terça-feira, 28 de julho de 2015

DE EVA ÀS DIVINDADES FEMININAS EM ROMA (em construção)


DE EVA ÀS DIVINDADES FEMININAS EM ROMA




«Os Romanos continuaram um uso que existia antes deles. Perto do Mar a Lua brilha como um fogo. Fogo sobre a água mas também fogo sobre trovão. Dali vê-se tudo o que acontece no mar ali. A mesma deusa Lua e Água Astarté e Artemisa. Num só lugar adorava-se a ambas excesso de positividade. Falo entenda-se do culto da Lua especializado a Sintra».


(Leite de Vasconcelos)


Álvaro Lapa, «Impressões da Lusitânia»


À minha filha Mariana Lampreia.

Á Cristina Duarte


A todas as Evas que eu conheço, mas que se libertaram da estrita visão bíblica.


Evas só conheço duas: a do “Paraíso Perdido” e do “Pecado Original” e uma Eva Cantarella que se dedica ao estudo da Mulher Romana.






Pormenor de mosaico representando a Deusa Vitória. Século IV. Villa Romana de Pesquero, Pueblonuevo de Guadiana. Museo Arqueológico de Badajoz
Fotografia de Vicente Novilho, a partir de:
 http://museoarqueologicobadajoz.juntaex.es/web/view/portal/index/standardPage.php?id=114

Talvez por esta última ser também Eva, e talvez por eu tanto gostar da Civilização romana, resolvi não me centrar na Eva do Éden e do Génesis, remetendo aqui para o texto de José Augusto M. Ramos, «A Mulher na Bíblia», publicado no link que abaixo referenciamos.

Segundo esse autor, se é verdade que num primeiro quadro bíblico a situação do Homem e e da Mulher apareça de forma quase equidistante «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher» . A imagem de unidade que aqui se exibe faz-nos pensar na fórmula solidária e igualitária de uma personalidade corporativa», já no segundo quadro bíblico, «que ocupa praticamente todo o terceiro capítulo do Génesis descreve as fragilidades e degradações que vieram a caracterizar a condição da mulher. O próprio desejo que sentirá pelo homem acaba por revelar um certo aspecto castigador. A dialéctica entre esta situação de desejada e simultaneamente de secundarizada e submissa é, por sua vez, expressa por uma nova nomeação da mulher como hawwah, Eva, isto é «progenitora de viventes», laboriosa e espinhosa tarefa ou profissão. Este estatuto de secundariedade e submissão ocorre, apesar da unidade afirmada e apesar de alguma primazia da mulher proclamada quanto à sociologia do casamento. Por esse motivo, o homem «deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher (…) Mas a questão da fragilidade fragilizadora do feminino (Eva e a tentação) é um tema que se encontra prolongado na mentalidade hebraica e repetido até à saciedade na sua literatura moralista. É daqui que nos vem algumas das ideias mais negativas da literatura bíblica sobre a mulher».


Assim, prender-me-ei um pouco mais na mitologia do que genericamente se designa como “Antiguidade Clássica”; no seu universo feminino e representação, seguindo sempre que possa os escritos que dessa época existem.



Na Grécia Antiga, racionalizada, duas mulheres, Circe e Medeia, têm poderes mágicos ou sobrenaturais que espelham, de algum modo, a memória de um mundo ancestral e arcaico, onde o Homem era ainda dominado por medos do desconhecido.
Circe é essa maga que viveu na Ilha de Aeaea, que foi visitada pelos Argonautas e por Ulisses, o herói da Guerra de Tróia. Era uma feiticeira poderosa, que, «com a ajuda de ervas, murmurando encantamentos, ou a rezar para os seus deuses, poderia transformar os homens em animais ou criar imagens insubstanciais de animais».
«Ela foi capaz de escurecer o céu, escondendo a lua ou o sol atrás das nuvens, e destruir seus inimigos com sucos venenosos, chamando em seu auxílio Nyx (Noite), Chaos ou Hecate, deusa das encruzilhadas. Na sua presença e por causa de seus encantos da floresta poderia se mover o estrondo do solo e as árvores ao seu redor se tornam brancos».http://thanasis.com/circe.htm.
A bela Maga Circe, loira porque é filha o deus o Sol - Hélios - e da ninfa Pérsia, ficou assim conhecida pela participação na épica Homero, A Odiseia, e pelo papel que desempenha nas lendas dos Argonautas.
Tinha inúmeros poderes. Foi castigada por eles, e por ter envenendo o seu marido. Emanava uma luz ténue e fúnebre e a ilha onde viveu, "Aeaea", tem o significado de "prantear"
Esta luz, identificava Circe, como a "Deusa da Morte".
Associada aos vôos mortais dos falcões, pois assim como estes, Circe circundava suas vítimas para as enfeitiçar.
A "Circe das Madeixas Trançadas", como a descreveram alguns autores gregos, podia manipular as forças da criação e destruição através de nós nas tranças dos seus cabelos.
Era também a tecelã dos destinos.
A Maga Circe era considerada a Deusa da Lua Nova, da feitiçaria, dos encantamentos, dos sonhos premonitórios, maldições, vinganças, magia negra, bruxaria, caldeirões.

Ovídio, nas suas «Metamorfoses», Livro XIV, assim a descreve:
«Ó deusa, de um deus compadece-te, suplico! Só tu podes
dar-me alívio nesta minha paixão, caso eu pareça digno dele.
Ninguém sabe melhor que eu, ó filha do Titã, quão grande
é o poder das plantas, eu que, por meio delas, mudei de forma.
(...)
Mas, se algum poder há nas fórmulas mágicas, uma fórmula
recita nos teus lábios sacros; se forem mais potentes as ervas,
lança mão do poder comprovado de uma planta eficaz».


Por sua vez Medeia, filha do rei Eates, da Cólquida, tão depressa é referida como sendo sobrinha de Circe, ou sua filha e de Hermes, ou mesmo sua irmã e filha de Hécate, foi, por algum tempo, casada com Jasão , inscrevendo-se também no Ciclo dos Argonautas, que nos foi transmitido na obra Argonautica de Apolónio de Rodes (século III a.C.).

Através da utilização de um unguento que Jasão deveria usar no seu corpo e escudo, ele torna-se invulnerável ao fogo e ao ferro, conseguindo assim lavrar o campo e enfrentar os touros que deitavam fogo pelas narinas e agricultar as terras onde semearia os dentes de um dragão.

Ao que nos contam algumas narrativas deste mito, Hera, protectora de Jasão, havia interferido junto de Afrodite para que convencesse Eros a fazer com que Medeia se apaixonasse por Jasão e a colocar-se a seu lado, casando-se ele com ela como reconhecimento desse afecto.




Medéia, de Paul Cézanne, imagem obtida a partir de Wikipédia



Medeia acautela-o de que dos dentes de dragão nasceria uma seara de soldados que o tentariam matar, encontrando uma solução que ajudasse a dispersar esses mesmos soldados: lançar uma pedra, de longe, para o meio do exército. Como Jasão conseguiu executar com êxito as tarefas, regressou para reclamar o velo de ouro a Eetes.



Não posso deixar de citar a «Medeia» de Eurípedes, nas palavras da Aia:
«A infortunada, a ultrajada Medeia declara em altos brados os juramentos, apela para a união das mãos, o mais forte dos penhores; toma os deuses como testemunhas do reconhecimento que recebe de Jasão. Deprimida, sem se alimentar, abandona o corpo às suas dores; consome dias inteiros em pranto desde que conheceu a perfídia do marido; já não alça a vista nem desprende do chão o olhar; parece uma rocha ou uma onda do mar, quando ouve a consolação dos amigos. Todavia, às vezes desvia a cara deslumbrante de alvura e, sozinha, chora o pai amado, a pátria, o palácio que renegou e deixou para seguir o homem que a mantém hoje desprezada.
Sabe, essa infeliz, para seu próprio infortúnio, o que se ganha em renunciar ao solo natal.

(…)

Receio que intente qualquer vingança inesperada. É uma alma violenta, não suporta as afrontas».
Hécate, a mãe de Circe, é a deusa da magia e dos caminhos, das encruzilhadas e da noite, dos espectros e dos fantasmas, da juventude, da lua, do Céu, da Terra, do Mar e do Mundo Inferior, também protege as crianças e é curandeira de jovens e mulheres. É uma das grandes deusas (junto a Deméter e Perséfone) que preside os Mistérios de Elêusis.
É uma Divindade tríplice, ou seja, possui três aspectos: anciã; deusa mãe e ao mesmo tempo virgem. 
A sua tríplice divindade manifesta-se através do domínio do céu, do mar e da terra (e também do infra-mundo).

