terça-feira, 21 de março de 2017

A Poesia do Transcendente, no Museu Nacional de Arqueologia

Hoje, celebra-se o  Dia Mundial da Poesia.

No próximo dia 25, pelas 15h 30m, no Museu Nacional de Arqueologia, dar-se-á voz à Poesia clássica, através de um percurso em torno  de algumas das peças da mostra «Religiões da Lusitânia» e «Lusitânia dos Flávios»,  com a colaboração da Associação Clenardus.



Prece às Musas

Belas filhas de Mnemósine e de Zeus Olímpico,
            Musas Piérides, escutai a minha prece.
Concedei-me da parte dos deuses bem-aventurados a felicidade
            e, perante os homens, ter sempre boa fama,
ser doce aos amigos, amargo aos inimigos,
            respeitado por aqueles, temível para estes.
(..........................................................................................................)

                                                                      Sólon (séc. VII-VI a. C.)



segunda-feira, 20 de março de 2017

A LUZ, lembrando hoje o Equiócio da Primavera.

Filomena Barata

A LUZ

http://www.incomunidade.com/v32/art_bl.php?art=232

O despojamento, um exercício fundamental e desejável, não é sinónimo de ausência de complexidade.Porque até a luz contém todas as cores!
Talvez, de há uns tempos para cá, seja dos temas que tratarei com mais dificuldade. Talvez por um motivo apenas, porque é um dos que mais me fascinam.

E porque a Luz, no Presente geográfico de onde escrevo neste momento, Angola, é, como em todas as sociedades um elemento fundamental.

Mas a Luz aqui, que se transforma ao nascer e pôr do Sol num mundo com todas as tonalidades de uma grandeza que náo se consegue descrever, num elogio das cores que a compõem, é, durante o dia, quase sempre filtrada como que por uma névoa que a evaporação causada pelo calor provoca.

É uma Luz coada que poucas vezes permite ver o Céu do azul que conhecemos no Ocidente Peninsular.
 E inicio este texto quando o Céu resolveu estalar, trovejando, sem, contudo me ter dado conta de os Deuses se terem zangado, nem tão pouco os Humanos estarem de costas viradas para eles.

Zeus, certamente, resolveu accionar os poderes conferidos ao domínio do Olimpo, e acionar os seus atributos de rapidez, enviando raios até este ponto do Atlântico Sul.

Para os Egípcios, o deus egípcio da tempestade, dos trovões e do caos era Set (ou Seth). Sabemos através de uma lenda, que esse ser rude, bestial, assassinou o seu irmão Osíris.

Ísis, esposa de Osíris, desesperada com a sua morte procura e encontra o corpo do marido, conseguindo engravidar mesmo com ele já morto. Dessa união, nasce Hórus que Ísis esconde de forma a que Seth não saiba de sua existência, nem atente contra sua vida. Conta com a protecçáo de outras divindades, designadamente Rá, seguido de Toth, deus da sabedoria.

Numa outra lenda, ao invés, Set usa o seu poder para proteger Ra, o deus do Sol.

Na mitologia grega antiga, Zeus atirava flechas do céu quando fica enfurecido, a mesma arma que manejara com destreza para derrotar os inimigos, os Titãs, que o permitiu tornar-se o deus dos deuses. Era ele, Zeus, que tinha poder sobre os fenómenos atmosféricos, lançando a chuva com a sua mão direita e usando a sua força de forma destruidora, mas também para que fosse benfazeja com as plantações. Por isso, Zeus é representado na própria estatuária grega com os seus atributos: o relâmpago ou raio na mão direita, sendo também seus atributos a águia, o touro e o carvalho, que simbolizam reciprocamente a rapidez, a força, a energia e o poder do comando.

As flechas de Zeus brilhando por entre as nuvens fazem um barulho ensurdecedor, como descreviam os Antigos, povoando as suas mentes de medo, mas também de fascínio por táo grande poder.
 Do mesmo modo, os Gregos criam que os Cíclopes, os gigantes de um só olho (chamados Arges, Brontes e Estéropes,32), forjavam raios para Zeus, pai dos deuses do Olimpo, para lançá-los sobre os mortais.

