Gregos com o Melicraton, mas muitos outros pratos o utilizavam como aditivo. O latino Apício refere o seu uso para fins mais refinados: ensinava a engordar gansas com figos secos para logo depois matá-las dando de beber vinho e mel, fazendo patés e ainda noutros alimentos.
O mel constava a par do queijo e dos ovos, do leite e das frutas, da dieta dos romanos mais abastados.

Ver: 

Virgilio y las abejas

https://latunicadeneso.wordpress.com/2017/01/24/virgilio-y-las-abejas/#like-25145
 Formiga
Plínio o Velho, o escritor latino, refere-se a formigas venenosas. (Plínio, NH, XXIX, 92 47). 
Recordemos também as divindades que se lhe associam, como Amphisbaena. «Anfisbena (Plural: Anfisbenas), Anfisbênia, Anfibena, Anfisbênio, Amphisboena, Amphisbaena, Anfista, Anfivena, palavra Grega, que significa “que vai em duas direções”, do (amphis), que significa “ambos os caminhos”, e (bainein), que significa “ir”, também chamado a Mãe das Formigas, é uma serpente mitológica, que come formigas e com uma cabeça em cada ponta». Wikipédia Segundo a mitologia grega, Anfisbena terá nascido do sangue que gotejou da cabeça de Górgona, uma das três Medusas, quando Perseu sobrevoou o Deserto da Líbia, com ela nas suas mãos. Foi então que o exército de Cato a encontrou juntamente com outros ofídios. Anfisbena ter-se-á alimentado dos cadáveres deixados para trás. À lenda de Anfisbena como uma criação mitológica e se referem Lucano, Caio Plínio Segundo, e outros autores de épocas posteriores como Isidoro de Sevilha, e Thomas Browne. Sobre as Medusas.

Ver Ovídio, Metamorfoses.

Boi



Pormenor do Sarcófago das Estações, sendo visível um boi, em primeiro plano.
Monte da Azinheira, Évora
Século III d. C.
194 × 64 × 62 cm
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
Depósito da Câmara Municipal do Porto
Ver: Catálogo da Exposição «Lusitânia Romana, origem de dois povos» p. 236.


Refira-se que existem inúmeras referâncias aos bois e seu trabalho agrícola em autores da Antiguidade, designadamente em Columela , Livro IV da Agricultura e nas Geõrgicas de Virgílio.
Estrabão refere os sacrifícios  de bois (III, 3, 7).
No Museu Nacional de Arqueologia há duas estatuetas de argila,uma proveniente da necrópole da Fonte Santa, Ourique com a forma de boi, datável da I Idade do Ferro (De Ulisses a Viriato, 1996, p. 218) e uma outra proveiniente da necrópole do Olival do Senhor dos Mártires, da II Idade do Ferro (idem, p. 254). Existe ainda uma estatueta de bronze,em forma de bovídeo deitado, proveniente de Mourão, datável da I Idade do Ferro (De Ulisses a Viriato, 1996, 247). De assinalar a representação de bovídeos (auroques) na arte rupestre em território nacional, de que se pode citar a título de exemplo o Vale do Côa. 52. 
Sobre o boi há também inúmeras referências, quer em Virgílio, nas Geórgicas,  como em Columela (Livro IV, Da Agricultura), onde são descritas as várias espécies, através da coloração das suas pelagens.
Não podemos esquecer o seu uso doméstico, na alimentação e na lavoura, mas também em contexto processional ou ritual, a exemplo da definição do perímetro das cidades, ou em sacrifícios, tal como refere Plínio (Plínio, NH, XXXI, 86) e Estrabão (III, 3, 7).


«Durante o ritual de fundação, o herói fundador da cidade circundava o território onde ela seria edificada, com o auxílio de um arado de bronze, puxado por um boi, representando aunião do céu com a terra e cada vez que esta fosse cultivada a fertilidade da terra, mãe, era ampliada. Acredita-se aos etruscos a influência desse rito sobre os romanos, mas não se descarta a  possibilidade de que eles o tenham importado de algum outro povo com o qual tiveram contato (RYKWERT, Joseph. A ideia de cidade: a antropologia da forma urbana em Roma, Itália e no mundo antigo. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 98)»

Baixo relevo de uma sepultura com representação de carro puxado a bois, para venda de vinho. 
Museu Romano de Augsburgo

Burro
 Plínio, VIII, 170 « É sabido que na Celtibéria as burras chegaram a produzir crias de valor de 40.000 sestércios» Plínio, VIII,170. Ver também «O Asno de Ouro».



Aparece associado a Apolo, Dioniso.
Se bem que sendo conotado entre nós representando a ignorância, a preguiça, a teimosia, a obstinação, o inconsciente, ele é, mais do isso, também o símbolo do obscuro, ou mesmo do maléfico, motivo pelo que Vesta, a deusa dos Lares, do fogo e da Luz, se faz, por contraponto, acompanhar dele em algumas representações.
O burro é no «Asno de Ouro» de Apuleio essa personagem Lúcio que, metamorfoseado em animal, tem que viver mil peripécias e azares até que se possa regressar à sua condição de Humano. Ou seja o burro faz uma viagem iniciática no sentido de se libertar do que o escraviza e não lhe permite atingir a felicidade sobrenatural e a pureza.
A expressão “orelhas de burro” vem da lenda segundo a qual Apolo terá transformado as orelhas de Midas nas de um burro, pois o rei deixava-se encantar pelo som da flauta do deus Pã, em vez em vez de apreciar a música do templo de Delfos, ou seja, do ponto de vista simbólico, optava pelas seduções sensíveis em vez de escolher as da do espírito e da alma.
Também por isso a usual expressão «orelhas de burro não chegam ao Céu».
Sendo consagrado a Dioniso a quem eram sacrificados estes animais, é conhecida na mitologia a sua função como transportador do berço da mesma divindade.