Assim no-la descreve Ovídio nas Metamorfoses, Livro VI, 140, Livros Cotovia, 2007:

Foto de Filomena Barata.

As narrativas mitológicas as Mulheres (como nos homens aliás) são, portanto, na Antiguidade Clássica, veículos de interpretação de um universo que se pretende descritível, “explicável” e, deste modo, enquadrados numa “religião racional”.


Entre os Titãs, ou “deuses primitivos” encontra-se Mnemosine, que significa “Memória”. Mnemosine era filha de Geia (que personifica a terra em formação, gerada do nada, mãe e esposa de Úrano, com o qual constitui o primeiro casal divino) e mãe das nove Musas.





Mosaico das Musas, Villa romana de Torre de Palma


E no seio dos “deuses supremos” do Olimpo temos a possessiva e ardilosa Hera, esposa de Zeus, a poderosa Atena, a caprichosa Afrodite, a protectora das margens, da natureza selvagem de das mulheres, Artemisa, e a discreta Héstia. Estas personagens femininas desempenham um papel fundamental na trama que se constrói entre as entidades divinas, bem como entre estas e os Humanos. E que não são apenas a imagem da Mulher tentadora como a Eva bíblica que, embora bem mais rica do ponto de vista simbólico, a tradição judaico-cristã reduziu a uma figura manchada pelo pecado.



Hera-Juno estante, em posição frontal, com a cabeça voltada à direita ostentando diadema e vestindo longa túnica. Na sua mão direita, recuada e erguida à altura da nuca, segura, pelo topo, um ceptro (ligeiramente oblíquo) e na esquerda, estendida, talvez uma pátera. Cornalina. Séc. II-III d.C. Colecção particular.
Agradecemos a Graça Cravinho a fotografia e descrição


No entanto, podemos relembrar tantas outras que desempenharam um papel cruxial na mitologia e na própria literatura, A tradição clássica consagrou para a posteridade uma extensa galeria de figuras femininas. “Notáveis pela auréola mítica (…),essas mulheres tiveram seus nomes transformados em símbolos, em estereótipos dos quais a arte, nas suas diversas formas de expressão, em todos os tempos posteriores, apropriou-se, tornando-os património comum da humanidade”, referindo, a título de exemplo, Afrodite, Andrômaca, esposa de Heitor, Andrômeda, Antígona, Ariadne, Ártemis, Atenas, Aurora; as Bacantes; as Camenas, Calíope, Calipso, Cibele, Cíntia, Circe, Clio, Dafne, Deméter, Dido, a épica e trágica personagem que Virgílio imortalizou na Eneida , a amante apaixonada de Eneias que vítima da urdidura de Vénus e Juno, divindades cujo ciúme e vaidade tecem o enredo da sua paixão, Diana; Electra, Eurídice, Europa; Fedra, as Fúrias, Górgona; Harmonia, as Harpias, Helena, Hera; Ifigênia, Io; Jocasta, Juno; Leda, Medeia, Medusa, Melpômene, as Mênades, Minerva, Moira, as Musas; as Nereidas, as Ninfas que habitavam os campos e bosques, levando alegria e felicidade.; as Parcas, Partênope, Pasífae, Penélope, Perséfone, Pirra, Políxena, Prosérpina; Quimera, essa mistura de leão e cabra que soltava fogo pelas ventas.

Citação a partir de REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA POESIA LATINA, Aécio Flávio de Carvalho*http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br).







Representação de Ceres de Emerita Augusta. Museu Nacional de Arte Romano, Mérida. Século I d.C.

 A partir de Wikipédia.jpg





Figura de terracota que representa Minerva. MNAR (Mérida).
Fotografia de José Manuel Jérez Linde



Sobre o peito tem a representada a égide de pele de cabra, presa por duas correias, onde está representada a Medusa, a que nos referiremos de seguida, pois a sua cabeça foi oferecida a esta divindade. A divindade, nascida da cabeça de Zeus, faz-se representar com o capacete coríntio. Pela posição dos braços, seguraria a lança na mão erguida e uma pátera na mão estendida, para fazer uma libação sobre uma ara acesa 
Sobre o peito enverga a égide de pele de cabra, recordando a cabra Amaltéia que, segundo a lenda amamentou Zeus, presa por duas correias, e ao centro tem a Cabeça de Medusa, que, segundo a Mitologia, lhe foi oferecida.
Deusa da Sabedoria e da Razão, é também a deusa das artes da guerra, motivo pelo que se faz representar com uma lança, actualmente perdida.


Minerva é filha de Júpiter e de Métis, considerada a reflexão personificada, primeira esposa do pai dos deuses. 
Quando estava grávida, Métis anunciou a Júpiter que teria em primeiro lugar uma filha e, de seguida, um filho que se tornaria senhor do céu. 
O rei dos deuses, estupefacto com tal profecia, engoliu Métis. 
Passado algum tempo, foi acometido de fortíssima dor de cabeça, tendo pedido a Vulcano que lhe rachasse a cabeça com o machado.
Cumprindo a ordem, desferra-lhe o machado de ouro certeiro e todos se surpreendem ao verem sair do seu cérebro, imponente e armada, pronta para a guerra, com capacete e lança, a filha Minerva.
Será ela também a nova encarnação da sabedoria divina.



Estatueta de bronce de Minerva, proveniente do acampamento romano de Cáceres el Viejo. Museo de Cáceres.
Fotografia e legenda: José Manuel Jérez Linde


Perséfone, deusa da terra e da agricultura na mitologia grega,  Perséfone na romana, foi a única filha de Zeus e de Deméter-Ceres. Acabou por ficar associada ao mundo infernal, onde vigiava o segredo das almas e era conhecedora dos segredos das trevas.
A sua beleza foi encantando a todos, tendo seduzido o deus Hades-Plutão, o senhor dos mortos e do submundo, que dela se enamorou. Porém, Deméter-Ceres não queria essa união, mas Hades persistiu, até que, um dia, Perséfone, que estava colhendo narcisos, foi raptada pela divindade que  apareceu da terra na sua carruagem e levou a deusa para o mundo dos mortos.
Do mito de Prosérpina, (do latim proserpere, ‘emerger’), uma antiga divindade de origem grega, Perséfone, que assume simolicamente a vida, a morte e a ressurreição, nos fala Claudiano, nos séculos IV-V, em o «Bordado de Prosérpina». Assim nos diz o autor:





Proserpina. Rossetti. 1874



O Bordado de Prosérpina, Claudiano (Séculos IV e V)


«Com maviosos cantos deleitava

estes sítios a terna Prosérpina:

e para a mãe, que em vão saudosa espera,

um presente tecia, primor d’arte.


Co’a destra agulha desenhava, astura

o trono de seu Pai, celeste assento.

Engenhosa na tela figurava

dos Elementos a constante série;

a Natureza o caos arranjado,

e em seu justo lugar as cousas pondo;

fixando onde compete o que é mais leve;

fazendo gravitar o que mais pesa;

encandilando o éter; e obrigando

sobre um ponto a girar o céu c’os astros;

fica fluido o mar; sólida a terra,

suspendida no espaço ilimitado.

Tinge os raios da luz com várias cores

e acende as estrelas num céu d’ouro.

Sobre um leito azulado as ondas brincam;

as preciosas pérolas que alvejam

crescem nas paias, e por arte os fios

se levantam, fingindo crespas ondas.

Parece que nas rochas s’espedaçam

as marítimas plantas, verdes algas;

que se ouve o som das águas, murmurando,

quando serpeiam pela solta areia.

Ali bordou também as cinco Zonas;

e c’um rio de púrpura assinala

o sítio onde o calor mais permanece».


Roma – Claudiano (c. 370 – 404). A partir de Tradução de Marquesa de Alorna.



                                   



Disco de Aquileia, Museu de Viena.



Disco de prata, com ouro. Representa Perséfone e Deméter sustentando uma tocha acesa. Legenda e fotografia a partir de: https://www.facebook.com/151487124895824/photos/a.151975098180360.27984.151487124895824/871929232851606/?type=1&theater



Lembro ainda que, em Roma, a expressão “religiões de mistérios” se refere, normalmente, ao culto de Ísis, Mater Magna ou particularmente Mitra, de Dioniso Baco, e, igualmente, ao culto de Elêusis, representante dos mistérios propriamente ditos, os mistérios de Elêusis, ritos de iniciação ao culto das deusas agrícolas Deméter e Perséfone/Proserpina e que se realizavam na cidade grega, nas proximidades de Atenas, considerados os de maior importância entre todos os que se celebravam na Antiguidade.