Tal como Zeus e seu equivalente romano, Júpiter, o deus indiano das tempestades, Indra, é também o soberano dos deuses. Essa divindade vermelha e dourada usa também a sua flecha tanto para liquidar os inimigos como para fazer reviver aliados desfalecidos. Destrói demónios e serpentes, mas também é criador de vida, trazendo luz e água para o mundo.

O simbolismo associado à LUZ, à saída das trevas, encontra-se presente em quase todas as culturas e civilizações e religiões, desde épocas remotas.

Já na célebre «Alegoria da Caverna», parte constituinte do livro VI de «A República» de Platão, a Luz associa-se à ideia Libertação do Homem acorrentado que vive num mundo de Sombras. É através do conhecimento e da Razão, ou, numa palavra, da Luz, que o Homem se aproxima da realidade que, num primeiro momento, o ofusca.

Mas é quando toma contacto com o Sol, como fonte de Luz, da qual provém toda a Vida, os seus ciclos, o Tempo, e a energia que se apercebe como vivera destituído do conhecimento real.

Em muitas religiões ou mesmo ritos iniciáticos, a LUZ associa-se a esse mesmo conhecimento, mas ainda a uma força renovadora e plena de energia. Afinal é o dia que se sucede à noite como nos dá conta Mozart na sua «Flauta Mágica».

A Luz está, portanto, associada ao conhecimento, assumindo em muitas religiões um carácter de força celeste, a Luz divina ou Luz espiritual de que o culto do Espírito Santo é, claramente, uma manifestação. O despertar da Luz interior é, por sua vez, uma constante em rituais iniciáticos, tendo aqui como clara conotação o Conhecimento e o Crescimento Interior.

Lembro ainda Lúcifer, o Deus-astro dos Romanos, sucedâneo do Fósforo dos Gregos.

Lúcifer é a divindade que anuncia a Aurora de quem é filho, tendo outras designações como a Estrela da Manhã ou Estrela d’Alva; Héspero, Heósforo.

É este deus que em hebraico significa brilho e que os textos bíblicos de Isaías referem como representando o Mal, numa alegoria ao rei da Babiónia: "Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações! Você que dizia no seu coração: ‘Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo’" (Isaías 14:12-14).

Lúcifer assume ainda nos Textos Sagrados, em Ezequiel, desta feita numa alusão ao rei de Tiro, os males a que o Homem e os tiranos se converteram: «Por meio do seu amplo comércio, você encheu-se de violência e pecou. Por isso eu o lancei em desgraça para longe do monte de Deus, e eu o expulsei, ó querubim guardião, do meio das pedras fulgurantes. Seu coração tornou-se orgulhoso por causa da sua beleza, e você corrompeu a sua sabedoria por causa do seu esplendor. Por isso eu o atirei à terra; fiz de você um espetáculo para os reis. Por meio dos seus muitos pecados e do seu comércio desonesto você profanou os seus santuários. Por isso fiz sair de você um fogo, que o consumiu, e eu reduzi você a cinzas no chão, à vista de todos os que estavam observando. Todas as nações que o conheciam ficaram chocadas ao vê-la; chegou o seu terrível fim, você não mais existirá" (Ezequiel 28:11-19)».
É assim que a Luz de que Lúcifer era o patrono se transforma numa energia maléfica, ou seja na sua própria antítese, pois é através dos seus poderes e planos que reis e governantes terrenos tomam para si honras que só a Deus pertencem.

Mas subjacente à mesma ideia, esse castigo infligido aos deuses ou Humanos que pretendem alcançar aquilo que à Divindade Suprema pertence é também o mito Grego do Gigante Prometeu de quem Zeus temia o poder e que, segundo o mito, criou, a partir de um bloco de argila misturada com água, o primeiro Homem.

É Prometeu que vai roubar do Carro do Sol uma faísca e vem oferecer aos Homens o Fogo divino.

Desta e outras afrontas feitas ao Pai dos Deuses, Zeus enfurecido oferece aos Humanos Pandora, criada pelo deus Hefesto, e que, segundo o mito, abre uma Caixa e espalha sobre a Terra todos os males.