Mosaico com burro a ser alimentado, detalhe do lado nordeste.
Palácio de Constantinopla. Fotografia a partir de:
http://www.wikiwand.com/pt/Grande_Pal%C3%A1cio_de_Constantinopla

Curiosamente, Apuleio, no Asno de Ouro, faz eco de uma devoção lunar atribuindo ao burro uma oração dedicada à ” Lua cheia resplandecente de admirável brilho” a quem confere uma “transcendente majestade, e que todas as coisas humanas se regiam por sua providência; que não somente o gado e as bestas feras, mas também as inanimadas, vegetavam pelo divino influxo de sua luz e divindade (…)”. Suplica-lhe, então, apelando a atributos que lhe foram conferidos ao longo dos tempos:
” Rainha dos céus, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mão dos frutos, que alegre com o achado da filha removeste o alimento da antiga bolota própria das feras, e ensinaste uma comida mais suave, e agora habitas o terreno de Elêusis; ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das cousas ajuntaste os diferentes sexos gerando amor, e propagaste a espécie humana de eterna descedência, e agora és adorada no templo de Pafos que‚ rodeado de mar; ou sejas a irmã de Febo que, favorecendo o parto das mulhers com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos, e agora és venerada nos sumptuosos templos de Éfeso; ou tu sejas Prosérpina, horrível pelos uivos nocturnos, que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os arcanos da terra e, vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto: tu que alumias os muros de todas as cidades com a tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo e esparges uma luz incerta segundo as revoluções do Sol: por qualquer nome, quaisquer ritos e debaixo de qualquer forma que é lícito invocar-te, tu me socorre agora em minha extrema calamidade, tu consolida minha forma desbaratada, tu dá-me paz e repouso depois de tão cruéis desgraças sofridas”.
Não querendo prolongar-me aqui na análise simbólico/religiosa desta prece, gostar¡a, no entanto, de mencionar o facto de Apuleio conferir a esta dividade atributos que serão comuns à iconografia cristã das Virgens e Santas: “Uma coroa multiforme de diversas flores lhe cingia o alto da cabeça e, no meio dela sobre a fronte, um disco plano, à maneira de espelho (…); dos lados direito e esquerdo, v¡boras entonadas a cingem com suas roscas, e por cima se estendem também espigas de cereais. Seu vestido era de muitas cores e tecido do mais fino linho (…). Pela orla bordada do manto e por toda a sua superf¡cie cintilavam estrelas dispersas, e no meio delas a Lua dardejava seus chamantes fogos. Também por toda a borda deste insigne manto corria, aplicada com inseparável união, uma grinalda construída de todas as flores e de todos os frutos”
«Asno de Ouro», Apuleio

                    
Salamandra

 O Fogo Os Antigos julgavam-na, por um lado, capaz de viver no fogo sem por ele ser consumida e, por outro, capaz de o extingir. Por isso as legiões romanas temiam encontrá-las, pois admitiam ter um efeito nefasto em combate, ou seja o seu aparecimento era um mau presságio. Aparece associada ao Fogo. Os Antigos julgavam-na, por um lado, capaz de viver no fogo sem por ele ser consumida e, por outro, capaz de o extinguir. Por isso as legiões romanas temiam encontrá-las, pois receavam que apagasse o Fogo Sagrado e admitiam que isso tivesse um efeito nefasto em combate, ou seja o seu aparecimento era sempre um mau presságio. A salamandra, que se alimenta do fogo, de acordo com alguns, e a Fénix, renascida das suas cinzas, são das representações mais comuns do Bestiário alquímico. A primeira simboliza a Pedra ao rubro, etapa final da Obra Alquímica, do processo de transformação; a segunda o eterno recomeço de um processo que não tem fim. Para a simbologia e na crença popular é, portanto, tratada como um ser elementar que tem sua morada no elemento fogo, para infundir-lhe vida e protegê-lo, conforme o refere Paracelso (1493-1541). No “Physiologus”, obra didáctica de origem grega anónima, do século II d.C., refere-se também uma curiosa tradição segundo a qual a salamandra surge como um pássaro frio (“o mais frio de todos os pássaros”) que viveria no vulcão Etna, sem, não obstante, se consumir. Provavelmente trata-se de uma alusão distorcida à lenda do outro animal mítico-simbólico a que nos referimos, pela sua associação simbólica, a Fénix.
.


Rebanho
 (ovelhas, carneiros e cabras)
Ver: Virgílio, As Geórgicas. 73; 85; 127; 129

O gado ovino aparce associado a Pã, Ganimedes e Priapoas
Nota: Ganimedes era guardador de rebalhos nas montanhas à volta de Tróia quando o deus Zeus, em pessoa ou sob a foram de águia, o raptou e levou para o Olimpo, onde passou a desempenhar papel de escanção do néctar dos deuses. Cirene, uma ninfa caçadora, percorria as florestas do Pindo e matava todos os animais ferozes que se tentavam aproximar do rebanho do seu pai Hipseu, rei dos Lápidas. Em Santa Bárbara dos Padrões foi identificado um exemplar de uma lucerna com a representação de Ganimedes,caminhando sobre uma grinalda de folhagem (MAIA, 1997, 70).
Também nesse local apareceram dois exemplares de lucernas representado Sátiro, símbolo do poder vital da natureza. Por esse facto, as representações de Sátiros são sempre parcialmente zoomórficas, fazendo os cornos do bode parte integrante das figurações.
Pan, deus dos rebanhos e dos pastores, também filho de Hermes/Mercúrio, nasceu igualmente com cornos de bode e muito irrequieto. Os Romanos identificaram esta divindade com Fauno, também com cornos e pés de bode (MAIA, 1997: 75). 
Em Santana do Campo, Arraiolos, sobrevivem os vestígios de um templo consagrado a Carneus Calanticenses (IRCP 410-412),divindade possivelmente relacionada com a criação de gado (Mantas, 1998:50).52. 



Ovelha

Ver: As Geórgicas, Virgílio, Sá da Costa, 1948. Plínio, VIII, 199; Estrabão, III, 2, 6. Virgílio, 71; 73; 85; 119; 121; 125; 127; 129.De Torre de Ares provém ainda uma lucerna , onde no disco aparece representada uma ovelha (NOLEN, 1994, 44, lu.46).Plínio informa-nos, no século I d.C., na sua «História Natural» que «as melhores lãs de velo prodú-las a Hispânia. (…) As da Hístria e da Libúrnia são mais pelo do que lã, impróprias para vestuário peliçado, e o mesmo acontece com as que Salácia, na Lusitânia, recomenda para tecidos axadrazados» (Plínio, VIII, 191). Estrabão informa-nos que a Turdetânia tinha lãs «nada há que as supere em beleza» Estr. III, 2, 6. Vigílio, na sua obra «As Geórgicas»,III, 440, refere. «Ensinar-te-ei também as causas e os sintomas das doenças dos gados. A repugnate ronha ataca as ovelhas quando a chuva fria e o áspero Inverno, com as brancas geadas, penetram profundamente, até aos orgãos vitais, ou quando, nas que foram há pouco tosquiadas, o suor mal limpo lhes adere aos corpos, ou as feriam os matos espinhosos. Em tais casos, os maiorais levam todo o rebanho a banhar-se nas águas puras de um rio, mergulhando os carneiros no sítio mais profundo, para que o velo fique todo molhado; ou, depois da tosquia, aplicam um unguento, como a amarga água ruça, litargírio, enxofre natural, pez do monte Ida, cera gordurosa, cebola albarrãn, eléboro fétido ou betume negro (…)»