Estes mistérios foram adoptados pelo Império Romano, os ritos eram guardados em segredo, só transmitidos aos novos iniciados.

Deméter e sua filha, Perséfone, (Ceres e Proserpina entre os Romanos) presidiam aos pequenos e aos grandes mistérios.

Os mistérios eleusinos celebravam o regresso de Perséfone, visto que era também o regresso das plantas e da vida à terra, depois do Inverno, e as sementes que a deusa trazia significavam o renascimento de toda a vida vegetal na primavera.


Se o povo reverenciava em Deméter a terra-mãe e a deusa da agricultura, os iniciados viam nela a luz celeste, mãe das almas e a Inteligência Divina, mãe dos deuses cosmogónicos. Os sacerdotes de Elêusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica que lhes veio do Egipto.

Ao que diz a lenda, o ritual dos Mistérios de Elêusis reporta ao facto de a deusa Perséfone, filha de Deméter, ter raptada por Hades (Plutão), rei do Mundo Inferior, quando colhia flores com suas amigas, as Oceânidas.

Deméter, ao tomar conhecimento do rapto, ficou tão amargurada que deixou de cuidar das plantações dos homens aos quais havia ensinado a agricultura, originando a fome. Os homens morriam assim esfomeados, até que Zeus (Júpiter), que havia permitido que o seu irmão Hades, o deus dos mortos e das profundezas, raptasse Perséfone fazendo-a sua esposa e vivendo com ela nas entranhas da Terra, resolveu reparar o mal cometido.

Decidiu, então, que Perséfone deveria voltar à superfície da Terra durante seis meses para visitar a sua mãe e outros seis meses passaria com Hades, originando o ciclo das colheitas e da Natureza. (cit. Filomena Barata, Religiões Mistéricas, http://www.incomunidade.com/v9/art_bl.php?art=21)




Relevo do Século V a.C. Museu Arqueológico de Atenas.

No relevo acima, podemos ver à esquerda Deméter, ao centro Triptólemo, filho de Celeus, rei de Elêusis, e à direita Perséfone que segura, muito possivelmente, com a mão esquerda uma tocha longa, típica dos mistérios de Elêusis celebrados à noite, para comemorar a noite retorno da filha de Deméter.  
Legenda e Fotografia a partir de:

 https://www.facebook.com/pages/ROMA-le-origini-e-let%C3%A0-regia/239538396103046



Não resisto pois a citar: «O mundo mediterrâneo cultuou muitas imagens da Grande Deusa Mãe. Seu nome varia conforme sua nacionalidade, todavia, ela é a mesma Mãe Bondosa: como a egípcia Ísis, a cretense Gaia, a micênica Rea, a eleusina Deméter, a ateniense Hera, a cipriota Afrodite, a frígia Cibele, a efésia Ártemis, a síria Dea, a persa Anaitis, a babilônia Isthar, a fenícia Astarte, a Cananéia Atargatis, a capadócia Mâ e as trácias Bendis e Cottyto; e Mãe Terrível, como as germânicas Nornas, s gregas Moiras, as romanas Parcas, a hebraica Lilith, de quem derivou variadas personificações dos horrores femininos, como Górgonas, Fúrias ou Erínias, Keres, Sereias, Harpias, Lâmia, Êmpusa, Circe, Cila, Caríbdis e Sin, dentre outras. Todas estas faces da Deusa são formas de manifestação de uma pluralidade de figuras malévolas da Grande Mãe difundidas pela humanidade ao longo dos tempos através dos rituais religiosos, dos mitos e da literatura. Tais imagens simbolizam o poder primordial do Grande Feminino em seu papel de gerar, proteger e devorar, funções representativas das formas e dos fenômenos da Natureza: montanhas, labirintos, florestas, abismos, rios, mares, oceanos, fontes, lua, etc., que conectadas a figuras de animais, representam a grande diversidade simbólica do corpo da Deusa».(…) A mais elevada sabedoria feminina é transmitida pelo mito da Deusa tríplice Deméter/Perséfone/Hécate. Deméter, nome grego, Delta, significa Deusa Mãe com tripla face: a jovem, a mãe, a velha. Seus nomes adquirem o significado dos seus papéis arquetípicos de mãe bondosa e terrível: Deméter, a que conhece a imortalidade, capaz de dar a juventude eterna; Hécate, a que vê no escuro; Perséfone, a que conhece o segredo da morte; Tiamat, o oceano gerador; Maat, a pena branca da verdade; Medusa, a que tem um olhar petrificante; Fata Morgana, a que leva os homens ao seu destino; Sofia, a que tem a sabedoria superior; Brigit, a responsável pelo ciclo das estações; Kali, a que destrói os homens para dar forma à criação; Syrian Mari, aquela capaz de examinar a alma; Sibila, a vidente capaz de ver o futuro.
O mito das Deusas se resume na trajetória da mãe que perdeu a filha e a busca sem trégua. Deméter, filha de Cronos e Rea, deusa grega da terra cultivada, especialmente do trigo teve uma filha com seu irmão Zeus, Coré. Ainda adolescente, Coré saiu pelos campos a colher flores. A terra abriu-se para Hades, o deus do Inferno, irmão de Zeus, e, por conseguinte, tio da jovem deusa, que a raptou. Coré gritou, a mãe ouviu e veio socorrê-la, só que chegou muito tarde. Hécate, que tudo via, contou à mãe aflita o que havia ocorrido. A partir de então, Deméter passou a percorrer o mundo à procura da filha, sem comer, beber ou repousar, abstendo-se de fazer germinarem as sementes semeadas na terra até que sua filha aparecesse».Cit. in. «As Faces e o significado arquetípico da deusa na vida e na arte»

Maria Goretti Ribeiro, Universidade Estadual da Paraíba

in: http://www.revistainvestigacoes.com.br/Volumes/Vol.21.1/as-faces-e-o-significado_Maria-Goretti-Ribeiro_art.11ed.21.pdf


E, claro está, não podemos deixar no esquecimento Tellus, a Geia grega, aqui representada com os seus quatro filhos, provavelmente as Estações, acompanhada por Aeon-Cronos com o Zoodíaco, é  era a deusa da Terra, o solo fértil

(Mosaico proveniente de Sentinum, 200-250 d.C , Glyptothek).
Fotografia a partir de:
By User:Bibi Saint-Pol, own work, 2007-02-08, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1804754













Terra, identificada também com a deusa grega Geia assim nos é descrita por Ovídio, no episódio de devastação pelo fogo, provocada por Faetonte, conduzindo o carro desgovernado de seu pai, Febo:

«A Alma terra, por seu turno, rodeada que estava pelo mar,
entre as águas oceânicas e as fontes que, por toda a parte,
encolhidas, buscam refúgio nas escuras entranhas da mãe,
ergueu a custo, árida, até ao pescoço, o rosto sufucado;
e pondo a mão à frente da testa, com um enorme safanão
tudo fez estremecer. Instalando-se um pouco mais baixo
do que é costume, com voz alquebrada, assim falou:
«Se é isto que queres e mereci, que aguardam os teus raios,
ó deus supremo? Se vou perecer pela violência do fogo,
dá-me perecer pelo teu fogo para a desgraça ser mais leve,
sendo tu o autor (...)
Esta é a paga que me dás, esta a recompensa pela fertilidade
e os meus serviços, por eu suportar as feridas do arado
adunco e das enxadas, e por me afatigar o ano inteiro
por prover o gado de folhagens e a raça humana de cereais
(...)
Pois se consideração nem por teu irmão nem por mim te toca,
ao menos condói-te do teu próprio céu!
(...)
Se os mares, se as terras, se o palácio celeste perecerem,
voltamos à amálgama do Caos primordial. Salva das chamas
o que ainda restar, se ainda restar algo, e olha pelo universo».
Assim falara a Terra (já não conseguia mais aguentar
o calor, nem dizer nada mais). E enfiou de volta a cabeça
em si mesma e nos antros mais próximos dos defuntos.
Então, o pai omnipotente chama os deuses para testemunhar. (...)
Depois, sobe à cidadela lá no alto (...)
Troveja, e, balançando um raio junto à orelha direita,
dispara-o contra o cocheiro, cuspindo-o, a um tempo, da vida
e do carro. E assim, com o seu cruel fogo, extinguiu o fogo».