A Prometeu restou-lhe ser acorrentado no cume do Monte do Cáucaso, onde o seu fígado era devorado por uma águia, até ter sido libertado por Héracles desse flagelo.

Temos assim, em muitos mitos e religiões, um claro confronto entre a Luz e as Trevas que espelham a luta titânica que o Homem trava na sua caminhada para a Luz, enquanto Conhecimento e Saber, tantas vezes fustigado e castigado por desejar ser também detentor de algo que para elas deveria estar apenas consignado ao Divino.
Mas, ainda assim, o Homem, enquanto ser de Conhecimento e de Razão, prosseguirá a sua Viagem no sentido da LUZ, libertando-se de todas as forças que o desejem acorrentar!

terça-feira, 7 de março de 2017

OS DEUSES ESCONDEM-SE ATRÁS DAS ÁRVORES

http://www.incomunidade.com/v45/index.php



ANO 4EDIÇÃO 45 - ABRIL 2016
Filomena Barata

OS DEUSES ESCONDEM-SE ATRÁS DAS ÁRVORES


«Foi ela que deu o germe das plantas e das árvores, foi ela que reuniu nos laços da sociedade os primeiros homens, espíritos ferozes e bárbaros, foi ela que ensinou a cada ser a unir-se a uma companheira. Foi ela que nos proporcionou as inúmeras espécies de aves e a multiplicação dos rebanhos. O carneiro furioso luta, às chifradas, com o carneiro. Mas teme ferir a ovelha. O touro cujos longos mugidos faziam ecoar os vales e os bosques abandona a ferocidade, quando vê a novilha. O mesmo poder sustenta tudo quanto vive sob os amplos mares e povoa as águas de peixes sem conta. Vénus foi a primeira em despojar os homens do aspecto feroz que lhes era peculiar. Dela foi que nos vieram o atavio e o cuidado do próprio corpo».

Ovídio, Metamorfoses

Iniciara eu este trabalho, há muitos anos atrás, dando sequência a um levantamento efectuado sobre as espécies vegetais e animais das Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém, bem como aos diversos estudos publicados, relativos a determinados  testemunhos florísticos e faunísticos desse sítio arqueológico, desejando fazer um elenco das referências existentes na literatura latina às mesmas e tentar ainda encontrar as suas associações com as divindades romanas. 


Estava também profundamente crente que um Sítio Arqueológico como a cidade romana de Miróbriga, para além do seu intrínseco valor científico e patrimonial, como testemunho do Passado, deveria assumir, no Presente, uma estreita relação com o meio e o ambiente onde se insere, pois a paisagem que ainda o envolve remonta a tempos milenares, com a sua zona de montado, mas onde, também na periferia, crescem tantas espécies de origens remotas, comuns ao Mediterrâneo.

Dispunha-me a fazer um trabalho infinito que nem uma vida inteira me deixará terminar.

Mas como Abril é o mês dos cravos e das rosas, o mês de Vénus, cujo culto está, em Miróbriga, atestado epigraficamente, através de duas inscrições dedicadas à divindade, e arqueologicamente, pois existe um templo de planta absidial que, muito possivelmente, lhe era dedicado - essa construção tem uma planta que se relaciona com o “templo de abside” dedicado a Venus Genetrix que foi construído em posição dominante do Forum Iulium para homenagear a origem mítica dos Iulii -,não quis deixar de partilhar um pequeno apontamento desse trabalho que nos permite percepcionar como, de facto, para os Romanos, não há Natureza, Divivindade e Humanidade separadas, pois são todos eles um TODO relacionável.


Templo de planta absidial de Miróbriga, Santiago do Cacém (lado esquerdo)

Abril deriva, ao que é comum aceitar-se, do latim «aprilis» que, por sua vez, se filia no verbo «aperire», que significa abrir, lembrando a estação do ano e o abrir das flores na Primavera.

Há quem defenda também que Abril derive de Aprus, o nome etrusco de Vénus, deusa do amor e da paixão.

Outra versão é que se relaciona com Afrodite, nome grego da deusa Vénus, que teria nascido da espuma do mar que, em grego antigo, se dizia "abril". E por isso a crença ainda actual de que os amores nascidos em Abril se eternizam, sob os auspícios da divindade.