Carneiro

Cabeças de carneiro em mosaico escavado na Casa Romana em Daphne. Séculos V e VI d. C.
Fotografia a partir de: Art, archeology and architecture
https://www.facebook.com/305694956238176/photos/p.683752785099056/683752785099056/?type=3&theater

Ver: Plínio, VIII, 199; Estrabão, III, 2, 6
Do cabeço de Vaiamonte (Monforte) provém um pendente em pasta vítrea, datável dos séculos VII a V a. C., em forma de cabeça de carneiro, nas cores negra, branca e amarela. A sua presença deve-se, provavelmente, ao comércio fenício (ver «O Vidro em Portugal» e «De Ulisses a Viriato», p. 263). Ainda nesse Museu existe a cabeça de um carneiro, provalvelmente de influência cultural tartéssico-oriental.Também de Ferragial d’el Rei, Alter do Chão, é proveniente uma estatueta em forma de carneiro (na fotografia).
Para além do seu uso alimentar, também é conhecido o seu uso sacrificial.




Cervídeo.
Mosaico com representação de cervídeo.
Villa Romana da Coutada, Arronches.
Biblioteca de Elvas.

Fotografia Portugal Romano.

Ver: Mosaico com representação de veado.  
    Villa Armira, Uvalovgrad, Bulgária.   
Fotografia de Rossitsa Todorova

Mosaico com representação de cervo jovem,  Uzès, França
Fotografia a partir de:
https://latunicadeneso.wordpress.com/2017/03/29/unos-extraordinarios-mosaicos-romanos-afloran-en-el-sur-de-francia/

O veado aparece associado a Artemis/Diana No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, da colecção Bustorff Silva, de proveniência desconhecida, com a forma de cervídeo, datável do século VII a. C. (ver catálogo da exposição «Um gosto privado – um olhar público», MNA, 1994. e uma cerâmica «paredes finas» , proveniente possivelmente da Necrópole de Belo, onde está representado um veado e dois corsos (?). (idem, p.88). A corça, animal que acompanha Diana, está representado numa lucerna de Santa Bárbara (MAIA, 1997. 101). De Torre de Ares provém uma tijela decorada com bandas de elementos vegetais e animais, como veados e pássaros, datável da época flávia (NOLEN, 1994, 91, sh.1). Na festividade das Tesmofórias, dedicada a Deméter, o único animal que se sacrificava era o veado. Em território nacional há inumeras representações de cervídeos na arte rupestre, podendo-se, a título de exemplo, referir os do Vale do Tejo, do Côa e do Escoural.
Mas os cervídeos também são comuns na iconografia romana, sendo conhecidas, para além das acima referidas, representações em mosaicos e também em lucernas, podendo referir os exemplares de Ossonoba, estudados por Carlos Pereira (LUCERNAS ROMANAS DE OSSONOBA (FARO, PORTUGAL).


Ver: LUCERNAS ROMANAS DE OSSONOBA (FARO, PORTUGAL).
Carlos Pereira 

Diana era a deusa da lua e da caça. Ao que diz a Mitologia numa das suas aventuras, transformo cervo o caçador Acteão, porque a viu nua enquanto tomava banho. Distante do amor era caçadora infatigável, sendo cultuada em templos rústicos nas florestas, onde lhe eram oferecidos sacrifícios. Na mitologia romana, Diana era deusa dos animais selvagens e da caça, mas também dos animais domésticos. Filha de Júpiter e Latona, irmã gémea de Apolo, obteve do pai permissão para não se casar e se manter sempre a castidade. Júpiter forneceu-lhe um séquito de sessenta oceânidas e vinte ninfas que, como ela, renunciaram ao casamento. Diana foi identificada com a deusa grega Ártemis e depois absorveu a identificação de Artemis com Selene (Lua) e Hécate (ou Trívia), de que derivou a caracterização triformis dea (“deusa de três formas”), como era referida na literatura latina. Um dos seus santuários, o mais famoso, localizava-se no bosque junto ao lago Nemi, perto de Arícia. Adaptado a partir de Wikipépia
Do ponto de vista simbólico o cervo identifica-se com a pureza, a velocidade e a fecundidade. Ao cervo está também associada a ideia de liberdade e velocidade. Ao que diz também a Mitologia greco/latina, Artemisa (Diana) conduzia com rédeas de ouro um carro atrelado com cervos.
Utilizando as palavras de Maria  Teresa Caetano, «A iconografia de Actéon encontra-se estandardizada, desde há muito, conforme se patenteia, aliás, no baixo-relevo esculpido no friso do templo E de Selinonte (no Museu Arqueológico), datado da primeira metade do século V a.C.311 e, cuja tipologia se poderá enquadrar ainda no contexto da arte grega arcaica: a deidade desnudada permanece de pé, em posição frontal, com a cabeça a transmudar-se em veado, com as suas longas e trabalhadas hastes, a ser atacado pelos seus próprios cães, enquanto a vingativa Ártemis, envergando longa túnica e o cabelo comprido, amarrado por uma fita, observa, impávida, o triste destino do filho de Apolo. Esta mesma representação, em alguns casos, como o de Conimbriga, por exemplo, onde Actéon enverga uma túnica assumiu contornos distintos, mas em todas as representações o infeliz Actéon brande um pedum, com o qual tenta, infrutiferamente, proteger-se dos animais enfurecidos. Actéon, talvez pelo seu destino, acabou mais ou menos relegado para um canto relativamente obscuro da mitologia clássica, sendo rara a sua reprodução iconográfica na Hispânia, pois, em toda a bibliografia compulsada relativa aos mosaicos deste território, apenas lográmos encontrar, no mosaico conimbrigence, uma figuração da sua metamorfose, ainda que tal mito se encontre também representado num candelabro que se encontra no Museu Arqueológico Nacional de Madrid. A presença do mito da transformação de Actéon (Iconographia n.º 72), no entanto, é relativamente o mito de Ácteon encontra-se presente, entre outros, em Ivajlovgrad, na Bulgária, numa uilla erigida durante o império de Adriano, em Óstia, do século III, em Circenster, de finais do século II ou começos do seguinte31le em Nimes, datado entre ao meados e os finais do século II. Nesta perspectiva, a representação musiva da mutação de Actéon num veado patente num dos mosaicos da “Casa dos Repuxos”, em Conimbriga, constituirá mais um elemento que nos permite caracterizar aquele conjunto de mosaicos deveras singular, onde sobrevive, ainda que envergando uma roupagem distinta, a representação deste mito da Hélade arcaica» (2).