Ovídio, Metamorfoses, Livro II.Não esqueçamos ainda as divindades da Natureza e à Floresta, a exemplo de Flora. Mas também que, em Roma existia o festival Opalia ou Opiconsiva, no dia 25 de Agosto, em honra da deusa Ops, uma divindade ligada aos recursos agrícolas, à riqueza e à abundância. Marcava o fim do período das colheitas.


Esposa de Fauno, deus dos bosques e planícies que protege os rebanhos e culturas, cujos oráculos se conhecem através dos murmúrios das árvores, Fauna é  protectora das mulheres contra a esterilidade, é considerada pelos Romanos como a mãe do deus Latino, um dos reis lendários do Lácio, divinizado como Jupiter Latiaris. Nos lugares onde se faziam os oráculos de Fauno, os ritos observados foram minuciosamente descritos por Virgílio: um sacerdote oferecia uma ovelha e outros sacrifícios e a pessoa que consultava o oráculo tinha que dormir uma noite sobre a pele da vítima, dando então o deus uma resposta através de um sonho ou mediante vozes sobrenaturais. Ovídio descreve ritos parecidos celebrados sobre o Aventino.




Na imagem: Flora. Divindade itálica.
Flora ou a Primavera.
Fresco, I sec.d.C.
Castellammare di Stabia (Stabiae)
Museo Archeologico Nazionale, Napoles



Ou as que se relacionam com o Mundo Cósmico, a exemplo de Silene, 
Phoebe ou Silene, a deusa da Lua.






                                            Silene num disco de lucerna do MNAR (Mérida).
                                                   Fotografia José Manuel Jérez Linde

De Vénus, conta-nos Seutónio, que o Divino César, anunciando a sua própria divinização, em discurso fúnebre de Júlia, sua tia, efectuado na tribuna do forum, elogiou a própria ascendência e do seu  pai da seguinte forma: «Por sua linha materna, a minha tia descende de reis; pela linha do seu pai remonta aos deuses imortais. Pois de Aneo Marcio, que que procedem os reis Marcios, é a linhagem de sua mãe; é de Vénus que descendem os Julios, que constituem a nossa família». (Suetónio, Vida de los Doce Césares, “El Divino César”, Colección “Libros de Bolsillo Z”, 1985, Barcelona.



Estatueta de Vénus que usa a fascia pectoralis. MNAR de Mérida.

Foografia: José Manuel Jérez Linde






Defende-se que Vénus, essa deusa do amor e da beleza, que na mitologia romana substitui a Grega Afrodite tem como seu símbolo ♀ (um círculo com uma pequena cruz equilateral) que parece ser a representação gráfica ou símbolo abstracto do espelho de Vénus. Este símbolo que representa a feminilidade, foi adoptado para definir o género feminino. 



Escultura feminina representando uma musa, possivelmente da dança, Século III.
 Museo Nacional de Arte Romano. Mérida. Fotografia de José Manuel Ribeiro

Não nos prenderemos às Musas, cujas histórias não caberiam neste artigo, mas lembro apenas Mnemosine, deusa de memória, filha de Géia e Urano. Da união de Mnemosine com Zeus foram geradas as nove filhas, as Musas.

Conta a lenda que Hesíodo pastoreava os seus rebanhos no Hélicon quando as Musas se lhe dirigiram afirmando que sabiam mentir e revelar a verdade. Deram-lhe um ramo de loureiro e iniciaram-no, deste modo, como poeta. E foi deste modo que ele contou as origens ancestrais dos deuses.

As Musas que moravam afastadas das outras divindades, viviam com as Graças e com Hímero, o duplo de Ero, e entoavam pelos caminhos do Olimpo um canto imortal e tinham também um local de dança no cume do Hélicon e do altar de Zeus.
Sempre que percorriam os caminhos em direcção ao Olimpo iam envoltas em nuvens, podendo assim ainda melhor soar as suas vozes.

«O mnémon, etmologicamente, significa “aquele que lembra” é a memória da Diké (justiça), ou seja, é o responsável pela preservação da lembrança de uma decisão judicial do passado (Le Goff, 1992, p. 20).

«Entretanto, o papel do mnémon não se restringe ao aspecto judicial, ele poderia ter também uma função religiosa, técnica, política-religiosa ou ainda organizar o calendário»

(…)

Na lenda, o mnémon é apresentado como um servidor de heróis, que tem como função rememorar constantemente uma senha divina ao seu senhor, esta deve ser relembrada ao seu mestre de memória, e o seu esquecimento causava a morte»

(Vernant, 1999). Cit. in: Keila Maria de Faria, Medéia e Mélissa: Representações do Feminino no Imaginário Ateniense do Século V a.C.
http://pos-historia.historia.ufg.br/uploads/113/original_faria_keilaMariade.pdf


Lembremos ainda as Sirenas, «Sirenas Hijas del dios Aqueloo y de una musa, eran mitad ave, mitad mujer. Tenían una maravillosa voz con la que compitieron contra las musas. Estas últimas ganaron y les arrancaron las plumas. Las sirenas avergonzadas, se retiraron a las costas sicilianas. Con su canto atraían a los marineros, quienes, sin poder sustraerse a su canto, se estrellaban contra las rocas (Od. XII 36-54; 181-200). Cit: El Arte de las Musas: La Música Griega, desde la Antiguedad hasta hoy, Amor López Jimeno. VI JORNADAS DE HUMANIDADES CLÁSICAS HOMENAJE A MARIANO FERNÁNDEZ-DAZA Y FERNÁNDEZ DE, CÓRDOVA 10-11, 17-18 de febrero de 2006.


Não podemos esquecer as divindades de origem oriental que o panteão greco-romano acolheu e cujo culto expandiu, a exemplo de Ísis, deusa da mitologia egípcia (Auset). O culto mistérico de Ísis, no qual o escritor Apuleio parece ter sido iniciado, alcançou seu esplendor na época dos Imperadores Antoninos e Severos, passando a integrar a ideologia dominante, conhecendo-se, no século II d.C., entre seus adeptos, magistrados, funcionários imperiais e outros representantes do poder público.




Cópia de Placa votiva dedicada à deusa Ísis com uns pés gravados, proveniente de Baelo Claudia, Tarifa, Cádiz.  Original: Museo de Cádiz. 



Era a deusa da maternidade e da fecundidade e era cultuada como exemplo da mãe e da esposa ideais, protectora da natureza e da magia. Era ainda defensora dos escravos, pescadores, artesãos e dos oprimidos em geral, tanto como lhe eram também devotadas as preces dos opulentos, das donzelas, aristocratas e governantes.

O culto desta divindade egípcia está atestado na Hispânia, no anfiteatro romano de Itálica (Santiponce, Sevilla), em Clunia (Peñalba de Castro), em Baelo Claudia e em Molinete de Cartagena.
Também no Santuário de Panóias se confirma o culto à dupla Serápis e Ísis.

Em Baelo Cladia e Cartagena identificaram-se templos dedicados a Ísis. Em Itálica há também uma placa com os pés de Ísis (no Museu Arqueológico de Sevilha). Em Clunia existe uma estátua da deusa, que actualmente pertence ao Museu de Burgos.


De Mérida pertente um belíssimo exemplar com a representação de Ísis.
A expressão «Cultos Mistéricos» refere-se, normalmente, ao culto de Ísis, Mater Magna ou particularmente Mitra e ainda de Dioniso/Baco, bem como ao culto de Elêusis, representantes dos “mistérios” propriamente ditos.

Pressupõe-se que as religiões mistéricas tinham uma espiritualidade mais elevada, transcendendo assim a religião oficial, sendo consideradas religiões de salvação.

Os rituais dos cultos de mistérios acabou por ser tão bem elaborado quanto os ritos dos cultos oficiais. Na sua maioria os cultos mistéricos incluíam danças, músicas, apresentações cénicas e também sacrifícios em honra das divindades.

Apuleio, o autor latino, foi inciado em vários cultos mistéricos, dando-nos conta dos seus rituais na sua obra «Apologia».






Gema com representação de Ísis segurando "sistrum" (instrumento musical) e "situla".
Fotografia e legenda de Graça Cravinho




Ísis com diadema solar e lunar, Museo Arqueológico Nacional, Madrid




Mater Matuta. Fotografia do Museo Nacional de Arte Romano, Mérida.





Recordemos ainda a divinização de Mater Matuta, com as suas festividades Matralia, essa deusa do amanhecer, dos recém-nascidos, do mar e dos portos, que equivalia à grega Eos. «Tuvo un templo construido por Servio Tulio situado al norte del foro Boario (mercado de ganados) donde se la honraba en su día. Este templo se destruyó en el 506 a.C. y lo reconstruyó Furio Marco Camilo Dicha en el 396 a.C. La celebración era exclusiva para mujeres».