Este mês era, por isso, consagrado pelos romanos à deusa Vénus chamando-se também por isso «mensis veneris», o mês de Vénus.

Também Ceres, a deusa da agricultura, e Baco, o deus do vinho, eram festejados neste mês pelos romanos.

Ceres continuava assim a honrar a fertilização da terra, que se abre nesta época do ano para receber a sementeira que, mais tarde, produzirá os frutos.

Baco, que corresponde ao Dionísio dos gregos, era também homenageado provando-se, pela primeira vez e com grande solenidade, o vinho da colheita anterior.

O mês era de Abril era representado por Cupido com uma coroa de rosas na cabeça.

Mas também a rosa era o atributo de Vénus, que com ele se fazia representar.

Assim se refere o poeta Virgílio, no século I

"Era o primero a colher a rosa na Primavera e no Outono as frutas. E quando o Inverno frio fazia estalar de frio as rochas e parava com o gelo o curso das águas, ele já estava recortando as folhas do jacinto, maldizendo o atrazo do Verão e  a deora dos céfiros. (Virg. Georg. IV)

Lembremos pois a rosa, uma das flores de maior simbolismo na cultura ocidental.

O seu nome tem origem latina, havendo, contudo, quem defenda que procede do grego «rhodon» numa referência a Rodes, ilha coberta de rosas.

Considerada "a rainha das flores" pela poetisa Safo no século VI a. C., ela teria sido criada, segundo a mitologia grega, por Clóris, deusa das flores (Flora entre os romanos), com o corpo inanimado de uma ninfa.

Era consagrada a Afrodite, deusa do amor, a Vénus da época romana.

Fotografia: Clara Pimenta do Vale

Dioniso, segundo a tradição mais difundida do mito, ofereceu-lhe seu perfume inebriante, e as Três Graças deram-lhe o encanto e o brilho que ela oferecia aos que a contemplavam.


Também Cupido, filho de Marte, deus da guerra, e de Vénus, usava uma coroa de rosas, bem como Príapo, deus dos jardins e da fecundidade.

Ao que se sabe, um milénio antes da nossa era, a rosa-de-damasco, uma das mais antigas que se conhece, era cultivada na ilha de Samos, no Mediterrâneo, exactamente em honra de Afrodite.

Consagrada a muitas outras divindades da mitologia, é símbolo de Afrodite e de Vénus, tendo sido adoptada pelo cristianismo que tornou a Rosa como o símbolo de Maria.

Mas regressemos ainda à Mitologia grega, que narra que Afrodite, quando nasceu nas espumas do mar, a espuma tomou forma de uma rosa branca, simbolizando a pureza e a inocência.

O Mito diz-nos ainda que, quando Afrodite viu Adónis ferido, pairando sobre a morte, a deusa foi socorrê-lo, tendo-se picado num espinho e seu sangue acabou por colorir as rosas que lhe eram consagradas.

Também na Antiguidade as rosas eram usadas sobre os túmulos, símbolo de luto, existindo um festival em honra de Flora e de Vénus chamado “Rosália”, e todos os anos, no mês de Maio, as sepulturas eram adornadas com essas flores.

Na Antiga Roma, cria-se que as rosas eram invenção da deusa Flora (deusa da primavera e das flores), que as criou quando uma das ninfas da deusa morreu. Perante a sua tristeza, cada deus contribuiu com um elemento para tornar a rosa a mais bela e desejada das flores; Apolo insuflou-lhe a vida; Baco deu o néctar; Pomona os frutos. Cupido deu-lhe os espinhos ao tentar espantar abelhas que se apaixonaram por ela.

O mito explica assim o aparecimento da rosa: as abelhas eram atraídas pela flor e quando Cupido atirou suas flechas para as afugentar, elas foram transformadas em espinhos.

A 23 de Abril comemoravam-se ainda as vinalia, festa dedicada ao vinho sob a protecção de Vénus que concedeu aos humanos o vinho corrente vinum spurcum. A Júpiter, como deus que regulava o clima, eram-lhe oferecidas libações com vinho benzido pelo  sumo sacerdote. Por sua vez, no templo de Venus Ericina, jovens e prostitutas reuniam-se procurando relacionamentos e ofereciam à deusa mirto, menta e juncos entre ramos de rosas, pedindo beleza.