Lucerna com representação da deusa Diana. Villa romana de Freiria, Cacais
Fotografia: Guilherme Cardoso
 Gafanhoto
O gafanhoto tanto é considerado um símbolo da boa sorte, da abundância, e da virtude, como aos azares.
Devido à sua reprodução rápida relacionam-no com a fertilidade e a prosperidade.Através de um só salto, o gafanhoto consegue projectar-se até vinte vezes o seu próprio comprimento.Contudo, nos textos Biblícos aparece associado às pragas e calamidades, destruindo as plantações.Por isso, muitas vezes também se liga aos aspectos simbólicos de destruição, voracidade, desordem ou desequilíbrio.

Urso

Árcade foi com sua mãe Calisto transformado neste animal e colocado entre as constelações. O urso está representado em cinco lucernas de Santa Bárbara (MAIA, 1997:102). Ao que consta na mitologia, Atalanta, foi exposta pelo seu pai Íaso que apenas desejava filhos do sexo masculino, tendo sido alimentada com o leite de uma ursa e recolhida por caçadores que a criaram.
 Rouxinol
Aédon foi transformada por Zeus nesta ave, como forma de a apaziguar da sua dor por um crime que inadvertidamente cometeu.
 Morcego

Por se ter recusado a participar nos mistérios de Dionísio, Alcítoe foi transformada neste animal. O morcego é conotado com a longevidade, porque vive nas cavernas, esse lugar que é uma passagem para o domínio dos imortais. 
Na mitologia grega, os morcegos eram sagrados para Prosérpina, mulher de Plutão, o deus do submundo. Por sua vez, Plínio refere que, à época, se pregavam morcegos de cabeça para baixo, à porta das casas, para afugentar os espíritos maus e os azares, portadores de desgraças. (História Natural, liv. XXIX, 26).
 Pêga

Porque desafiaram as Musas para um concurso de canto as Piérias foram transformadas nestas aves.

 Cegonha
 Piedade Associada à fidelidade. Era um dos atributos da Piedade. Em Santa Bárbara dos Padrões, foram identificadas duas lucernas com a representação da cegonha isolada sobre o disco (MAIA, 1997, 104 e 105).

Mosaico do Verão, com representação de cegonhas. Villa Romana de Pisões.
Fotografia gentilmente cedida por Maria Jesus Duran Kremer

Mosaico representando cegonha (?). Aquileia, Itália. Fotografia a partir de:
https://www.facebook.com/Traianvs-Ingenier%C3%ADa-Romana-151487124895824/

Lince.
Aparece associado a Deméter Linco foi transformado neste animal, por Deméter, por punição 


Grou 

O assassínio de Íbico foi presenciado por um bando destas aves que posteriormente denunciaram os assassinos.



Lobo  (lupus)

Mosaico da Piazza Armerina (Sicilia). Caça ao lobo.

Ver a fundação de Roma.O culto de Sorano e Apolo-Licio estavam intimamente ligados a esta espécie.
Luperco, antigo deus itálico, amigo dos pastores e protector dos rebanhos contra os lobos, foi rapidamente assimilado pelos Romanos a Fauno. 
A festa em sua honra, a Lupercalia era consagrada para evitar a esterilidade feminina e celebrada a XV Kalendas Martias, que corresponde hoje ao dia 15 de Fevereiro. Realizavam-na na gruta de Lupercal, no monte Palatino. 
Teria sido onde, segundo a tradição, Pã, também chamado Fauno Luperco (o que protege do lobo), em cuja honra se fazia a festa que tomou a forma duma loba e amamentou os gémeos Rómulo e Remo.   
Lupercália era uma festa de fim de ano, acreditando-se que essa cerimónia servia para espantar os maus espíritos e purificar a cidade, bem como para liberar a saúde e a fertilidade às pessoas açoitadas pelos sacerdotes lupercos.
Mas também a figura do lobisomen, Mito-maldição, cruza o tempo e o espaço. Dos mais antigos e talvez o único verdadeiramente universal, existindo registos de Plínio, o Velho, Heródoto, Petrônio e Ovídio, entre outros. “Em vão, tentou falar; a partir daquele momento Sua boca espirava espuma e tinha sede. De sangue, enquanto vagava entre rebanhos E suspirava por matanças. Suas roupas transformaram-se em pêlos, Seus membros ficaram atrofiados. Um lobo, mas ainda mantendo parte de sua expressão anterior, Grisalho como antes, sua fisionomia, furiosa, Seus olhos brilham selvagemente, a imagem da fúria.” (Ovídio, Metamorfoses) «O nome, derivado das Lupercais, festividades dedicadas ao deus Pan, na antiga Roma, alastrou-se também nas Américas Central e do Sul, via Espanha (Lubizon), Portugal (Lobisomem), e na do Norte, via França (Loup-garou), ou saxão (Werrwolf), depois de ter atingido toda a Europa. Registros indicam a existência do mito na China e no Japão e na África»
Cigarra
Titono, símbolo da decrepitude por ter sido condenado à eternidade, mas não à eterna juventude, é transformado por Eos em cigarra.
Lagarto.
É o animal que simboliza Apolo, divindade que, entre os Gregos, assume primordial importância nas artes divinatórias.
  Pomba


Fresco de Pompeia. 
Pintura mural da denominada «Casa del Mitreo» (Mérida) com representação de candelabro e pombas.
Fotografia: José Manuel Jerez Linde





Portadora de oferentas do Santuário de Endovélico 
«Na sebe que separa do vizinho
sempre as abelhas de Hibla passarão
nas flores do salgueiro e seu sussurro,
tão manso e leve, a descansado sono
te vai persuadir, e de alta rocha
lançará podador seu canto à brisa,
sem que, entretanto, as pombas do teu mimo
deixem seu arrulhar e sem que a rola
cesse o gemer do cimo dos ulmeiros»
Bucólicas, Virgílio