Cit. https://www.facebook.com/pages/Museo-Nacional-de-Arte-Romano/121327647938617


E ainda podmos referir-nos a Artemisa/Diana, também ela filha de Zeus/Júpiter, e do seu importante papel de protectora da Natureza, dos bosques e da vida animal. Ela foi a deusa da çaça, mais também protectora das donzelas, da maternidade e da saúde das mulheres . Era representada geralmente como uma caçadora levando um arco e flechas. O cervo e o cipreste estavam-lhe consagrados.

Em Agosto honrava-se Diana, no dia 



Diana com diadema. Museu Nacional de Arte Romano. Mérida.
Fotografia José Manuel Jérez Linde



Foto de Museu Nacional de Arqueologia.


Ara votiva consagrada a Diana
«Na face posterior o capitel possui ainda o respectivo frontão, decorado com uma rosácea encimada por duas volutas; no topo, ao centro, abre-se uma cavidade quadrangular, possível adaptação 'moderna' do fóculo original. Na face lateral esquerda, em campo rectangular delimitado por sulcos, figura uma aljava em relevo; na face lateral direita, igualmente delimitada, foi representado um arco de caça, também em relevo. Estes símbolos iconográficos remetem para os atributos comummente ligados a DIANA. O campo epigráfico é moldurado e ocupa o fuste; apresenta uma cuidadosa paginação do texto, com alinhamento à esquerda».
D(ianae) S(ilvestri) / (vel D(eo) S(ilvano)
FONTEIVS / PHILOMV/SVS EX VO/TV 
ANIMO / LIBENS / POSVIT // 
"A Diana (ou ao deus Silvano) Fonteius Philomusus colocou de boa vontade, poe voto (este monumento)
Poderá consultar:
http://www.matriznet.dgpc.pt/…/Obje…/ObjectosConsultar.aspx…
Proveniência:São Clemente, Loulé



Recordemos ainda Salus, ou também Bona Dea, divindade relacionada com fertilidade feminina. Associada também à cura, muitos pacientes eram tratados no seu templo com ervas medicinais. Era venerada com grande fervor quer por plebeus, escravos, libertos e mulheres.Invocavam-na para pedir saúde e libertação da escravatura. As mulheres pediam fertilidade.O seu culto era muito antigo e incluía ritos reservados exclusivamente às mulheres.
A divindade era adorada num templo no Monte Aventino, mas os ritos secretos em sua honra praticam-se num local indicado por um magistrado, na sua própria casa, a 4 de Dezembro. Eram dirigidos pela mulher do magistrado, ajudada pelas virgens vestais, sendo proíbida a participação dos homens, nem se permitiam pinturas com figuras masculinas, fossem humanas ou animais.

A habitação deveria ser ornamentada com flores e plantas, excluindo-se a o mirto já que segundo a mitologia Bona Dea havia sido golpeada até à morte por Fauno com um ramo de mirto, por teu ousado beber vinho.

A cerimónia é mal conhecida, mas sabe-se que está relacionada com a Agricultura.

E ainda a Fides, cultuada pelos romanos, que nos faz concluir que os juramentos movidos pela fides não o eram apenas por princípios de ordem ou por um valor, mas também por aspectos divinos.

Para os romanos “fides” é um conceito fundamental que remete a aspectos políticos, sociais e jurídicos e, genericamente, referia-se ao juramento que obrigava ao cumprimento de um dever, um pacto que implicava o seu cumprimento para com um indivíduo, a família, os deuses ou a pátria.


Ou a Virtus, mulher de coragem e valor militar, acompanhante do deus romano da ética e nonra militar, que se apresentava como um jovem guerreiro usando uma lança e uma cornucópia,  que, a par da Gloria; Libertas; Pietas, simbolizando o respeito religioso; a Fides; Dignitas e Maiestas, representando a Grandeza do Povo Romano, se assumem como os grandes valores do Cidadão de Roma. 


Mas não podemos deixar de referir algumas das divindades de origem africana que chegaram, se bem que tardiamente a ter lugar no Capitólio romano, a exemplo de Dea Africa, cujo culto estava associado à Tanit cartaginesa, protetora e Genius de África, logo, implicada em todas as atividades da vida dos antigos africanos. «Ela foi associada ao princípio feminino, que presidia a fecundidade da terra, o que se evidencia através de um de seus atributos: a cornucópia. No final do século II, Tertuliano, em Apologética XXIV, 7, citou Africae Caelestis como uma divindade da região norte-africana. Esta grande divindade feminina tornou-se a patrona da África e, notadamente, de Cartago, uma das principais cidades norte-africanas e do Mediterrâneo Ocidental. O célebre templo à deusa e seu oráculo persistiram em Cartago até 421. A deusa foi protegida e inclusive privilegiada pelos romanos em Cartago, segundo a Regra XXII, 6 de Ulpiano: “deos heredes instituere non posumus praetere … Caelestem Salinensem Carthagini”. No século III, a imperatriz Júlia Domna, esposa do Septímio Severo, imperador de origem norte-africana, foi identificada com a divindade africana numa inscrição de Magontiacum (CIL XIII, 6171) e representada como tal (sobre esta imperatriz, ver GONÇALVES, 2002: 160-190). Em 221, o então imperador Heliogábalo, também pertencente à domus severiana, deu-lhe um lugar em Roma junto com Sol Inuictus (Herodiano V, 6, 4), o que, segundo o autor, foi aparentemente uma boa ocasião para transladar o tesouro cartaginês da deusa. Seu templo no Capitólio romano manteve-se pelo menos até 259 (ILS 4438). Entretanto, em certas passagens da documentação textual literária, o culto a Dea Africa aparece em algumas ocasiões como hostil ao governo de Roma. Na História Augusta (Vida de Pertinace IV, 1-2), há uma passagem que faz referência a rebeliões sufocadas na África por Pertinace em fins do século II, que foram inspiradas pelas profecias emanadas do templo da deusa», embora haja controvérsias quanto a esta passagem, pois, ao que é sabido, há uma corrupção do texto.

(fotografia e citação: Dea Africa: construção de identidade/alteridade na África Romana,http://www.angelfire.com/planet/anpuhes/regina4.htm)






Detalhe de África e as Quatro Estações. Fotografia a partir de: Ancien Rome.





O mosaico é constituído por um «medalhão central quadrilátero: envolvido numa moldura octogonal curva florida um busto feminino; a mulher tem pele morena com cabelo frisado com cachos até a base de seus ombros, veste uma túnica sem mangas com nós nos ombros e cobre a cabeça com uma cabeça de elefante.

. quatro medalhões angulares circulares: cada um contendo um busto feminino diferente: uma mulher de pele clara com cabeça velada com ramos de oliveira; outra, coroada com flores; outra, coroada com espigas de trigo e outra, com ramos de parreira.

· quatro fusos laterais: cada um contendo um pássaro bicando: uma uva, uma flor, uma espiga de trigo e azeitonas.

Legenda e fotografia a partir de: «Dea Africa: construção de identidade/alteridade na África Romana».

http://www.angelfire.com/planet/anpuhes/regina4.htm



E haverá ainda que recordar a importância do Mito da Europa, que segundo a mitologia grega, foi raptada por Zeus que se transformou em touro para seduzir a princesa, quando esta se banhava na praia. A princesa Europa terá nascido no mediterrâneo e era flha de Agenor, o rei fenício de Sídon, trazendo do Oriente para o Ocidente tudo o que lá aprendera.


O estatuto de Eva é, bem mais ambíguo, pois a sua personagem tendo contornos bem definidos na narrativa bíblica, como acima referimos, foi esbatendo o seu valor fortemente simbólico. Nascida (como, aliás, algumas divindades da mitologia greco-romana) do corpo de um homem que, apesar de ter podido presenciar o divino antes do “Pecado Original”, não o é, Eva é apenas a “Mulher”. Aparecendo num primeiro momento como agente a par do Homem pois «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou Homem e Mulher», é, contudo, ela que provoca com a sua curiosidade a tentação e o “Pecado Original” , simbolizando ao mesmo tempo a sabedoria e a vida, através dos seus atributos como a serpente a a Árvore Sagrada, Eva rapidamente é transformada num ser de estatuto secundarizdo e e submisso, cuja função primordial é procriar, sendo que essa função é ela própria um estigma, pois um dos castigos que lhe é infringido é “a dor da gravidez”.


Torna-se também num mero objecto da dominação masculina, pois o anátema que sobre ela caiu foi proferido pela voz divina, que lhe é alheia e superior: “terás desejo ardente de teu esposo, e ele te dominará”.