A Rosa é, igualmente, consagrada à deusa Isís que é apresentada com uma coroa de rosas. Em muitas religiões mistéricas ou iniciáticas, a rosa fechada simboliza o segredo. Mas valor das rosas é também muito presente na Alquimia: uma rosa branca com um lírio era o símbolo da “Pequena Obra”; e as rosas vermelhas estavam associadas à “Pedra Filosofal”, o objectivo máximo de um alquimista, a “Grande Obra”.

Durante os Festivais anuais dedicados a Adónis que decorriam em cidades gregas, em cerimónias fúnebres, as mulheres plantavam sementes de flores e regavam-nas com água morna, para que crescessem mais depressa, fazendo com que as roseiras florescessem rapidamente. Mas também morriam num ápice: eram os denominados Jardins de Adónis.

Adónis, ao que  diz a Mitologia, havia nascido da casca da árvore da Mirra em que se tinha metamorfoseado Smirna ou Mirra para fugir ao castigo do seu irado pai, Téias, com quem manteve relações incestuosas.

Maravilhada com a extraordinária beleza de Adónis, Afrodite tomou-o sob sua protecção e entregou-o a Perséfone, filha de Ceres e de Zeus, que havia  sido raptada por Hades para o submundo,  para que ela o criasse.

À medida que Adónis cresceu, as deusas passaram a disputar a sua companhia, e Zeus, para resolver a situação, estipulou que ele passaria um terço do ano com cada uma delas. Contudo, Adónis preferia Afrodite e permanecia sempre com ela.

Mas a sua natureza altiva, não escutando os conselhos de Afrodite, foi a perdição de Adónis que,  um dia que foi à caça, acabou por sucumbir ao ataque de um javali ferido que lhe cravou os dentes, deixando-o moribundo.

Tal como Ceres e Perséfone, a Proserpina romana, o mito de Adónis está relacionado com os ritos simbólicos associados à Natureza, representando-se assim a morte da vegetação nas profundezas da terra. Adónis personifica a semente que morre e ressuscita, num outro ciclo, com a germinação a vida. 

Derivando da palavra latina flos (flores),Flora era, por sua vez, uma ninfa romana das flores, intimamente ligada à Primavera.  
Porque um novo ciclo se anuncia com a entrada dessa estação, Flora aparece-nos referida como deusa da fertilidade.

Durante os festejos que lhe eram dedicados em Roma, atiravam-se sementes sobre a multidão para atrair a fertilidade e a abundância, situação em que podemos encontrar algum paralelismo no hábito de, nos nossos dias, deitar arroz sobre os recém-casados. 
Eram também sacrificadas ovelhas e ofertado mel.

O mel era exactamente considerado um dos presentes que Flora tinha dado aos seres humanos, simbolizando a abelha a força feminina da natureza.

Flora foi inúmeras vezes associada a Deméter/Ceres, Ártemis e Perséfone/Prosérpina e o poeta Ovídio chega mesmo a relacioná-la com a mitologia grega, identificando-a com a ninfa grega Cloris, embora a origem da divindade seja claramente itálica.

Nessa versão do Mito de Ovídio, um certo dia de Primavera, Zéfiro, o vento oeste, avistou a ninfa Cloris, apaixonou-se por ela e transformou-a em Flora. Como prova de seu amor, Zéfiro nomeou a sua amada como rainha das flores, das árvores frutíferas e concedeu-lhe o poder de germinar as sementes das flores de cultivo e ornamentais, entre elas, o cravo.


Mas também o morango era a fruta da deusa Vénus, e símbolo de fertilidade, tentação e paixão, símbolo dos amores perdidos da mesma deusa por Adónis.

Na Mitologia romana os morangos eram chamados de "Lágrimas de Vénus" e do que reza a lenda, quando o mais belo dos homens morreu (Adónis), as lágrimas de Vénus transformaram-se em pequenos corações vermelhos, embora a mesma lenda nos apareça associada a outras plantas, flores, a exemplo da rosa, e animais, designadamente o javali que investiu contra Adónis e a anémona, ou flor-do-vento, pois o vento é a causa tanto de seu nascimento como de sua morte.