Fazendo parte da iconografia cristã, os pombos têm, contudo, sido identificados como um símbolo do amor e da devoção desde tempos imemoriais, fazendo parte da mitologia romana e grega. Numa das lendas, conta-se que a deusa do amor e da fertilidade, Afrodite, nasceu numa carruagem puxada por pombas. 
Ainda segundo o mito, as Plêiades, que eram sete irmãs: filhas de Atlas, um titã condenado por Zeus a sustentar o céu, e de Pleione, filha do titã Oceano e protetora dos marinheiros, foram transformadas por Zeus em pombas que as colocou no Céu, entre as estrelas, para protegê-las das incansáveis investidas amorosas de Órion. Conotada com a pureza e a simplicidade, é a ave que, no Antigo Testamento, leva o ramo de oliveira a Noé, como símbolo de paz, harmonia, esperança e felicidade. No Novo Testamento simboliza o Espírito Santo.
A associação da pomba a Vénus é referida nas «Saturae», VI, 548-552 Juvenal
A pomba aparece também associada a um ramo de oliveira que pode simbolizar a Paz ou a Vitória.
Em Santa Bárbara (Castro Verde) foram identificadas cinco lucernas com a representação da pomba sobre um ramo de oliveira (MAIA, 1997, 108 e 109).
As entranhas de pombas eram usualmente usadas pelos harúspices. Segundo a mitologia Eufemo, filho de Posídon, teria feito parte da expedição dos Argounautas, a quem ajudou com os seus dons de adivinhação. Quando o navio Argo chegou junto das rochas Simplégades, largou-se uma pomba; os dois rochedos tentaram fechar-se sobre a ave, mas não conseguiram, tendo os Argonautas aproveitado para passar. No Dilúvio é a pomba que anuncia a Terra .
Do que se conhece, o mais antigo oráculo grego era o de Júpiter, em Dodona.
Segundo uma lenda, ele surgiu da seguinte forma: «Duas pombas pretas partiram de Tebas, no Egito, e uma delas voou para Dodona, no Épiro, e, pousando num bosque de carvalhos, anunciou, em linguagem humana, aos habitantes do lugar que eles deveriam estabelecer ali um oráculo de Júpiter. A outra voou para o templo de Júpiter Amon, no Oásis Líbio, e transmitiu ali a mesma ordem. Outra versão é a de que não foram pombas, mas sacerdotisas, que, levadas de Tebas, no Egito, pelos fenícios, estabeleceram os oráculos do Oásis e de Dodona. As respostas do oráculo eram dadas nas árvores, pelo ruído que faziam as folhas movidas pelo vento, sendo esses sons interpretados por sacerdotes».
A pomba aparece sempre ligada à ideia de mensageira.
Na mitologia aparece associada a Ariadne e a Afrodite, representando a «realização amorosa que o amante oferece ao objecto do seu desejo» (CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos, Teorema)
Conotada com a pureza e a simplicidade, é a ave que, no Antigo Testamento, leva o ramo de oliveira a Noé, como símbolo de paz, harmonia, esperança e felicidade. No Novo Testamento simboliza o Espírito Santo.
Existem várias referências aos pombos correio na Antiguidade, designadamente em Aristóteles, Plínio, Heliano, bem como à existência de pombais fixos e móveis do período romano, pois eram já usados na estratégia militar de suas legiões. Sabe-se que em Roma havia pombais que tinham seis mil pombos devidamente treinados, devendo-se a tal facto a velocidade como César e os comandantes de legiões eram informados dos movimentos de seus inimigos e das rebeliões.
Ao que se sabe, também no Império Romano os pombos correio anunciavam os resultados das lutas entre gladiadores.
Mas há conhecimento que, já no Egipto, os pombos correio eram um veículo de comunicação fundamental, anunciando as altas e baixas do Rio Nilo de forma a alertar moradores e lavradores das suas margens.
Na Antíga Síria, os pombos eram consideradas aves sagradas e, na Pérsia, ao que parece, a sua criação era cometida apenas dos maometanos, havendo cristãos que se convertiam a essa religião apenas para poder fazê-lo.
A representação de pombas encontra-se em baixos relevos esculpidos no Capitólio Romano.
Do que é conhecido, no topo dos cetros usados pelos generais romanos em cerimónias triunfais, era colocado um pombo correio entalhado em madeira rara, ouro ou prata.
Mas também parece ser a ave que está na mão de uma estátua proveniente do Santuário de Endovélico, Alandroal, em depósito no MNA e ainda de uma Ara com relevo de árvore e pomba proveniente da Herdade da Defesa dos Barros. Avis. Portalegre
Segundo José Luís de Matos, os animais aqui representados relaciomam-se com o culto dos “numica” e a sua presença pode ter o significado de perpetuação das oferendas e sacrifícios feitos ao defundo.
Lembremos ainda que José e Maria também sacrificaram dois pombos na cerimónia da apresentação de Jesus no templo.
Na uilla romana de Pisões há uma interessante representação com pombas.
«A representação de pombas que se dessedentam numa cratera é muito antiga. Segundo Plínio (N.H. XXXVI, 184) terá sido Sosus, em Pérgamo, a introduzir, na arte musiva, este tema que irá ser reproduzido ao longo da Antiguidade Clássica e Tardia. Como exemplos dele, refira-se um painel da uilla adriana do séc.II d.c. ou o conjunto do vaso (grande taça) e duas pombas, de grande simplicidade e beleza,que figura no Mausoléu de Galla Placídia, em Ravena, do séc.V da Era cristã».