Ao contrário, na mitologia greco-romana as divindades femininas são bem mais afirmativas, agentes ou adjuvantes em todo o enredo das(es)/histórias que se geram em seu torno: Hera, filha dos Titãs Oceano e Tétis, é o centro de uma trama onde o ciúme e a vingança obtida com uma ira implacável chegam a perturbar o próprio “deus dos deuses”.


No entanto, pese embora a sua personalidade, ou por isso mesmo, ela é também a protectora das casadas ou das parturientes, tendo gerado Ilitia, que acabará por zelar por estas últimas.

Atena, a virgem, que não foi gerada por uma mulher, porque brotou da cabeça de Zeus, é também feroz. Protectora da agricultura e das actividades artesanais, esta deusa tudo fará, contudo, para salvar a “Cidade”, mesmo que seja através da guerra. A deusa do Amor e da Beleza, Afrodite, é, por sua vez, capaz de todos seduzir, deuses ou mortais.

E náo esqueçamos ainda a infatigável Diana, deusa da lua e da caça, filha de Júpiter e de Latona, e irmã gêmea de Febo, ciosa da sua castidade, ao ponto de transformar num cervo o caçador Acteão, apenas porque a topou desnudada durante o banho. Era acompanhada por um séquito de sessenta oceânidas e vinte ninfas que, como ela, renegaram a sexualidade.

Cedo foi associada a Ártemis ou Artemisa, deusa virgem da mitologia grega, também protectora da vida selvagem e ma caça, igualmente considerada filha de Zeus e de Leto e irmã gémea de Apolo que os tempos quiseram associar à lua e à magia, bem como aos animais selvagens, à virgindade, e às parturientes. O cervo e o cipreste eram os seus atributos.









Diana com diadema. Museu Nacional de Arte Romano. Mérida

Fotografia José Manuel Jérez Linde






Cibele era considerada a «Mãe dos Deuses», tendo mesmo sido referida pelo poeta trágico grego Sófocles (495 a.C.-406 a.C.) como a «Mãe de Tudo».

Ao que se sabe o culto provém da Anatólia Ocidental e da Frigia, onde designada como "A Senhora do Monte Ida".
A montanha, a caverna, os ambientes rochosos são os ambientes escolhidos por essa Grande Mãe ou mesmo considerados a encarnação da Divindade. 

Cibele era normalmente representada como uma mulher madura, coroada de flores, nomeadamente rosas, aliás as flores utilizadas para venerar os mortos, e espigas de cereais, símbolo da vida, trajando uma túnica multicolorida e com um molho de chaves na mão.
Em algumas representações, ela aparece cercada por leões ou segurando nas mãos várias serpentes.
Cibele era a deusa dos mortos, da fertilidade, da vida selvagem, da agricultura e da Caçada Mística. Nos seus rituais eram usados pratos e tambores. Mas também era associada à Grande Mãe Primordial origem de toda vida, vegetal, animal e humana. 
O culto de Cibele tornou-se tão popular que o senado romano, pese sua política de tolerância religiosa praticada, viu-se forçado a proibir os rituais da deusa-mãe. Tal como as deusas Perséfone e Deméter, Cibele pertencia à Religiáo dos Mistérios e os rituais ue lhe eram dedicados eram celebradas à noite, uma vez que ela era considerada a Rainha da Noite. Era-lhe reconhecida uma profunda sabedoria que era partilhada apenas com os seguidores dos seus «Mistérios».
Os que se dedicavam ao seu culto eram considerados como que encarnações de seu filho Átis, um deus lunar que usava a lua crescente como uma coroa, que tanto era tido como seu filho, como amante de Cibele, a deusa da Lua.



Por sua vez, de Vénus, conta-nos Seutónio, que o Divino César se fazia descentende de Vénus, pois em discurso fúnebre de Júlia, efectuado na tribuna do forum, por morte de sua tia, elogiu a sua ascendência e do seu próprio pai da seguinte forma: «Por sua linha materna, a minha tia descende de reis; pela linha do seu pai remonta aos deuses imortais. Pois de Aneo Marcio, que que procedem os reis Marcios, é a linhagem de sua mãe; é de Vénus que descendem os Julios, que constituem a nossa família». (Suetónio, Vida de los Doce Césares, “El Divino César”, Colección “Libros de Bolsillo Z”, 1985, Barcelona.

Os Júlios entroncavam assim a ancestralidade da gens Julia em Venus Genetrix que Júlio César terá assimilado a Venus Vitrix que, segundo Dion Cassius, era o tema do seu sinete
Estas divindades, embora todas filhas, irmãs ou amantes de Zeus, desempenham, não obstante, papéis diferenciados, autónomos, interferindo em quase todos os aspectos da vida, tal como acontece com as “deusas menores”.


Segundo comentário de Luís Fraga da Silva a esta estátua, «O seu aspecto primordial é o vestuário tipicamente helenístico, nada romanizado. Tratar-se-á assim de uma TYCHE clássica e não de uma FORTUNA/SPES romana ou de uma representação sincrética. Porém, como não tem braços sobreviventes faltam os atributos mais específicos dessa divindade: o timão e a cornucópia.Como se sabe há várias TYCHES: do Estado/Monarca, da cidade, de uma actividade, de uma família ou indivíduo. Com a ausência da cabeça falta também o que seria o atributo específico da TYCHE POLIADA: a coroa torreada. Caso estivesse presente não haveria dúvidas que estaríamos perante a TYCHE de Balsa (romanizável até um certo ponto como DEA TUTELA da cidade).O atributo mais específico é a embarcação sem mastreação nem remos e com a popa desmesuradamente desenvolvida, muito semelhante às que se podem ver em certas moedas de BalsaA posição de dominação extrema, em que a divindade ameaça esmagar com o pé a embarcação a qualquer momento, é reforçada pela representação de equilíbrio dinâmico da postura do corpo.Tratar-se-á assim de uma TYCHE da navegação por si só, ou da TYCHE de Balsa que rege a cidade através do elemento mais fundamental da prosperidade urbana, que se revela assim ser a navegação.A TYCHE é o tipo de divindade que se ajusta particularmente bem às condições de formação, êxito e fracasso de cidades e formações sociais como Balsa, baseada em estatutos sociais e origens modestas, cujo destino depende de factores improváveis e incontroláveis, como o mar, as catástrofes naturais, as oportunidades de negócio e os privilégios e protecções incertos dos poderosos locais e do Imperador».
Fortuna é uma dessas deusas, a do destino e da sorte (boa ou má) e da esperança. Adquire os atributos da divindade grega Tique.
Temida entre os Romanos, pois dela dependia, segundo os seus caprichos, a riqueza ou a pobreza, o poder ou a servidão, Fortuna comanda todos os acontecimentos da vida dos homens, motivo pelo que tem como atributo um leme.





Desenho de Antónia Tinturé.



Fazia-se, assim, representar com uma cornucópia e um timão, simbolizando reciprocamente a distribuição de bens de forma mais equitativa e uma certa orientação do Homem cujos desígnios eram de certa forma aleatórios.

A Fortuna Alada proveniente de Pombalinho e pertence ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia é um notável exemplar do século II d.C. e ainda o de Torres Novas.



Trata-se de uma estatueta com representação da divindade na sua versão alada . «A deusa enverga uma longa túnica e ostenta, sobre a cabeça, uma coroa muralhada, atributo de evidente cariz tutelar; trata-se, possivelmente, de uma Fortuna tópica – isto é, ligada à protecção de uma civitas e respectivo ager -, ainda que a peça em análise possua características físicas adequadas a um culto doméstico, de larário».

Fortuna era considerada filha de Jupiter/Zeus, sendo-lhe dedicado um festival, a 11 de Junho, em sua homenagem, o Fors Fortuna. O O seu culto foi introduzido por Sérvio Túlio, e foi-lhe dedicado um templo na época republicana, Fortuna Virilis, próximo do Capitólio.

Apesar dessa filiação/irmandade entre as divindades mimetizar, de certa forma, a situação bíblica, pois também Eva nasce da costela de Adão e dele se tornar concubina, não haver ter qualquer equivalência no que diz respeito ao protagonimo assumido pelas personagens.


E poderíamos ainda falar das Vitórias, as Aladas que ladeando Atena garantiam a vitória da Cidade nas suas conquistas e por isso era sempre associada aos Jogos Olímpicos.