Muito possivelmente a utilização do morango para poções mágicas de amor relaciona-se, com este mito.

Já eram conhecidas as suas caracterísicas mediciais em época romana, pois o fruto tem grandes propriedades em toda a planta: fruto, raiz e folhas.


E retomo as palavras do autor latino do século I que heroiciza,  nas suas Geórgicas, o prestígio da vida agrícola, como um dos pilares da época de Augusto,  :

«(...) Quando renasce a Primavera, e frios regatos correm das montanhas cobertas de neve, e o Zéfiro desagrega as leivas, é chegada a ocasião dos bois começarem a gemer sob o peso do arado tanchando a fundo, e de rebrilhar ao sol a relha desgastada pelo roçar nos sulcos. (...)
Mãos à obra, portanto! Comecem os teus robustos bois, desde o primeiro dia do mês, a revolver a terra feraz, para que o poeirento Verão recoza com rais ardentos de sol as glebas que se lhe oferecem.

(...) o pai dos deuses, o próprio Jove, determinou que fosse árduo o cultivo das terras, pela primeira vez as mandou fabricar obedecendo a uma arte, e aguilhoou com preocupações o coração dos mortais, não consentindo que os seus domínios entorpecessem numa pesada modorra. Antes do reinado de Júpiter não havia agricultores em luta com os campos; não era permitido dividir a terra, e assinalar extremas; os homens buscavam o proveito para o bem comum, e o próprio solo produzia mais liberalmente, sem nada se lhe solicitar. Foi Júpiter que deu às negras serpentes o veneno maléfico, quem mandou que os lobos fossem depredadores, quem ordenou que o mar se agitasse, quem, sacudindo as folhas, fez cair delas o mel; quem retirou aos homens o fogo, e estancou os vinhos que corriam. Tudo para que o homem, à força de experiência e constante exercício, forjasse pouco a pouco as várias artes, alcançasse, abrindo sulcos, as messes de trigo, e fizesse brotar das veias da pedra o fogo que se lhe havia ocultado.

(...) Foi Ceres quem primeiro ensinou os mortais a revirar a terra com o ferro, quando já lhes faltava as landes, e Dodona recusava o alimento fácil».

«Tu, Minerva, que nos deste a oliveira; tu moço inventor do curvo arado; tu, Silvano, que usas em guisa de cajado um tenro cipreste arrancado com as raízes! E vós todos, deuses e deusas a quem cabe o cuidado de proteger os campos, que alimentais as plantas que o homem não semeou, e derramais do céu, sobre as que ele cultiva, a chuva benfazeja!» Também o geógrafo Estrabão se refere à riqueza agrícola e mineira da Turdetania do seguinte modo: «trigo, muito vinho e azeite; este de grande quantidade, e de qualidade insuperável» e adianta ainda que grande parte da costa atlântica e mediterrânica estava coberta de arvoredo: oliveira, vinha, figueira e outras árvores semelhantes e que a região entre o tejo e o Cantábrico "era naturalmente rica e frutos e gado" (3, 3, 5).

Virgílio, Livro I, ed. Sá da Costa, 1948: «As Geórgicas».


Fotografia: Clara Pimenta do Vale

Associada a Atena, (Minerva) e a Júpiter, encontramos neste autor, ao longo da sua obra, várias referências à oliveira, Associada a Atena, (Minerva) e a Júpiter, encontramos neste autor, ao longo da sua obra, várias referências à oliveira, bem como em Catão, Plínio e Estrabão.


Era considerada a árvore da civilização, da fecundidade, da paz e da vitória sobre as forças obscuras, esterilizantes e injustas. 
Do que nos diz a Mitologia, a deusa Atena, que zela pelo Estado e pela prosperidade do mesmo, fez brotar a oliveira por detrás do Erectéion, como o mais belo presente que podia oferecer aos Atenienses.

Mas também a deusa velava pela agricultura.
Segundo Plínio, «Há também azeitonas muito doces que se secam por si, mais doces que uvas passas; são bastante raras e produzem-se na África e próximo de Emérita, na Lusitânia» Plínio, NH, XV, 17.