Escorpião
Aparece associado a Mitra e Diana.
 O escorpião foi o animal usado por Diana para matar Orion e aperece ligado ainda a Mitra, a quem auxilia no sacrifício do touro. Em Santa Bárbara dos Padrões foi identificado um fragmento de lucerna com a representação de um escorpião (MAIA, 1997,112).
Até tendo em mente a mitologia e as associações com algumas divindades, o Escorpião simboliza a busca da Luz, ao ponto do oráculo indicar a Oríon que se volte para o Oriente. Esta expressão é utilizada pelo suplicante que deseja ser iniciado.
Uma versão deste mito é que Órion tentou violentar a deusa Ártemis.
A fim de castigá-lo, Ártemis teria enviado um escorpião gigantesco para lhe morder o calcanhar, matando-o. Pelo serviço prestado à deusa, o escorpião foi transformado em constelação, simbolizando a vingança de Artemis por ter sido ameaçada de estupro ou, segundo algumas versões do mesmo mito, por ter tido uma oferta afectiva e sexual rejeitada.
Mas, ao que parece, segundo interpretações iniciáticas do mito, Oríon, terá sido confrontado com múltiplos obstáculos, sendo a sua iniciação um longo caminho.
Uma das provas foi a caça, e após tê-la ultrapassado, encontra Artemisa por quem nutre uma paixão e um desejo obsessivos, mal querido por Apolo, irmão de Artemisa.
A sua iniciação ainda não está completa. Só a passagem pela morte conclui a iniciação. É a sua vida oferecida a Oríon. Assim, Artemisa vinga-se da brutalidade dele fazendo-o matar por um escorpião. Pode considerar-se que Oríon, ao encontrar Artemisa, encontra a sua própria alma, pretendendo com isso ter acesso ao Conhecimento.
Mas, ainda sobre o Escorpião, diz a mitologia que:
Entre os doze trabalhos que Héracles (Hércules) deveria executar, um deles, o oitavo, era destruir um terrível monstro que vivia numa caverna dentro de um pântano (a Hidra de Lerna) que era a guardiã dos Infernos.
Perto dela, fruto do seu hálito, perecia instantaneamente a fauna e a flora.
Mas isso não demover Héracles que, destemido, desfechou flechas de fogo para que o monstro saísse da sua caverna.
Contudo, ao que reza também o mito, o terrível animal parecia indestrutível, pois a cada cabeça arrancada duas novas nasciam e dotadas de um ímpeto mortal.
Foi então que um caranguejo gigante se aproximou de Héracles e lhe mordeu os calcanhares, embora o herói o tivesse conseguido matar.
Com o auxílio de Iolau, armado com ramos flamejantes da floresta que ardia nas proximidades, Héracles cortava as cabeças da Hidra e Iolau queimava-lhes o pescoço impedindo assim que novas cabeças nascessem.
Depois, desencravou o grande monstro da obscuridade da caverna onde vivia, elevando-a em direcção aos céus, até que a mesma começou a murchar lentamente com o bater dos raios solares.
Os seus restos foram guardados por Héracles que os enterrou sob uma rocha.
Talvez por causa da bravura de Héracles, a guarda pretoriana passou usar como símbolo o escorpião.
Também Scorpio “ponto-cinquenta” era uma arma romana, com similitudes com uma besta medieval ampliada. O Scorpio (escorpião) disparava flechas de ponta de ferro de 70 cm ou balas de chumbo. Era usada de certa forma como as metralhadoras actuais, para fogo de apoio e supressão.
O seu alcance chegava a 370 metros e podia ser operada por um ou dois homens.
Algumas eram dotadas de um carregador de flechas, sendo capazes de tiro rápido. Era uma arma de trajectória tensa, rápida, precisa e mortal.
Ave/pássaro


Detalhe de um pássaro em fresco do Triclinium da «Villa de Pompea». Oplontis.

Pormenor do Mosaico de Orfeu. Pormenor do Mosaico de Orfeu, Badajoz.

Século IV 

Proveniência: Villa romana de Pesquero (Pueblonuevo del Guadiana, Badajoz).

Era o motivo central do mosaico de una enorme sala. 


Ver: Estrabão, III, 4, 15
As aves e pássaros são considerados mensageiros dos deuses ou símbolo de verdades ocultas só ao alcance dos inciados, motivo pelo que o deus dos viajantes, Mercúrio, na mitologia romana,(associado ao deus Grego Hermes) tem um capacete e pés alados. Esta divindade era mensageiro de Júpiter e deus da venda, lucro e comércio, pelo que é notória a associação do seu nome à palavra Mercadoria (“merx”), mas também dos ladrões. É também a personificação da eloquência e da inteligência. O planeta Mercúrio deve-lhe o nome muito possivelmente porque se move como a divindade rapidamente no céu.A observação do seu voo permite interpretar as vontades dos deuses, estando essa interpretação a cargo dos Áugures, bem como das suas vísceras. Por sua vez as aves e pássaros são considerados mensageiros dos deuses ou símbolo de verdades ocultas só ao alcance dos inciados, motivo pelo que o deus dos viajantes, Mercúrio, na mitologia romana,(associado ao deus Grego Hermes)tem um capacete e pés alados. Esta divindade era mensageiro de Júpiter e deus da venda, lucro e comércio, pelo que é notória a associação do seu nome à palavra Mercadoria (“merx”), mas também dos ladrões. É também a personificação da eloquência e da inteligência. O planeta Mercúrio deve-lhe o nome muito possivelmente porque se move como a divindade rapidamente no céu. 

Ver: Filomena Barata,1995, «El tesoro romano de Lameira Larga : mito y belleza en plata sobredorada», Madrid : Zugarto Ediciones 

 Perdiz

Nos processos de adivinhação oníricos, sonhar com perdizes pode simbolizar a mulher carente de princípios religiosos ou de piedade (MONTERO HERRERO, Santiago, 1994, 203).


«A gárrula perdiz num azinheiro
Pousada viu a Dédalo, que dava
Ao filho sepultura, e comprazeu- se,
Batendo as asas, e soltando Canto.
Era única perdiz naquele tempo,
Nas passadas idades ave ignota,
Mudada pouco havia em tal figura;
Tu, Dédalo, tiveste a culpa toda.
Dele a Irmã entregou-lhe um tenro filho,
Que doze anos contava, desejando,
Que o Tio lhe ensinasse as subtis artes,
Pois mostrava par’elas vivo engenho.
Ele foi quem por ver de peixe o dorso
Espinoso, imitou em ferro a espinha,
Subtis dentes abrindo-lhe, e da cerra
Assim foi o Inventor.
Deu igualmente
Às Artes os dois ferros, qu’um nó prende,
A fim de que distando iguais espaços,
Estando um deles fixo, e o outro em giro
Um círculo se forme. Inveja teve
Dédalo dos Inventos, e arrojou-o
Do Templo de Minerva, publicando
Ter sido acaso queda: mas a Deusa
Dos engenhos Patrona recebeu-o
Benéfica nos ares, e cobriu-o
De leves penas transformado em ave,
Que de Perdiz o nome inda conserva,
E não menos nos pés, e asas veloces
Do engenho a natural vivacidade.
Ave não é, que corte os altos ares,
Nem que construa em ramos o seu ninho:
Voa sempre rasteira, e choca em mato,
De alturas temerosa, inda lembrada
Do seu fatal, antigo precipício».



Ovídio, Metamorfoses, Liv. VIII, vv: 359 a 390





Mosaico com representação de perdiz. Museu Arqueológico Nacional de Madrid.