No Museu da Batalha pode emcontrar-se um exemplar notável, publicado neste mesmo site: pohttp://www.portugalromano.com/2011/02/museu-da-comunidade-concelhia-da-batalha/





Espelho de bronze de pega com Vitória Alada datado do século I d.C.. Espelho de época romana de forma circular. Uma face é polida e lisa, sendo a outra decorada com três conjuntos de dois círculos concêntricos. A asa é figurativa e representa a deusa Vitória Alada, nua, sobre uma máscara grotesca. A cabeleira da deusa é ondulada, formando um toucado bastante elaborado. A face posterior da máscara é acentuadamente côncava, permitindo encaixar e ajustar, por meio de soldadura, a uma outra peça. Pertencente à colecção de peças arqueológicas de António Júdice Bustorff da Silva que a doou ao Estado Português, por intermédio de António de Oliveira Salazar. Encontra-se na Colecção do Museu Nacional de Arqueologia. Fotografia e legenda a partir de «Portugal Romano».



Mas não esqueçamos também Pandora, «a protagonista da epopeia didáctica, exprime uma concepção negativa do feminino, sendo o primeiro sinal declarado de misoginia na cultura grega. Facilmente se conclui que através dela todas as desgraças invadiram o mundo. Aliás, na elaboração do mito de Pandora é possível detectar uma estrutura retórica que coloca lado a lado as vantagens de ser homem e as desvantagens de ser mulher: ao género masculino corresponde a cultura, a civilização, a guerra, a política, a razão e a luz, numa palavra, a ordem ou o cosmos; ao género feminino corresponde a natureza, a misantropia, a actividade doméstica, a imoderação, a noite, numa palavra, o caos ou tudo o que põe em perigo a ordem estabelecida. Aliás, Hesíodo usa mesmo o termo genos para se referir à mulher, o que significa que o autor considera o feminino um género distinto do humano» (Amílar Guerra, op. cit. p: 88).

Ou lembremos «Virtudes» da Antiga Roma, de que apenas, entre tantas outras, destacaremos Dignitas, Gravitas, Veritas, Salubritas Pietas, normalmente traduzida como “dever” ou “devoção,” que seja o dever para com as divindades e com a família – particularmente com o pai que se assume como uma extensão da comunidade – e para com o Estado. Portanto, mais do que a piedade religiosa, assume-se como um respeito pela ordem natural social, política e religiosa, bem como de patriotismo.

Mas não podemos omitir ainda as múltiplas divindades ou alegorias protectoras, a exemplo do que poderia representar esta figura feminina, proveniente de Pompeia, onde muito possivelmente o “clipeus” tem funções apotropaicas.






Alegoria de Protecção (?), Pompeia. Casti Amanti-Pittore al lavoro. Una figura volante poco conosciuta, ma interessante poiché abbastanza originale, che esce dai modelli abituali; personaggio femminile alato ma armato di una lancia e di uno clipeo. «Allegoria della protezione? Si osserverà che è stata dipinta sul fondo rosso successivamente, e non a fresco». Citação a partir de:https://www.facebook.com/#!/pages/Pompei-arte-storia-ed-archeologia/283085626261



http://www.novaroma.org/via_romana/virtues.html.pt

Destacamos aqui uma moeda de bronze (Aes) de Faustina I. com representação de Pietas, pertencente ao Museu Nacional de Arqueologia, passando a citar:


Anverso: Busto de Faustina I, drapeada, à direita, com um elaborado penteado, cabelo apanhado atrás, elevado e apanhado novamente no alto da cabeça. À volta: DIVA AVGVSTA FAVSTINA


Esta peça foi recolhida no lugar de Polvorinho ou Polveirinho, na propriedade de São Lourenço pertencente ao Sr. António Maria Penteado, que a ofereceu ao Museu quando comunicou a existência deste sitio arqueológico a Leite de Vasconcelos. Em Setembro de 1910, Leite de Vasconcelos encarregou Almeida Carvalhais de proceder à escavação no local». Informação obtida do Museu Nacional de Arqueologia


De salientar, contudo, que o papel desempenhado genericamente pelos seres femininos na mitologia grega se contrapõe, em alguns aspectos, à condição a que é remetida efectivamente a mulher ateniense, não lhe conferindo apenas o Geniceu, tal como, aliás, não parece ter acontecido em Esparta, onde as Mulheres viviam mais para o exterior, contribuindo, através das actividades a que se dedicavam, para o desenvolvimento da vida desse Estado e da vida social, em geral, tendo as cidadãs uma educação bastante completa.


«O arquétipo da Deusa é sempre projetado em uma bela mulher, amante, heroína, admirada por suas virtudes: a mãe bondosa, a princesa elegante e educada, a rainha obediente, a fada madrinha, de acordo com a forma que esse sujeito pode assumir no contexto da narrativa, da tragédia, do poema, da vida, mas nunca em mulheres do povo: mãe sofrida, profissional, prostituta. A personagem sempre encarnará um perfil emoldurado no campo da energia psíquica que o arquétipo inspira, informando os tipos, as atitudes, o comportamento cotidiano e os ideais da Deusa. Dessa forma, as heroínas da literatura, do cinema, das novelas de televisão, dos contos de fadas que personificam, não raro, os arquétipos de Afrodite, no modo de ser de uma mulher apaixonada; de 210Atena, nos ideais de uma mulher racional; de Deméter, na proteção materna, representam mitologemas atualizados por meio da literatura que fundamentam sempre novos aspectos do Feminino e abrem discussões sobre o equilíbrio psico-espiritual de nossa cultura, principalmente sobre as resistentes forças vitais femininas que sobrevivem no tempo (…).

A mais elevada sabedoria feminina é transmitida pelo mito da Deusa tríplice Deméter/Perséfone/Hécate. Deméter, nome grego, Delta, significa Deusa Mãe com tripla face: a jovem, a mãe, a velha. Seus nomes adquirem o significado dos seus papéis arquetípicos de mãe bondosa e terrível: Deméter, a que conhece a imortalidade, capaz de dar a juventude eterna; Hécate, a que vê no escuro; Perséfone, a que conhece o segredo da morte; Tiamat, o oceano gerador; Maat, a pena branca da verdade; Medusa, a que tem um olhar petrificante; Fata Morgana, a que leva os homens ao seu destino; Sofia, a que tem a sabedoria superior; Brigit, a responsável pelo ciclo das estações; Kali, a que destrói os homens para dar forma à criação; Syrian Mari, aquela capaz de examinar a alma; Sibila, a vidente capaz de ver o futuro. O mito das Deusas se resume na trajetória da mãe que perdeu a filha e a busca sem trégua. Deméter, filha de Cronos e Rea, deusa grega da terra cultivada, especialmente do trigo teve uma filha com seu irmão

Zeus, Coré. Ainda adolescente, Coré saiu pelos campos a colher flores. A terra abriu-se para Hades, o deus do Inferno, irmão de Zeus, e, por conseguinte, tio da jovem deusa, que a raptou. Coré gritou, a mãe ouviu e veio socorrê-la, só que chegou muito tarde. Hécate, que tudo via, 211contou à mãe aflita o que havia ocorrido. A partir de então, Deméter passou a percorrer o mundo à procura da filha, sem comer, beber ou repousar, abstendo-se de fazer germinarem as sementes semeadas na terra até que sua filha aparecesse.

Passando por Eleusis ela se disfaçou numa velha e pela primeira vez descansou. Dirigiu-se à morada de Celeu, rei da região, onde incógnita parassou a trabalhar como ama de Triptólemo. A deusa tentou imortalizar este menino, mas não conseguiu por causa da intervenção de Metanaira, mãe do garoto. Nessa ocasião Deméter revelou sua identidade e ensinou aos povos daquele lugar a cultivar o trigo. A essa altura, os campos secavam e se tornavam estéreis, pondo em perigo a sobrevivência das criaturas vivas. Zeus, preocupado com tal situação, ordenou a Hades que entregasse sua esposa (agora Perséfone, a rainha do Inferno) à mãe Deméter. Todavia Perséfone havia comido a semente da romã, estando, agora, presa ao marido e ao seu reino. Para solucionar o impasse, Zeus determinou que Perséfone ficasse seis meses com a mãe e seis meses com o marido. Graças a essa solução, a rainha do Inferno saía das profundezas da terra na primavera e subia ao céu quando se abriam no solo as primeiras sementeiras, retornando ao Inferno no outono, quando começavam as colheitas. Seu afastamento de Deméter ocorria no inverno, durante o qual a terra nada produzia.