Este autor latino refere ainda que a Bética obtinha as suas mais ricas colheitas das oliveiras e que o solo cascalhoso era muito apto para plantar olivais.

É sabido que a oliveira, a par da videira, foi uma das primeiras árvores a ser cultivada, há mais de 5.000 anos, no Mediterrâneo Oriental e Ásia Menor, sendo os Fenícios, Sírios e Arménios os primeiros a consumir azeite.

Era utilizado na alimentação, higiene e beleza e ainda com fins medicinais.

Durante o Período Romano, foi muito utilizado para tratamentos capilares, sendo também aproveitado para a iluminação, designadamente nas lucernas, ou candeias, como lubrificante de ferramentas e alfaias agrícolas, impermeabilizante e ainda em rituais religiosos, tendo mantido, contudo, o seu tradicional uso na alimentação e para efeitos medicinais.

Mas também todas as outras plantas, árvores e flores beneficiavam dessa íntima relação com as divindades.

Os cereais, criados por Ceres, e, mais especificamente, o trigo, aparecem associados pois a Ceres e Deméter, filha de Crono e de Reia, que parece ter dado os primeiros grãos de trigo a Céleo de Elêusis.

É a deusa do trigo, facilitando-lhe a germinação, e as colheitas, de que assegura o amadurecimento.

Também na obra de Virgílio há inúmeras referências ao trigo  que aconselha «Terras anegradas, onde a relha escorrega quase sem esforço, mas que se esfarelam - para isso serve o charruar - são as melhores para o trigo»,

As Geórgicas, Ed. Sá da Costa, 1948, Lisboa. Plínio, NH, XVIII,

Por sua vez, Plínio informa-nos, na sua História Natural, que na Hispânia o trigo se guardava em silos e que «assim, se não penetra qualquer ar no trigo, é seguro que não haverá qualquer dano» Plínio, XVIII, 306-307.

Por sua vez, Plínio informa-nos, na sua História Natural, que na Hispânia o trigo se guardava em silos e que «assim, se não penetra qualquer ar no trigo, é seguro que não haverá qualquer dano» Plínio, XVIII, 306-307.

Segundo informação de Estrabão, «Da Turdetânia exporta-se trigo, muito vinho e azeite; este, para mais, não só em quantidade, como de qualidade insuperável» Estrb. III,2, 65.

Assim das mãos de Deméter/Ceres surgiu o trigo, considerado também o símbolo da Civilização, essa capacidade de os Humanos moldarem a Natureza.

Sendo a deusa da agricultura, fez muitas viagens em companhia de Dionísio, deus da vinha e do vinho, para ensinar os homens a cultivarem a terra e a cultivá-la.



Teve uma filha com seu irmão Zeus chamada Perséfone, de que já falámos nesta revista, que vivia meio ano nas profundezas da Terra e outra metade vinha ajudar a sua mãe. Com o seu regresso inaugurava-se a Primavera, marcado pelo Equinócio da Primavera.

Cantemos, pois, a Primavera e os campos que encherão de papoilas, honrando também Deméter, deusa da fertilidade e das estações do ano e de que a flor é atributo.

Poderá consultar-se:

Filomena Barata,

Espécies vegetais de Miróbriga e as suas referências mitológicas e Bibliográficas


Filomena Barata
Mestrado em Arqueologia
Colaboradora do CIDHEUS, Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades. Universidade de Évora

quinta-feira, 2 de março de 2017

Dia Internacional da Mulher no Museu Nacional de Arqueologia


O Museu Nacional de Arqueologia associa-se às iniciativas do Dia Internacional da Mulher, lembrando as Mulheres de todos os tempos.
Assim, pelas 10h 30m de dia 8 de Março, irá realizar uma visita guiada à exposição «As Religiões da Lusitânia», observando o testemunho que o tempo nos deixou, escrito ou lavrado no feminino.
Junte-se a nós!

Na fotografia: Busto Cabeça-retrato de uma jovem mulher, proveniente da Villa Romana de Milreu. Publicada em:
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=110198

© Arquivo de Documentação Fotográfica, DGPC. MNA




"Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el' tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos."

Jorge de Sena