Ouriço

É muito comum ver ao crepúsculo ouriços passeando-se pelas calçadas de Miróbriga.
Muito apreciados como iguaria, os ouriços-do-mar faziam parte das entradas de grandes banquetes romanos, a par de mariscos e ovos; mamas de porco recheadas com ouriços-do-mar salgados; pasta de miolos com leite e ovos ou cogumelos cozidos com molho de peixe gordo apimentado, rãs ou ostras. Ver «No Banquete» de Plutarco.
 Ostras

Tal como outras iguarias, as ostras eram no Império Romano era um pitéu culinário, sendo o seu uso corrente, pelo que é comum encontrá-las comummente em contextos arqueológicos. Ao que é dado saber foi Cláudio ou Célio Apício, que parece ter vivido no reinado de Trajano (início do século II d.C.), que terá inventado a forma de conservar as ostras. Os romanos descrevem as ostras como afrodisíacas no século II d.C., sendo referidas no “Satyricon” de Petrónio. São citadas em todos os banquetes e referidas por Apício, podendo ser consumidas dúzias por cada conviva, com um molho à base de peixe, sal, endro e menta. Na Grécia Antiga as conchas destes crustáceos eram usadas ainda como “boletins de voto”: donde provém a expressão “votado ao ostracismo”, quando se votava a favor da expulsão de alguém com a consequente expropriação de todos os bens de quem fosse ostracizado.
Corvos

Consagrado a Apolo entre os Gregos, segundo Estrabão eram os corvos que determinavam o lugar do ônfalo de Delfos. Eram também os atributos de Mitra, a divindade da Luz, e acreditava-se que eram dotados de poder conjurar a má sorte. Segundo as lendas de origem persa, Mitra terá recebido uma ordem do deus-Sol, seu pai, através de um seu mensageiro, na figura de um corvo. Deveria matar um touro branco no interior de uma caverna.O próprio ritual de iniciação nos mistérios de Mitra era o Taurobólio, que exigia o sacrifício do touro. 
Ver: Barata, Filomena, «O Promontorium Sacrum entre os escritores da Antiguidade», in Noventa Séculos entre a Serra e o Mar.
Embora muitas culturas lhe atribuam atributos maléficos e de mau agouro, é um facto que o corvo é um símbolo solar e representa a perspicácia, sendo referido no Génesis (8, 7) como a ave que após o Dilúvio vai verificar se a terra reaparece: «Decorridos quarenta dias, Noé abriu a janela que havia feito na arca e soltou um corvo, que saiu repetidas vezes, enquanto iam secando as águas sobre a terra».Na Grécia Antiga aparece associado a Apolo, sendo mensageiro dos deuses e são-lhe atribuídos poderes divinatórios.Como se poderá ver no artigo mencionado no link abaixo, também é atributo do deus Mitra, adoptado pelos Romanos, e de Esculápio.
Nas suas Metamorfoses, o poeta Ovívio deixa um relato sobre o deus Esculápio.
Segundo a lenda, havia uma donzela, a mais bela em toda Tessália, chamada Corónis, por quem Apolo estava apaixonado, tendo-se tornado amantes. O corvo do deus descobriu, contudo, que ela havia dormido com o jovem Ischys, filho de Elatus, e voou até Apolo para lhe relatar o facto. Enfurecido, Apolo tirou uma seta da aljava e disparou contra a sua amada. Com seta ensanguentada arrancada, Corónis gritou: “Oh Febo Apolo, decerto eu mereci esta punição, mas por que não esperaste até que eu desse à luz ao nosso filho? Agora ambos morremos!”. E com estas palavras morreu. Apolo sentiu um profundo arrependimento e raiva de si mesmo, e o corvo portador da notícia foi amaldiçoado e as suas penas que eram brancas foram transformadas em negras. 

«OS DEUSES do mar anuíram; a filha de Saturno viajou de novo
pelo límpido céu no manejável carro de coloridos pavões,
pavões coloridos há pouco pela morte de Argo, tal como tu,
ó corvo tagarela, que, embora tivesses sido outrora branco,
de repente, há pouco, te tornaste um pássaro de asas negras»

Ovídio, Metamorfoses, Livro I, Livros Cotovia, 2007.

Apolo condoído desceu do Olimpo e tomou o corpo da falecida amada nos braços, mas seus poderes divinos não foram suficientes para o devolver ao mundo dos vivos. No momento em que ia ser cremada Apolo, possuído pela dor, e após ter feito libações sobre o seu peito e deu início aos ritos fúnebres, mas retirou o filho ainda vivo do corpo de Corônis antes que fosse engolido pelas chamas. Mas antes que as chamas consumissem o corpo de Corônis, retirou o filho ainda vivo do ventre materno e levou-o para Quíron, o centauro sábio que havia educado vários heróis, para que o criasse. A filha de Quíron, Ocirroé, que tinha poderes de prever o futuro, ao ver chegar a criança à caverna de seu pai, disse: “Menino, tu que trazes a saúde para todo o mundo, que possas crescer e florescer! Os mortais muitas vezes deverão suas vidas a ti, e te será concedido o poder de trazer de novo à vida os que morreram. Mas um dia deixarás os deuses zangados por tamanha ousadia, e o raio de teu avô impedirá que o repitas, e de um deus imortal serás reduzido a um cadáver inerte. Mas depois, deste cadáver mais uma vez serás tornado um deus, e por uma segunda vez, renovarás o teu destino».Sobre os corvos e a sua associação ao deus Lug, à Luz e a S. Vicente.
 Cão 


O Cão aparece associado a Hades, deus do mundo subterrâneo da mitologia grega, o Plutão romano e era filho de Cronos e Réia, irmão de Zeus, Héstia, Deméter, Hera e Poséidon. 

Hades e Cérberus. Foto: Aviad Bublil [CC-BY-SA 3.0] / via Wikimedia Commons
Hades dominava o reino dos mortos,tendo obtido esse domínio através de uma luta contra os Titãs. Com ela luta Poseidon alcançou o domínio dos mares, Zeus ficou com o céu e a Terra e Hades com o domínio das profundezas. Para além das sombras e almas encontradas nos seus domínios, era também cuidadosamente vigiado pelo Cérbero que era seu cão de três cabeças e cauda de Dragão.
Mas o cão simboliza, como é sabido, a lealdade e fidelidade, pois é guardião e protector.

Proveniente de Córdova (Paseo de la Vitoria)  existe um mosaico com uma cena de uenatio.
Mosaico com cena de caça com a representação de uma lebre. Oderzo. Museu Civico.

Ver;Hades e Cérberus. Foto: Aviad Bublil [CC-BY-SA 3.0] / via Wikimedia Commons

e Cena de uenatio com caçador a cavalo acompanhado pelos seus cães, publicado por Teresa Caetano.
«Mosaico descoberto e escavado, em 1993, por J. F. Murillo e J. R. Carrillo no Paseo de la Vitoria e integrava possivelmente uma uilla suburbana, não muito distante da antiga muralha cordubense. (…) O pavimento, com as figuras bastante estilizadas e ostentando uma composição linear, representa uma cena de caça. O uenator – bastante destruído, aliás – monta um cavalo, tirado de perfil e com as patas dianteiras levantadas em desenfreado galope, perseguindo uma lebre. Correm junto, dois cães, aparentemente galgos, um segue num plano superior ao do próprio cavaleiro e, o outro, em posição oblíqua relativamente à orientação da acção, segue à frente do cavalo. Este quase que abocanha o láparo, e ostenta, sob as patas traseiras, o letreiro: 
LATERAS 
E, na vertical sobre um monturo rochoso, que equilibra a composição, patenteia-se outra inscrição: 
NIMBVS
Entre o segundo canídeo e o cavalo pode-se ainda ler:
THALAS
SIVS QVI VENATOR»
O cavalgador, acompanhado pelos seus cães Lateras e Nimbus, chama-se Thalassius, um nome surge em alguns outros documentos associado ao filho de um senador, e auto-intitula-se ele próprio caçador, num acto de promoção relativamente vulgar, não só na musivária romana, mas também, por exemplo, na epigrafia» (2).
Mosaico da Piazza Armerina (Sicilia). Caça ao lobo.