O mito de Deméter encena o sofrimento materno provocado pelo “ninho vazio”. A trajetória da Deusa em busca da filha perdida ensina às mulheres como se comportar mediante as perdas existenciais, principalmente por ocasião do afastamento das filhas. Essas deusas personificam mulheres que experimentam significativas rupturas psicológicas com elos estruturais básicos e por isso vivenciam estados depressivos e processos reacionários negativos e positivos que favorecem mudança e podem servir de insights para as necessárias transformações femininas».


http://www.revistainvestigacoes.com.br/Volumes/Vol.21.1/as-faces-e-o-significado_Maria-Goretti-Ribeiro_art.11ed.21.pdf


Já em Roma, que adoptou e adaptou os deuses gregos, a situação da mulher não tem um aspecto tão intimista. Embora submetidas ao poder patriarcal (do omnipotente paterfamilias ou seu sucedâneo – o marido ou o sogro de que poderia tornar-se “filha” através do matrimónio – , as mulheres romanas assumem um desempenho que poderemos considerar mais extrovertido, mais visível ou mesmo extravagante, como acontecia com algumas, normalmente priveligiadas. É assim natural que as suas divindades o espelhassem.





Ménade, Museu de Évora 

As Bacantes ou Ménades, também conhecidas como Tíades ou Bassáridas, eram seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso, conhecidas como selvagens e enlouquecidas porque delas não se conseguia um raciocínio claro, tendo ficado conhecido o comportamento fanático.


Durante o culto dançavam de uma maneira muito livre e lasciva, em de acordo com as forças mais primitivas da natureza.

Os mistérios que envolviam o deus Dioniso provocavam nelas um estado de êxtase absoluto e elas entregavam-se à desmedida violência, derramamento de sangue, sexo, embriaguez e autoflagelação. Estavam sempre acompanhadas dos sátiros embalados pelos sons dos tamborins dos coribantes, formando uma espécie de trupe que acompanhava o deus do vinho nas suas aventuras. Andavam nuas ou vestidas só com peles, grinaldas de Hera e empunhavam um tirso - um bastão envolto em ramos de videira.

Por onde passavam iam atuando como chamariz na conversão de outras mulheres atraindo-as para a vida lasciva. Evidentemente que o comportamento livre e desregrado delas causava apreensão, senão pânico nos lugarejos e cidades onde o cortejo báquico passava. Quando assaltadas por um furor qualquer, não conheciam limites ao descarregar a sua cólera. O maior divertimento das Mênades ou Bacantes era submeter os homens ao sofrimento, despedaçando-os antes de comê-los enquanto estavam em transe.

Pela sua crueldade, às Ménades não foi concedida a misericórdia da morte.

Na obra intitulada Dionísiacas são citadas dezoito Ménades:


Acrete - o vinho sem mistura
Arpe - a flor do vinho
Bruisa - a florescente
Cálice - a taça
Calícore - a formosa dança
Egle - o esplendor
Ereuto - a corada
Enante - a foice
Estesícore - a bailarina
Eupétale - as belas pétalas
Ione - a harpa
Licaste - a espinhosa
Mete - a embriaguez
Oquínoe - a mente veloz
Prótoe - a corredora
Rode - a rosada
Silene - a lunar
Trígie - a vindimadora






 «é uma designação genérica que se encontra hoje mais difundida do que na Antiguidade, por ter substituído em grande parte outros vocábulos coevo tais como ménade, tíade, lena … que, em diversas regiões do mundo clássico,reflectiam particularidades de um fenómeno religioso que tendia a expandir-se cada vez mais. Em termos singelos, a bacante é simplesmente uma mulher adepta do culto do deus Baco (ou Dioniso, na nomenclatura original grega) que praticava os ritos necessários. As práticas religiosas realizavam-se em grupo e não individualmente – pelo que existiam congregações de mulheres (ou seja, de bacantes), denominadas tíasos. Ser bacante e pertencer a um tíaso não implicava o desempenho de um cargo sacerdotal específico; no entanto, algumas bacantes assumiram tais cargos, sobretudo na época romana quando certos tíasos desenvolveram um corpo sacerdotal hierarquizado» (Tatiana Kuznetsova-Resende, «A Bacante no Mundo Clássico», in Actas dos Colóquios sobre a Temática da Mulher (1999-2000).


E lembramos ainda Vesta, cujo culto data de época anterior aos Romanos, essa divindade do Lar que tem como símbolo o fogo sagrado e purificador, seja da casa ou da cidade, onde as virgens Vestais zelam para que a chama não se apague.





Representação de Vesta fazendo-se acompanhar de um burro. Pompeia. 
Fotografia a partir de: https://www.facebook.com/pages/Pompei-arte-storia-ed-archeologia/283085626261



Ou a deusa Iustitia cujo 
símbolo adoptado se filia na deusa grega Diké, a que se aduzem novos elementos, a exemplo dos olhos vendados, significando equidade perante a Lei.




Diké, filha de Thémis, segura de olhos abertos uma espada e uma balança, tal como sua máe que exibia apenas uma balança ou uma balança e uma cornucópia.



A figura da deusa romana Ivstitia sustenta uma balança já com o fiel da balança a meio. Nas representações mais antigas da Ivstitia, a deusa surge ainda com os olhos descobertos, em alusó à necessidade de observar todos os pormenores para a justa aplicação da Lei. Só mais tardiamente ela surge de olhos vendados, para que a justiça seja cega e a Lei seja igual para todos.



Por seu lado, a balança simboliza a equidade, o equilíbrio, a ponderação e a justeza na aplicação da Lei.



Passa a aceitar-se que existe ius faz-se quando o fiel da balança jurídica está aprumadíssimo.



E existe derectum, porque o fiel da balança está aprumado e quando os dois pratos estão precisamente iguais.





As mulheres romanas quer as divinas, quer as humanas, participam, portanto, de uma sorte onde se envolvem, desde um primeiro momento, os dois sexos, na igualdade possível…

Eva, essa, participará apenas do devir solitário a que quiseram condenar, no mundo judaico-cristão, até praticamente os nossos dias, a Mulher e para isso basta ler o moralista Tertuliano do Século II d.C.:

«Ó mulher, nas dores e ansiedades dás à luz, vives girando em volta do teu marido, és dominada por ele, e não sabes que, afinal, Eva és tu mesma? Ainda vive em nossos tempos a sentença de Deus a respeito do teu sexo: necessário é que vivas na condição de culpada. És a porta do diabo, aquela que tocou a árvore proibida», in, «A Moda Feminina/Os Espectáculos», p: 38.



BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA





Aécio Flávio de Carvalho, REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA POESIA LATINA, http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br).

Amor López Jimeno, 2006, El Arte de las Musas: La Música Griega, desde da Antiguidadd hasta hoy, . VI JORNADAS DE HUMANIDADES CLÁSICAS HOMENAJE A MARIANO FERNÁNDEZ-DAZA Y FERNÁNDEZ DE, CÓRDOVA 10-11, 17-18 de febrero de 2006

Eva Cantarella «A Mulher Romana».

Maria Filomena Barata, RELIGIÕES MISTÉRICAS DA ANTIGUIDADE IV
http://www.incomunidade.com/v17/art.php?art=22



Maria Goretti Ribeiro, Universidade Estadual da Paraíba
http://www.revistainvestigacoes.com.br/Volumes/Vol.21.1/as-faces-e-o-significado_Maria-Goretti-Ribeiro_art.11ed.21.pdf

Maria Zina Gonçalves de Abreu, «O Sagrado Feminino: da Pré-História à Idade Média»,

ACTAS DOS COLÓQUIOS SOBRE A TEMÁTICA DA MULHER (1999-2000)

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Culto di Virtus.

http://www.romanoimpero.com/2010/02/culto-di-virtus.html#.WKMPM1P4cKU.google_plusone_share

Esmeralda Gomes, Marisol Aires Ferreira e António Rafael Carvalho, «Alcácer, Terra de Deusas,  2008, Câmara Municipal de Alcácer do Sal).

Aspects of Roman History 82 BC-AD 14. A Source-Based Approach Aspects of Classical Civilisation.pdf
Download link: http://www.mediafire.com/file/upemoukawwwkqk4


HEROES AND HEROINES
File name: Heroes and Heroines of Greece and Rome.pdf
Download link: http://www.mediafire.com/file/h987d8khf5iz8mv


MATER MATUTA
http://il-matriarcato.blogspot.pt/2013/09/mater-matuta.html

CULTO DI PROSERPINA - PERSHEFONE - KORÉ
http://www.romanoimpero.com/2014/05/culto-di-persephone-kore.html


http://www.grupoescolar.com/pesquisa/as-deusas-do-olimpio.html
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