Caracóis



Mosaico com representação de caracóis. Detalhe de mosaico paleocristão, século IV d.C., 
Basílica Patriarcal de Aquileia, Itália.

Os romanos comiam caracóis vulgarmente: eram criados em viveiros e, de acordo com as plantas que lhes davam para comer, tinham cores diferentes.
Numa carta de Plinius a Septicius, o primeiro queixa-se que o amigo prometera vir jantar e lhe preparara um banquete de honra. Para cada convidado tinha previsto uma alface, três caracóis, dois ovos, etc…..
Os caracóis pois eram consumidos, existindo receitas para os mesmos, a exemplo da de Apicius, (25 a.C. – 37 d.C.), o suposto autor do tratado de culinária DE RE COQVINARIA
“Apanhe os caracóis, limpe-os com uma esponja e retire-lhes a membrana para poderem sair. Deite-os num recipiente com leite e sal durante um dia, apenas leite nos dias seguintes, e limpe de hora a hora a sujidade. Quando estiverem gordos de modo a não entrarem na concha (…) frite-os em azeite. Junte garum de vinho. Podem ser igualmente engordados com papas.”
In «Livro de Cozinha de Apício – Um breviário do gosto imperial romano» de Inês de Ornellas e Castro.


Mosaico de um Triclinium da villa da época de Adriano no Aventino. Costuma denominar-se este tema como “chão sem varrer”. Atente-se, para além dos alimentos que espelham uma casa farta, o pormenor do ratinho e dos caracóis.
 Rato

Nas Geórgicas de Virgílio (Liv. I) assim são referidos:

«Logo de início temos de ir à eira e de com grande rolo a nivelar, depois de revolvido o solo à mão e de também com greda endurecido para que o não domine erva nenhuma nem possa o pó vencê-lo e destruí-lo, ou possa um rato que não vale nada fazer debaixo a toca, com dispensa, ou a cega toupeira se abrigo, ou em buracos apareça sapo e tudo o que de estranho a terra cria como o gorgulho com o seu tesouro ou formiga com medo da velhice».

A ROMAN BRONZE OIL LAMP CIRCA 1ST-2ND CENTURY A.D. With voluted nozzle, incised grape bunch between volutes, a crouching mouse on top of lamp, with erect ears, the fur incised, the tail curled to form ring handle 4½ in. (11.4 cm.) long Provenance: Professor and Mrs Sid Port collection, Los Angeles, 1980s». (Ratna) Fotografia a partir de: https://www.facebook.com/Divine.Rome


Mosaico com representação de noz e rato. Villa Adriano. Museu do Vaticano  


 Aranhas


A aranha simboliza o destino e o fio que tecem suas teias, o meio, ou suporte para seguir em frente.
É um Símbolo solar, e como animal predador, muitas vezes aparece associado ao perigo. Mas ela é a tecelã e, por isso, representa a criatividade e a capacidade de criar os nossos próprios sonhos e realidade.
Na mitologia greco-romana, a teia da aranha simboliza no mito de  Aracne, a derrota de uma mortal que pretendeu rivalizar com os deuses, no caso em apreço com Atena: uma ambição  que foi punida.
«Segundo o poeta romano Ovídeo nas suas “Metamorfoses”, Arachne tecedeira que morava na Lydia (localidade famosa por produzir alguns dos tecidos mais belos do mundo antigo) envaidecida com a sua perícia na arte de tecer, arrogantemente reivindicava que a sua capacidade rivalizava com a da deusa Atena. Esta na qualidade de protectora dos tecelões, tomando conhecimento da existência de Arachne, viaja até á Lydia a fim de se confrontar com ela. Disfarçada de um camponês idoso, Atena, advertiu a jovem para que não se comparasse aos dos deuses. A tecedeira rejeita os conselhos e vaidosa desafia a própria deusa para uma disputa. Atena teceu uma tapeçaria com imagens que prediziam o destino dos mortais que desafiavam os deuses e Arachne uma tapeçaria onde mostrava os amores dos deuses. A jovem tecelã foi tão perfeita durante a disputa que a deusa não encontrando uma falha sequer, irada feriu Arachne e rasgou-lhe a tapeçaria. A jovem ficou tão triste que tentou o suicídio enforcando-se, mas a deusa apiedando-se, salvou-a transformando a corda que Arachne usava numa suave teia, mas pelo seu pecado foi transformada numa aranha, e assim a beleza de sua arte nunca deixaria de ser realizada».
Fotografia e citação a partir de:  http://httpaprendemos-mikasmiblogspotcom.dihitt.com/n/arte-cultura/2009/08/02/assim-surgiu-a-aranha-mitologia-grega
Plínio, o Velho (século I d.C.), na sua História Natural, livro 11, 28-29, diz: “as aranhas são hábeis em tecelagem; suas teias são feitas de fio produzido em seus ventres».
(1) e (2) CAETANO, Maria Teresa Valente da Silva
Tese de Doutoramento em História da Arte da Antiguidade



Tartaruga

Foto de A Lusitânia.

Mosaico de Orfeu, Badajoz.

Século IV 

Proveniência: Villa romana de Pesquero (Pueblonuevo del Guadiana, Badajoz).

Era o motivo central do mosaico de una enorme sala. 


Ver: 

Aviarium, consumo y caza de aves en Roma

https://villaromanacarranque.blogspot.pt/2015/04/aviarium-consumo-y-caza-de-aves-en-roma.html?showComment=1487939576078#c10256447661910722

Sobre as aves, recomenda-se a leitura de:
Montero Herrero S. Augusto y las aves. Las aves en la Roma del principado: prodigio, exhibición y consumo. Instrumenta 22..
 https://www.academia.edu/31672590/Montero_Herrero_S._Augusto_y_las_aves._Las_aves_en_la_Roma_del_principado_prodigio_exhibici%C3%B3n_y_consumo._Instrumenta_22.

Desenhos: Marcos Oliveira

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